Resinas: o caminho sem volta das importações

Tarifas ultra altas não esfriam desembarques no Brasil em 2025
Resinas o caminho sem volta das importações

2025 comprovou o fiasco das barreiras protecionistas instituídas para conter o ímpeto das importações brasileiras de resinas commodities, atestam os indicadores de comércio exterior do último período rastreados pelo governo e captados pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim). O saldo dos desembarques em 2025 foi fixado em 3.708.579 toneladas contra 3.718.513 aferidas em 2024. A propósito, no exercício de 2023 o total importado não passava de 2.724.535 toneladas. No pano de fundo, se ergue o horizonte imutável desde o fim do super ciclo mundial de investimentos petroquímicos (1992-2021), regido pelos EUA e Ásia: superoferta mundial, rentabilidade das resinas em queda em espiral e uma demanda enregelada por fatores até agora irremovíveis, como a crise interna da China e a deterioração da economia da Europa. Em paralelo, o choque demográfico mundial (redução da natalidade e aumento da expectativa de vida) e rupturas geopolíticas e o advento da Inteligência Artificial destruiram as noções ortodoxas de ciclos e planejamentos na indústria, cobrando dela uma reinvenção para não sucumbir.

Uma síntese do atual estado de emergência emana da mediana dos spreads (diferença entre o preço de venda das resinas e o custo das matérias-primas) aferido entre preços CFR de polietilenos (PE) da China e custos CFR de nafta do Japão. Pela régua da consultoria Icis, no período de 1993-2021 o spread pairou em US$ 532/t e, de janeiro de 2022 a 16 de janeiro de 2026, o índice minguou para US$ 299/t.

Em quatro anos de crescente excedente global de termoplásticos, o Brasil, com petroquímica superada e dependente da cara rota nafta, se consolidou como canal de desova de resinas internacionais. A adoção de sobretaxas tarifárias e incentivos fiscais a rodo contribuem para melhorar as margens de sua indústria, mas ainda assim os volumes de importações não recuam, por motivos como preços internacionais atraentes -mesmo quando onerados pela taxação adicional brasileira – e produção doméstica insuficiente de determinados materiais, como PVC e polietileno de baixa densidade (PEBD).

Estirênicos: cortes na capacidade

Na raia dos hidrocarbonetos aromáticos, constatou o monitoramento da Abiquim, o Brasil importou 124.020 toneladas de poliestireno (PS) em 2025, 115.093 em 2024 e 91.547 em 2023. Pelo flanco das exportações, o país remeteu 46.442 toneladas em 2025, 41.455 em 2024 e 57.279 em 2023. Quanto a estireno, o Brasil importou 174.012 toneladas em 2025, 225.985 em 2024 e 215.988 em 2023. As exportações do monômero permanecem simbólicas: meras 385 toneladas em 2025, 175 em 2024 e 70 em 2023.

Em recuperação judicial e alegando efeitos do martírio da petroquímica mundial, a Unigel anunciou em janeiro deste ano o fechamento de suas defasadas plantas de 120.000 t/a de estireno em Cubatão (SP) e de 190.000 de PS em São José dos Campos (SP). Com isso a capacidade brasileira nominal do estireno desce para 580.000 t/a e a de PS para 415.000. Do lado da Unigel, este saldo inclui uma unidade estireno em Camaçari (BA) e outra do polímero no Guarujá (SP). A concorrente Innova comparece com seu complexo de estireno/PS em Triunfo (RS) e a fábrica de PS em Manaus. Apesar dos ativos desligados pela Unigel, a capacidade nominal brasileira de estirênicos continua a cobrir a demanda doméstica, No entanto, a robustez das importações nos últimos anos tende a prosseguir até segunda ordem, incandescidas pela superoferta, escalas e custos dos produtores dos EUA e, em especial, da Ásia. Indicadores da consultoria Icis situam em 43% a fatia da China na capacidade global de estireno em 2024, devendo pular para 53% em 2030.

Resinas: preços médios internacionais (US$/t) em 2025 – evolução semanal.

PVC: importações tomam a batuta

No Brasil, PVC virou sinônimo de produção insatisfatória no setor plástico. A capacidade nominal é de 1.030 milhão de t/a, sendo 300.000 da Unipar e 730.000 da Braskem. A realidade golpeia fundo este número teórico desde 2018, quando a gestão desleixada da mineração do insumo salgema pela Braskem em Alagoas resultou numa calamidade geológica sem igual na petroquímica brasileira. Em decorrência, a cadeia soda cloro da Braskem foi alvejada pelo fim da mineração de sal gema e da produção de dicloroetano, intermediário para PVC importado desde então dos EUA. Essa reviravolta tem feito a Braskem rodar sua capacidade do vinil em níveis de ocupação a desejar.

Essa insuficiência doméstica e a força bruta do excedente mundial desembocam em importações para acompanhar a demanda e que já batem fácil a capacidade do menor player local, a Unipar, e rumam para ultrapassar logo o potencial nominal da Braskem. Em 2025, a propósito, as três principais origens das importações brasileiras de PVC foram as mesmas do ranking de 2024: Colômbia, com 295.986 toneladas; Egito, com 118.148 e, apesar da muralha do antidumping, os EUA, com 97.347 toneladas.

Em 2025, a importação brasileira de PVC atingiu 643.336 toneladas versus 580.086 em 2024 e 425.981 em 2023. Pelas razões já marteladas aqui, as exportações brasileiras do vinil têm descido a ladeira: 31.507 toneladas em 2023, 18.099 em 2024 e 17.714 no último período.

PP colombiano e saudita

No cercado das poliolefinas, termoplástico mais consumido no planeta, a capacidade instalada brasileira de polipropileno (PP), a cargo apenas da Braskem, soma 2.015 milhões de t/a. No ano passado, as importações da resina emplacaram 698.579 toneladas, de leve abaixo das 723.281 internadas em 2024 e acima das 509.467 desembarcadas em 2023. Tal como visto em PVC, as três principais origens das importações brasileiras de PP em 2025 foram as mesmas do exercício anterior: Colômbia, com 144.293 toneladas; Arábia Saudita, com 140.079 toneladas e Argentina, com 100.806 toneladas.

Por sinal, este ranking traz à tona duas facetas da conturbada conjuntura mundial de PP. A ascensão da Colômbia evidencia as facilidades do seu acordo comercial bilateral com o Brasil e a perda de competitividade da resina dos EUA, gravada aqui com antidumping. A aparição da Arábia Saudita, por seu turno, decorre da sua busca de mercados para tentar compensar a perda de seu cliente externo nº1, a China, desde que se tornou, nos últimos dois anos, 100% autossuficiente na produção de PP. Desde então, a China trata de desovar sua resina excedente na Ásia e América do Sul. A consultoria Icis projeta em 11.6 milhões de t/a o atual excedente da capacidade chinesa de PP perante a demanda local. Apenas no período de janeiro e maio de 2024, ilustra a mesma fonte, a China exportou 1.260.784 toneladas de PP e o Brasil respondeu por 6% das entregas, figurando em terceiro entre os 10 maiores destinos dessas vendas externas dois anos atrás.

Na selfie das exportações de PP, o Brasil fechou 2025 com embarques de 225.798 toneladas. O volume superou por pouco as remessas de 200.785 toneladas em 2024 e perdeu para as 240.191 despachadas em 2023.

PE: excedente aumenta pressão

Polietilenos (PE) detêm a maior capacidade nominal na petroquímica brasileira, da ordem de 3.201 milhões de t/a providas apenas pela Braskem. Apesar dessa envergadura, sua fragilidade competitiva é ilustrada pelo fato de as importações brasileiras dessa poliolefina, atolada em excedente global recorde, já superarem a marca de 50% da capacidade doméstica. Na suíte do tipo de alta densidade (PEAD), o Brasil trouxe 659.101 toneladas em 2025 versus 695.900 em 2024 e 449.794 em 2023. No âmbito das resinas de baixa densidade e linear (PEBD e PEBDL), os desembarques no Brasil somaram 497.669 toneladas no ano passado, de leve aquém das 530.614 aferidas em 2024 e acima das 417.462 do saldo de 2023. Por fim, no saguão dos copolímeros de etileno e alfa-olefina, as importações alcançaram 750.998 toneladas em 2025, seguidas pelas 696.627 computadas em 2024 e, bons degraus abaixo, pelas 499.944 internadas em 2023.

Dos pontos de vista econômico e logístico, a lógica explica as três principais origens das importações de PE nos últimos dois anos. Bombeados com o gás natural mais barato do planeta, os EUA lideraram o ranking com 1.275.440 toneladas em 2025 e 1.374.430 em 2024. A vice liderança cabe à Argentina, onde a Dow monopoliza a produção de PE. Suas remessas para o Brasil são fixadas em 266.499 toneladas no ano passado e 208.970 no exercício precedente. A trinca fecha com as importações brasileiras do Canadá: 87.905 toneladas em 2025 e 121.843 em 2024.

A distância dos principais mercados e preços em desalinho com a acessível média internacional de PE, determinada pela crônica abundância da poliolefina, trabalham para o raquitismo das exportações brasileiras. Em PEAD, não passaram de 244.502 toneladas em 2025; 255.006 em 2024 e 221.439 em 2023. No flanco de PEAD e PEBDL, as exportações limitaram-se a 374.482 toneladas em 2025; 331.295 em 2024 e 316.461 um ano antes. Por fim, os embarques brasileiros de copolímeros de etileno e alfa-olefina foram pro forma: 1.011 toneladas no ano passado, 429 em 2024 e reles 75 em 2023.

Alpek e Indorama fazem as honras da capacidade brasileira de 1 milhão de t/a de polietileno tereftalato (PET) para servir uma demanda cerca de 20% inferior, situam sensores setoriais. O calcanhar de aquiles do preço, vaticinam analistas, fundamenta as importações de 160.864 toneladas em 2025; 150.927 em 2024 e 114. 352 em 2023. Por sua vez, a super oferta mundial (Ásia, em especial) de PET e matérias-primas como ácido tereftálico purificado (PTA) e os custos impeditivos da produção do poliéster no Brasil transparecem das mirradas exportações brasileiras no último triênio: 38.586 toneladas em 2025; 88.123 em 2024 e 61.127 em 2023.

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