O desafio de tirar boas intenções do papel

Propósitos e dilemas da política Nova Indústria Brasil
O desafio de tirar boas intenções do papel

Desde abril passado, o presidente Trump atirou pela janela um dos pilares do liberalismo que tornaram os EUA a nação mais próspera e dinâmica já conhecida: a extensão da competição interna e a abertura e integração comercial do país com o resto do mundo. Em linha com a guinada americana de 180º, abraçando um fechamento econômico sem precedentes de sucesso em sua aplicação internacional, países em penca embarcaram na nova onda, tanto em retaliação ao vulcão de barreiras tarifárias americanas às suas exportações como para proteger de importações indústrias nacionais tornadas vulneráveis à concorrência externa pela estagnação.
Visto pelo consenso global como mercado ultra fechado desde antes de Trump nascer, o Brasil tenta há décadas o milagre de tirar sua indústria manufatureira da pasmaceira e participação declinante no PIB sem respaldo da liberdade econômica e sem atacar a sério o Custo Brasil. A manifestação mais recente nesse sentido aflorou do entendimento do governo com a iniciativa privada no lançamento, em janeiro de 2024, do modelo de política industrial denominado Nova Indústria Brasil. Seu desdobramento na vida real é acompanhado por José Ricardo Roriz Coelho, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), entidade integrante do Fórum Nacional da Indústria, órgão consultivo da Confederação Nacional da Indústria, colaboradora-chave da concepção da NIB. Nesta entrevista, Roriz analisa metas e desafios à frente dessa proposta para frear a desindustrialização do país.

Como a NIB difere dos modelos passados de política industrial no Brasil, norteados por protecionismo, cartorialismo empresarial, subsídios fiscais e desinteresse pela competitividade internacional?

A NIB é uma política industrial pensada para um novo estágio de desenvolvimento industrial global. Trata-se de uma conjuntura onde a globalização e abertura dá lugar a disputas comerciais, elevações de barreiras tarifárias e segurança energética. Com base nessa premissa, a NIB foi pensada para desenvolver missões para melhoria de sistemas, como o complexo da agroindústria, da saúde, infraestrutura, saneamento e mobilidade, bioeconomia, defesa nacional e transformação digital da indústria. Em sua missão relativa à bioeconomia, a NIB contempla a economia circular como prioridade, um ponto diferente das iniciativas de política industrial anteriores e traz uma oportunidade para o setor plástico.

“É preciso convergência entre as políticas industrial, de defesa comercial e para reduzir o Custo Brasil”

José Ricardo Roriz Coelho, Abiplast

jose ricardo roriz coelho

Sob a vigência das políticas protecionistas passadas, a indústria nacional nunca cumpriu a promessa de, durante o fechamento, se preparar para a competição internacional. Como a NIB pretende romper com este precedente?

Infelizmente, temos uma diferença entre política industrial (para fomento do setor) e política comercial (para restringir ou balizar padrões de comércio). E esse é o caso em que as duas formas de política podem não convergir em seus objetivos. Nesse sentido, é preciso atuar nas duas frentes e defender para que haja sinergia entre as duas correntes.

Há mais de três décadas seguidas o Brasil pratica antidumping para PVC importado dos EUA e México sem investir na capacidade instalada local. Essa postura da petroquímica se enquadra nos princípios de competitividade/produtividade defendidos pela NIB?

Como citado na resposta anterior, este exemplo reflete um dilema das políticas que precisariam contar com maior integração. Não temos essa relação direta entre a NIB e a política de defesa da concorrência, quando inclusive vimos não só as defesas comerciais como antidumpings sendo aplicados e revisados, mas também o aumento geral tarifário para produtos petroquímicos. Como já comentei, é preciso convergência entre as diversas políticas, sejam a industrial, de defesa comercial, de estratégia para reduzir o Custo Brasil.

Fruto do alinhamento do empresariado com governo, a NIB prioriza a manufatura nacional de produtos com baixa pegada de carbono, em sintonia com sustentabilidade e economia circular. No entanto, o mesmo governo (tal como os anteriores) respalda a expansão da produção nacional de fonte fóssil de energia (petróleo), poluidora ambiental nº1. Como fica a NIB em meio a essa colisão de interesses?

A NIB tem uma missão especifica que trata desse tema: bioeconomia, descarbonização, transição e segurança energética. Também delimitou metas bem claras sobre o que ambiciona nesse quesito: propõe cortar em 30% a emissão de gás carbônico por valor adicionado do Produto Interno Bruto (PIB) da indústria, elevar em 50% a participação dos biocombustíveis na matriz energética de transportes e aumentar o uso tecnológico e sustentável da biodiversidade pela indústria em 1% ao ano.

Através do BNDES e demais bancos públicos, o governo responde pelas ferramentas financeiras impulsionadoras da NIB, tal como era praxe nas políticas industriais anteriores. Por que não houve esforço/empenho dos atores dessa política em envolver/ampliar a colaboração do financiamento privado para reduzir a dependência de um poder público de verbas restritas?

Por mais que possam existir críticas ao BNDES ou bancos públicos (pode haver mau uso de instrumentos públicos e erros no meio do caminho, mas devemos entender a importância desses instrumentos para nossa competitividade), o fato é que eles são instituições importantes de financiamento. E com os juros atuais, partir para financiamento privado certamente seria ainda mais caro e inviável para a indústria investir. O ponto chave é que devemos focar no problema central no tocante ao custo de capital, que são os juros. Precisamos de políticas efetivas para redução do custo de capital. Só assim nossa indústria poderá fazer investimentos competitivos.

NIB defende o incremento da digitalização na indústria nacional para elevar a produtividade. Como transpor à prática este propósito em meio à escassez alarmante de jovens engenheiros e ao desinteresse dos novos talentos por ciências exatas e pela carreira na manufatura?

Esse é um enorme desafio que passa por investimentos em tecnologias para transformar a visão de que fábrica e indústria são algo do século XIX para hoje atrair mão-de-obra interessada em atuar na manufatura.
Aqui fica o velho dilema que reside na escolaridade e qualidade da formação média brasileira. A indústria precisa de gente com escolaridade e capacitação para ser produtiva e paga por essa qualificação (no caso do plástico, somos o 4º maior empregador da indústria de transformação [manufatura] e, entre os grandes setores empregadores somos quem paga os melhores salários na média).Para isso, porém, precisamos de empregados produtivos e para tal, essa mão de obra já precisaria vir qualificada desde o início de sua formação escolar.

Comprometida com a defesa ambiental, a NIB apóia a reciclagem de materiais. Apesar de décadas de pregação da sustentabilidade, a reciclagem de plástico sente mundialmente (Brasil incluso) o baque da super oferta de resina virgem acessível e da insuficiente coleta de resíduos. Por que, então, defender um tipo de reciclagem cada vez mais visto como ineficaz para combater a crise climática?

Conforme já assinalei, a NIB tem uma missão especifica em relação à bioeconomia, descarbonização, transição e segurança energética. São temas muito mais transversais do que a atividade de reciclagem, que reconhecemos ser um dos eixos da economia circular. Nesse eixo estratégico a NIB tem metas bem definidas e já mencionadas como cortar em 30% a emissão de gás carbônico por valor adicionado do PIB industrial, elevar em 50% a participação dos biocombustíveis na matriz energética de transporte, e aumentar em 1% ao ano o uso tecnológico e sustentável da biodiversidade pela indústria.
A reciclagem perpassa esses temas e é uma atividade capaz de gerar externalidades positivas para o meio ambiente e para sociedade. Não defender essa atividade é até ilógico. Qualquer que seja a atividade humana, teremos geração de resíduos e reaproveita-los e recicla-los é uma ação básica se queremos usar de forma mais eficiente possível os recursos descartados.

Sempre aliadas ao poder público, as políticas industriais precedentes fracassaram no intento de combater o Custo Brasil. Como a NIB pretende escapar dessa sina?

Entendo que esta, sim, é uma crítica pertinente. As políticas muitas vezes atuam de forma ‘descasada’. A política industrial objetiva melhorar o ambiente para a indústria prosperar, mas, a depender de outras decisões políticas, a estratégia idealizada pode piorar em outros flancos e esse caso da política industrial, se independente de uma política de redução dos fatores que causam o Custo Brasil. Eles são o calcanhar de Aquiles de qualquer iniciativa que objetive melhorar o ambiente competitivo do Brasil. •

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