Dois anos atrás, a activas, goleador da distribuição nacional de resinas, rompeu com um mandamento do seu negócio desde a fundação, em 1990: foco estrito na comercialização de materiais para a cadeia plástica. O jogo virou com a aquisição do controle de uma componedora, logo rebatizada como actplus, e já em 2024 a mão do novo gestor se fez sentir no salto de 42% na sua receita. O desempenho refletiu também o entrosamento iniciado entre a produção de especialidades com os tentáculos de um grupo que, no ano passado, distribuiu 54.000 toneladas de um portfólio de mais de 300 materiais a cerca de 1.600 clientes. Desde então, toma corpo a sinergia entre as duas operações – movimento aliás sem similar no varejo brasileiro do plástico – e a lapidação mais recente nesse sentido aflora da montagem de uma equipe especializada para dedicação exclusiva ao mercado de soluções valorizadas e de cunho mais específico e não cobertas pelo Grupo activas, que segue na retaguarda provendo para a actplus o respaldo e infraestrutura que constituem o trampolim para seu projetado crescimento. Nesta entrevista, Laercio Gonçalves, CEO do grupo, detalha a estratégia para multiplicar a soma dessas operações independentes e co-irmãs.
Em 2023, quando incorporou a actplus, qual a receita do Grupo activas com a comercialização de especialidades plásticas? Qual o impacto nesse movimento causado pela entrada em cena da componedora actplus no exercício de 2024 e qual a perspectiva para este ano?
Em 2023, o Grupo activas faturou perto de R$ 40 milhões com a comercialização de especialidades. Com a partida da actplus no ano passado, a receita trouxe um volume adicional significativo, que se soma às vendas já estabelecidas em especialidades pela distribuidora activas. A actplus nos permitiu ampliar a atuação em segmentos que demandam soluções customizadas, desenvolvimentos tecnológicos e avanços que se encaixam como inovação industrial. A componedora reforçou a complementariedade entre as atividades de distribuição e produção do nosso grupo. Para este ano, a perspectiva é de aliar o crescimento das vendas com o do portfólio de materiais.
“Estruturamos com a actplus a presença em campos das especialidades onde atuávamos pouco”
Laercio Gonçalves, Grupo activas
Há duas correntes de opinião no setor de distribuição de resina. Uma diz que distribuidor não deve se meter na produção de transformados e/ou compostos/masters para não competir com clientes. Outra corrente alega que, mundialmente, essa produção virou hoje uma extensão natural do negócio da distribuição e é aceita pelos clientes. Como CEO de um grupo que distribui e há dois anos produz especialidades, qual a visão atual do mercado sobre isso?
Esta é uma discussão legítima e que divide opiniões. Eu diria que as duas correntes podem ter razão, dependendo de como o modelo de atuação é estruturado. O risco de conflito quando o distribuidor passa a produzir compostos ‘commoditizados’, competindo direto com clientes transformadores é maior em segmentos onde a diferenciação é baixa. Por outro lado, já é uma consolidada tendência mundial que distribuidores ampliem sua atuação para além da simples compra e venda, entrando em serviços de maior valor agregado — tolling, masterbatches, compostos técnicos, aditivos, tingimento, homologações, além de uma estrutura robusta de desenvolvimento de reciclados era aparas industriais.
No Brasil, a visão do mercado tem amadurecido. Há uma aceitação crescente quando essa produção é posicionada como complementar e não como concorrência. Ou seja: quando entregamos customização, lotes menores, rapidez de desenvolvimento e suporte técnico, em vez de competir em grandes volumes padronizados. Na prática, o cliente enxerga que está ganhando um parceiro que agrega agilidade e inovação.
Quais os principais mercados de especialidades nos quais o Grupo activas não atuava e passou a cobrir através da actplus?
Estruturamos com a actplus a presença em campos das especialidades onde atuávamos pouco, com destaque para linha branca. Ela passou, assim, a receber soluções customizadas em compostos de engenharia, principalmente de copolímero de acrilonitrila estireno (ABS). Outra linha de produtos que expandimos bem nos últimos tempos é a de chapas de poliestireno (PS) para termoformados de alimentos.
Qual a capacidade nominal da actplus e como avalia o nível médio de ocupação em 2024 e quais as perspectivas para este ano?
Em sua unidade em Diadema (Grande São Paulo), a actplus possui capacidade nominal de 7.200 t/a. Manteve em 2024 um nível de ocupação estável da ordem de 50%. Para 2025, projetamos um crescimento de cerca de 5% na ocupação, apoiado na consolidação de contratos existentes e no fortalecimento do relacionamento com clientes estratégicos. Para 2026, a previsão é de um crescimento superior a 10%, impulsionado por investimentos em readequação de processos e modernização e expansão do parque fabril.
A activas foca a distribuição de resinas e especialidades, enquanto a actplus opera como indústria de compostos, masters, tolling e tingimento. Na prática, como essas atividades distintas se combinam?
Essa complementariedade se dá principalmente na forma como entregamos soluções completas ao mercado, combinando a força da distribuição com a inovação industrial. Além disso, ambas as empresas se beneficiam de estruturas internas robustas e compartilhadas – como RH, TI, Marketing, Financeiro e demais áreas de apoio – o que garante sinergia, eficiência e consistência na forma como nos apresentamos aos clientes e parceiros.
Quais as principais mudanças agora implantadas no organograma da actplus na estratégia de operação?
O novo organograma da actplus foi desenhado para impulsionar o crescimento da operação e dar clareza aos papéis estratégicos. Eu sigo como CEO do Grupo, enquanto Cesar Eduardo assume a posição de CFO da actplus. Na gestão da unidade, Gabriel Pettenatti responde pela área de produção, Marcela Bonetti pela de inovação, laboratório e qualidade, e Rene Godoi está à frente de vendas e expansão dos negócios.
Quais as principais inovações em termos do portfólio de produtos e em termos de serviços de atendimento implementadas na operação da actplus?
Entre as novidades, destacamos o tolling e o co-manufacturing, voltados a clientes que preferem terceirizar sua produção mantendo a propriedade intelectual. Também estamos em fase de investimento para, em breve, oferecer serviços de micronização, ampliando assim mais nossa capacidade de suporte. Além disso, reforçamos o compromisso de entregar desenvolvimentos com precisão e agilidade, apoiados por uma estrutura robusta, que inclui parque fabril atualizado e laboratório dedicado.
Como avalia a possibilidade de a actplus diversificar seu portfólio ingressando na comercialização de produtos químicos fora do universo dos plásticos?
Essa diversificação é uma possibilidade real e pode ser bastante positiva, desde que conduzida de forma faseada e com governança adequada. Seria o caso de produtos adjacentes, como lubrificantes industriais, aditivos para reciclagem ou insumos para manutenção, que apresentam sinergia imediata com a base de clientes e a infraestrutura já estabelecida.
O Grupo activas mantém a praxe de realizar planejamento estratégico quinquenal. Nesse sentido, qual a visão para a actplus até 2030?
Nos próximos cinco anos, a meta é consolidar a actplus como referência nacional em masterbatches, compostos, tingidos e industrialização. A empresa projeta crescimento anual de 15% no faturamento, utilizando aproximadamente 80% da capacidade nominal em Diadema. Em paralelo, a componedora pretende expandir continuamente seu portfólio, incluindo linhas com conteúdo reciclado certificado (PCR), compostos e demais soluções customizados e de alto valor agregado. •


