Pesquisa de Opinião

Você acredita que soluções mundialmente aceitas serão tomadas para evitar a piora da crise climática? Ou elas só serão levadas realmente a sério depois da ocorrência de grandes catástrofes resultantes da falta de medidas preventivas?
Crise climática
Edson Begnami, diretor comercial da Plasútil

Edson Begnami

Diretor comercial da Plasútil

“O mundo verde no futuro não garante reeleição hoje”

Considerando a polarização que o mundo atravessa, aumentando consideravelmente o pretensiosismo dos países, por vezes, por vaidade dos governantes, não teremos grandes avanços nas medidas que possam trazer melhorias nas condições climáticas.

Toda vez em que o mundo atravessa processos de crises, os países se voltam para dentro, em busca de proteger suas economias e a manutenção dos governantes e ou partidos no poder. O mundo verde no futuro não garante reeleição hoje.

As condições climáticas extremas já são sentidas em diversas partes do mundo, mas ainda não são suficientes para agregar os países consensualmente. Desde Paris 2015 na COP21, cujo financiamento climático propunha US$ 100 bilhões para apoiar as nações em desenvolvimento, pouco se alcançou financeiramente e na prática muita ação ficou apenas na diplomacia.

Não faço aqui nenhum julgamento; só expresso minha opinião.

Bruno Igel da Wise

Bruno Igel

Diretor Geral da recicladora Wise Solutions

“O negacionismo científico tem caído por terra”

Minha opinião sobre o tema da pergunta muda a cada semana. Olhando em perspectiva, acredito que o mundo está avançando em direção a uma economia de menor incidência de carbono do que se tinha no passado, mesmo que em ritmo muito menor do que parte da sociedade gostaria. A negociação do clima é complexa, mas possível. Quase 40 anos atrás já se demonstravam instrumentos institucionais para lidar com esse tipo de problema, como o compromisso para redução do buraco na camada de ozônio. Na prática, isso resultou num acordo diplomático atrelado a um financiamento e transferência de tecnologia e teve enorme sucesso. A negociação do clima vai na mesma direção, mas ela depara com outra escala, interesses de setores muito grandes, custos de transição enormes e, provavelmente, mudança da posição competitiva dos próprios países no longo prazo. É natural que haja muitos interesses contra as medidas drásticas que evitam as mudanças climáticas e, na prática, quase sempre afastam esses acordos de algo próximo da unanimidade dos atores globais.

Sou cético de que o mundo migrará para uma economia com menor emissão de carbono por uma abrangência ética necessária ou responsabilidade perante as futuras gerações. O que parece ser a esperança para nos agarrarmos é que os temas ambientais se tornem, de alguma maneira, temas econômicos. O negacionismo científico tem caído por terra, tendo em vista os desastres que estão acontecendo e com custos e riscos futuros mensurados por casas de seguro e números com 13 dígitos expostos à mídia. Provavelmente mais de 90% dos cientistas e governos aceitam que a velocidade do aquecimento global está ligada à ação humana e desenvolvimento da sociedade. A discussão está caindo mais para esta dúvida: se é mais razoável aceitar e buscar a adaptação ou se devemos mitigar a mudança climática com redução das emissões de carbono.

Partimos, portanto, de um negacionismo científico para um negacionismo econômico, no qual o custo de alteração do modelo de produção, transporte e sociedade como um todo é muito alto. Acredito que esta percepção irá mudar. Perceberemos que o custo de alteração do modelo econômico é menor do que imaginamos, com enorme criação de empregos em investimentos em novas fontes de energia, economia circular e substituições de materiais para uma economia mais natural. Acho que em poucos anos concluiremos que é mais barato para sociedade reduzir a emissão de carbono do que nos adaptarmos a ela.

Sendo assim, a resposta é sim, acho que a sociedade vai tomar atitudes relevantes para mitigar as mudanças climáticas nos próximos anos. A maior insegurança tem relação com o tempo que levaremos para isso. Sem dúvida é processo gradual, mas em um mundo em que a China passa a ser a potência previsível e liderando boa parte da agenda climática, enquanto os EUA passaram a ter atitudes de economia emergente e um pragmatismo financeiro com um quase desprezo pelos temas climáticos, mesmo sob a ótica econômica, fazer previsões sobre a velocidade desse processo é, para mim, impossível.

Horácio Murua, CEO da convertedora Cepalgo

Horácio Murua

CEO da convertedora Cepalgo

“Mudanças de fato só ocorrerão quando uma nova realidade se impor”

De fato, a pergunta se refere a algo difícil de prever. Sabemos pela História que o elemento que impulsiona a busca de soluções são sempre as grandes crises. De outro lado, implementar soluções sempre significa investimentos e mudança de status quo econômico. Desse modo, é regra que governos e setores empresariais só reajam a grandes pressões populares ou a grandes crises como evidentes desastres naturais.

Não podemos esquecer também que a História mostra que aquilo que conhecemos como ciência não representa o que ela será mesmo no futuro. Ou seja, o quanto ele aportará de inovações para reduzir o efeito das catástrofes anunciadas. Lembremos de Malthus (economista Thomas Malthus) e sua teoria (Maltusianismo, 1798) do crescimento da população em progressão geométrica versus produção de alimentos crescendo em progressão aritmética, descompasso que teria matado de fome todos antes do século 21. A tese se provou totalmente equivocada, pois não levava em conta o desenvolvimento de adubos sintéticos e defensivos agrícolas, bem como a inflexão de curvas de natalidade inerente ao aumento de renda.

Entre estes pensamentos cabem três reflexões:

  1.  A ciência hoje é categórica; se nada fizermos, os eventos serão cada vez mais catastróficos.
  2.  A ciência hoje não é nem jamais será a ciência do amanhã.
  3. Mudanças de fato só ocorrerão quando uma nova realidade se impor.

Na minha visão, o que é mundialmente aceito é a necessidade de implementarmos soluções para administrar melhor a biosfera. É o ponto principal. A sociedade entende essa necessidade e está disposta a buscar soluções e até a fazer alguns sacrifícios para isto.

Porém, também devemos entender que as nações estão em todos os momentos em condições diferentes na sua realidade socioeconômica. Daí ser praticamente impossível haver consenso. Assim, não vejo que soluções possam a vir ser criadas pela caneta de governos – as agendas servem mais como guias que como verdadeiras metas.

Além disto, também há ceticismo. Já são 50 anos de notícias de desastres previstos que não aconteceram no prazo como o derretimento total do ártico para 2013, etc. Muitas vezes, isso dá corda para reduzir a intensidade da busca.

Creio que um exagero na busca imediatista tem gerado mais prejuízo e preconceitos que soluções, haja vista as ridículas ações de banimento do plástico em lugar de procurar as soluções que a indústria, por si só, já está encontrando.

Por isso, não devemos descartar o risco que corremos, e dar valor sim às advertências da ciência do agora, como um inegável alerta que nos leve a continuar impulsando a descoberta de soluções pela sociedade. Não são os governos ou suas leis, que nos trarão soluções, nem haverá mesmo com tantos alertas unanimidade nas medidas. Por isso mesmo, muitos não assinam as metas e a maioria que as assina não as cumpre. Será a ciência do futuro, aquela que nossos cientistas estão construindo, que encontrará a resposta.

Cabe à sociedade respeitar os alertas, incentivar e cobrar que os governos auxiliem nesta busca de soluções, sempre lembrando que forçar demais pode levar ao erro

03 Silvio de Andrade

Silvio de Andrade

Diretor da SLEA Comunicação

“A transição climática só começa a ganhar tração quando vira cálculo financeiro”

Sim, acredito que soluções mundialmente aceitas ainda podem ser tomadas para evitar a piora da crise climática, mas não por senso coletivo de urgência e, sim, porque o capital está ficando desconfortável com o tamanho do risco.

A transição climática só começa a ganhar tração quando vira cálculo financeiro. E hoje já há pressão suficiente para mexer nos modelos de negócios, principalmente vinda de investidores que, atentos à regulação e ao custo das externalidades, passaram a favorecer atividades com menor pegada ambiental, menor exposição a riscos climáticos e maior resiliência de longo prazo.

Na indústria de compósitos, por exemplo, vemos cada vez mais iniciativas concretas de redesenho de produtos com base em Análise de Ciclo de Vida (ACV), substituição de matérias-primas fósseis por bioplásticos e uso de fibras naturais em estruturas que antes dependiam exclusivamente de insumos sintéticos. Muitas vezes, essas escolhas reduzem peso, emissões e custo logístico. Ao mesmo tempo, abrem portas em mercados mais exigentes.

Esse movimento está longe de ser generalizado; ainda é puxado por poucos agentes. E não se dá por consciência ambiental espontânea: os sinais econômicos estão mudando. Empresas vêm sendo cobradas a provar sua eficiência não apenas financeira, mas ambiental e social. ESG, nesse contexto, é critério de acesso a crédito, atração de talentos, licenciamento e permanência no jogo.

Portanto, sim, soluções podem ser tomadas. Porém, só funcionam mesmo quando começam a doer no bolso.

Claudia Savioli

Claudia Savioli

Diretora executiva da Polymark Embalagens

“Precisamos acelerar as ações e evitar discursos ilusórios”.”

Infelizmente, a tendência histórica e política mostra que só tomamos medidas para reagir aos problemas climáticos após grandes catástrofes ou impactos imediatos. Somos acostumados a priorizar resultados de curto prazo e imediatos, como lucro, consumo e crescimento. Como a mudança climática é de longo prazo, acaba sendo deixada para depois. O que precisamos é de mecanismos eficazes de punição aos países que não cumprirem suas metas. É preciso, porém, que essas metas sejam de real alcance e combatam a desmistificação cultural. Por exemplo, achar que o plástico é o inimigo da sustentabilidade – isso não é real. Antigamente usávamos vidro, madeira, couro, papel e lata. Além de materiais pesados, inviabilizavam a logística e muitos deles não agregavam maior vida útil ao produto acondicionado. O plástico trouxe avanços significativos para as embalagens, caso de durabilidade, proteção, leveza, versatilidade e inovação. Isso tudo tem de ser levado em consideração e novas soluções com a contribuição dele surgirão com o correr do tempo e deverão sempre estar vinculadas à sustentabilidade. Eliminar o plástico não é a solução! Ainda há tempo para minimizar os danos, porém é necessário a mobilização governamental, empresarial e social. Ainda permanecemos reativos e não temos prevenções e planejamentos suficientes para essa empreitada. Ainda acredito que as novas gerações estejam de fato mais conscientes e exigentes neste quesito da sustentabilidade. A pressão ainda cresce por mudanças culturais e sociais, assim como também nas empresas com iniciativas de ESG e pró-neutralidade de carbono. Precisamos acelerar as ações e evitar discursos ilusórios. Se não formos movidos pela consciência, seremos movidos pela catástrofe

04 Nelson Felipe Junior

Nelson Felipe Junior

Presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Álcalis, Cloro e Derivados (Abiclor)

“A mudança ainda é possível. Mas ela exige urgência, compromisso e ação coletiva”

Eu gostaria de iniciar essa reflexão, com uma perspectiva positiva. Mas confesso que é difícil. E por que faço essa avaliação? Porque nós já estamos vivendo essa crise. Todos os dias estão estampados nos noticiários catástrofes naturais que vêm se intensificando no planeta. Entendo que governos e países trabalham para enfrentar o desafio, os alertas são constantes, de cientistas, organizações ambientais e relatórios internacionais. Por exemplo, as advertências do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), composto por cerca de 195 países que fornecem diretrizes para a preparação de inventários nacionais de gases de efeito estufa. 

Também temos exemplos em que países sobrepõem seus interesses econômicos imediatos às ações sustentáveis de longo prazo. Como referência podemos citar o Acordo de Paris, pelo qual desde 2015 vários países vêm estabelecendo metas para redução de emissões – e poucos deles estão conseguindo cumpri-las de forma efetiva.

Não deveríamos atuar apenas após os efeitos das mudanças climáticas – como enchentes devastadoras, ondas de calor extremas e escassez de recursos – atingirem proporções inegáveis e causarem perdas significativas. No Brasil, as recentes enchentes no Rio Grande do Sul e a seca em outras regiões são sinais dramáticos dessa realidade.

Vou terminar a resposta com aspecto positivo! Existe uma consciência social e empresarial que vem evoluindo. Vejam as questões colocadas nas propostas dos ODS*/ESG. Por meio delas, empresas andam trabalhando cada vez mais para que seus fornecedores e clientes estejam engajados nesta cruzada pelo clima. Fontes de energia limpa vêm ganhando espaço e se tornando viáveis. Inovações tecnológicas estão acontecendo, avançamos rapidamente e podem se tornar uma aliada crucial nesta transição.

A mudança ainda é possível. Mas ela exige urgência, compromisso e ação coletiva.

*ODS – conjunto de 17 Objetivos Globais definidos pela ONU.

Paolo de Filippis, presidente da indústria de máquinas Wortex

Paolo de Filippis

Presidente da indústria de máquinas Wortex

“Os impactos da crise climática serão levados a sério quando se tornarem mais visíveis, inegáveis e custosos”

Esta é uma questão complexa e ligada a fatores políticos, econômicos, sociais e culturais. Embora haja esforços em andamento, a história recente e os padrões de ação globais sugerem que medidas eficazes e amplamente aceitas só tendem a ser implementadas com força após a ocorrência de grandes catástrofes. Os impactos da crise climática só serão levados realmente a sério quando se tornarem mais visíveis, inegáveis e custosos em termos humanos e econômicos. Os países já tiveram diversas oportunidades de agir com antecedência. Há décadas a ciência alerta para o aquecimento global e, ainda assim, as emissões de gases poluentes continuam em níveis historicamente altos.

A mudança global e coordenada em larga escala provavelmente virá como resposta à dor evidente: catástrofes ambientais mais severas e frequentes, perdas econômicas grandes, e impactos diretos sobre a saúde e a estabilidade geopolítica. A esperança é que esses sinais de alerta não cheguem tarde demais para evitarmos os piores cenários.

Juliana Marra, diretora de comunicação, assuntos corporativos e sustentabilidade da Unilever e presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes de Uso Doméstico e de Uso Profissional (ABIPLA).

Juliana Marra

Diretora de comunicação, assuntos corporativos e sustentabilidade da Unilever e presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes de Uso Doméstico e de Uso Profissional (ABIPLA)

“Precisamos fortalecer mecanismos de prevenção, metas realistas e monitoramento contínuo da emergência climática”

A crise climática é, sem dúvida, um dos maiores desafios do nosso tempo. Mas temos que olhar para a indústria como parte da solução, e não apenas como um agente a ser regulado. Existem muitos esforços concretos e importantes em curso, tanto no setor privado quanto no público, embora ainda desiguais entre países e regiões.

A resposta global à emergência climática exige cooperação real, responsabilidade compartilhada e soluções tecnologicamente viáveis. Em vez de depender apenas da reação a catástrofes, precisamos fortalecer mecanismos de prevenção, metas realistas e monitoramento contínuo. A indústria de saneantes e produtos de limpeza tem um papel relevante nesse processo.

No Brasil, por exemplo, temos observado um compromisso crescente dos membros da ABIPLA com a sustentabilidade em todas as etapas da cadeia produtiva: do uso racional de matérias-primas ao desenvolvimento de fórmulas concentradas, embalagens recicláveis, medidas redutoras do consumo de água e energia e até nos processos de logística, com otimização de rotas e cargas.

É importante dizer que as embalagens fazem parte da equação da sustentabilidade — não como vilãs, mas como vetores de segurança, eficiência logística e redução de desperdício. O desafio está no seu uso responsável e, sobretudo, no descarte e reaproveitamento adequados.

A ABIPLA acredita na força da inovação e educação como motores da sustentabilidade. Trabalhamos para que o consumidor também tenha acesso a produtos eficazes, seguros e ambientalmente corretos. E entendemos que, sem políticas públicas bem estruturadas, sem incentivos à economia circular e sem uma regulação que favoreça a inovação com responsabilidade, será difícil avançar.

Por isso, seguimos confiantes de que a indústria pode – e deve – fazer sua parte, enquanto cobramos e colaboramos com ações mais integradas entre governos, empresas e a sociedade civil. Sustentabilidade não se impõe apenas por obrigação, mas se constrói com diálogo, ciência e compromisso de longo prazo.

07 Laura Canteiro

Laura Canteiro

Diretora da Embaquim

“Ações mais sérias costumam vir depois de grandes catástrofes”

A verdade é que muitas soluções para a crise climática já existem e são mundialmente conhecidas (como a transição para energias renováveis, reflorestamento, economia circular, redução de emissões etc.). O problema não é a falta de conhecimento técnico, mas, sim, falta de acompanhamento da parte política, resistência econômica e desigualdade global.

Na prática, a tendência histórica é que grandes mudanças só aconteçam após eventos extremos — ou seja, infelizmente, as ações mais sérias costumam vir depois de grandes catástrofes. Um exemplo é o Acordo de Paris, que foi impulsionado por pressões de anos e alertas cada vez mais alarmantes da ciência.

É possível que soluções eficazes sejam adotadas antes de um colapso irreversível. Mas isso exigirá uma combinação de pressão social, mais avanços tecnológicos, políticas públicas corajosas e cooperação internacional.

Marcos Curti

Marcos Curti

Presidente da MCurti Consultoria & Negócios

“Esforços por medidas coletivas de contenção de riscos ambientais prosseguem minados pelas ambições de curto prazo”

Neste momento de turbulência política e uma certa generalização do ‘nós ou eles’, não há idealismo que sobreviva. Assim continuamos a ver os esforços por medidas coletivas de contenção de riscos ambientais sendo minados pelas ambições de curto prazo. Sejam elas por crenças ou por desejo de reforço econômico das nações e consequente perpetuação de grupos específicos no poder. Afinal de contas, o discurso que aprendemos com o passado e que agora estamos mais preparados funciona bem e justifica o risco. A sorte é que as novas gerações, menos tolerantes com coisas que nós aceitamos no passado, e as mídias sociais conseguem diminuir um pouco esse teórico vale tudo.  Ou seja, pequenas chances nesse momento do coletivo transformador avançar em um mundo em conflito existencial e político. Continuaremos a costurar as feridas velhas e com certeza as novas.

Carlos Moreira

Carlos Moreira

Diretor executivo do Instituto Nacional do Plástico e diretor de projetos/ Think Plastic Brazil

“Um terço da população mundial carece de sistemas básicos de alerta climático”

Quando analiso o cenário atual das negociações climáticas internacionais, chego a uma conclusão que mistura realismo e cautela: as soluções globais necessárias provavelmente não serão implementadas de forma preventiva antes que enfrentemos consequências ainda mais severas. Esta perspectiva nasce da observação de como funcionam os trade-offs (trocas) que governam decisões políticas e econômicas mundiais.

Vivemos em um mundo onde tudo é trade-off. Para reduzir emissões e cumprir metas como as do Acordo de Paris (2015), países precisam frear atividades industriais poluentes, investir massivamente em energia limpa e transformar padrões de consumo. Isso significa custos elevados no curto prazo – desemprego em setores tradicionais, aumento de preços, necessidade de subsídios públicos substanciais etc. Esse dilema temporal entre custos imediatos e benefícios futuros explica muito da resistência que observamos.

Dados recentes mostram que, paradoxalmente, as soluções tecnológicas já demonstram viabilidade econômica impressionante. A geração global de eletricidade renovável ultrapassou 40% em 2024, com energia solar duplicando capacidade em três anos. Cada dólar investido em renováveis gera três vezes mais empregos que combustíveis fósseis. Isso indica que trade-offs entre economia e sustentabilidade estão se tornando favoráveis às tecnologias limpas. Contudo, essa promessa tecnológica confronta-se com realidades políticas complexas. As atuais contribuições nacionais colocam o mundo em trajetória de aquecimento entre 2,6°C e 3,1°C até 2100, bem acima da meta de 1,5°C. Para corrigir essa rota, precisaríamos de reduções de 42% nas emissões até 2030 –  mudanças que exigem trade-offs políticos que muitos governos consideram eleitoralmente arriscados.

A desigualdade global complica ainda mais esse cenário. Países em desenvolvimento necessitam entre US$ 194 bilhões e US$ 366 bilhões anuais para adaptação climática – valor 10 vezes superior aos fluxos atuais. Nações vulneráveis como Somália recebem menos de 0,1% do financiamento climático global, enquanto enfrentam secas e inundações recorrentes. Esta disparidade garante que comunidades mais expostas permanecerão vulneráveis, independentemente dos progressos tecnológicos em países desenvolvidos.

Setores industriais, incluindo o de plásticos, enfrentam seus próprios trade-offs na transição sustentável. Muitas empresas demonstram compromisso genuíno com inovações que reduzem impactos ambientais – materiais biodegradáveis, sistemas de reciclagem eficientes, processos com menor pegada de carbono etc. O setor de plásticos tem mostrado capacidade notável de adaptação, contribuindo para soluções como embalagens que diminuem o desperdício alimentar, componentes automotivos mais leves e materiais médicos essenciais.

Descobri que investimentos em preparação climática geram retornos econômicos extraordinários: cada dólar em resiliência retorna US$ 13 em redução de danos. Miami poderia poupar US$ 26 bilhões em perdas investindo US$ 10.8 bilhões em preparo para enfrentamento de furacões. Estes dados sugerem que prevenção não é apenas moralmente desejável, mas economicamente racional.

Entretanto, pesquisas comportamentais revelam dinâmica preocupante: exposição a desastres climáticos não se traduz automaticamente em apoio a políticas ambientais. O fator decisivo é atribuição subjetiva – pessoas que conectam eventos extremos às mudanças climáticas apoiam mais políticas verdes, independentemente de terem vivenciado catástrofes. Mesmo grandes desastres podem não gerar mudanças políticas se faltarem narrativas claras conectando eventos específicos à crise climática global.

Análises de respostas governamentais mostram padrão problemático: administrações frequentemente respondem a choques climáticos buscando ‘reconstruir como antes’, sem transformações estruturais. Essa tendência sugere que catástrofes, isoladamente, não garantem soluções sistêmicas sem planejamento e liderança política preexistentes.

A questão fundamental é que não adianta governos assinarem tratados se estes não impactarem o bolso da população. A educação ambiental efetiva só funciona acompanhada de incentivos econômicos tangíveis. Imagine políticas onde governos abatessem impostos de cidadãos que descartam lixo corretamente, isentassem empresas com coletas seletivas eficientes, ou reduzissem tributação de lojas com pontos de coleta para descarte consciente. Essas medidas transformariam comportamento ambiental de abstração moral em vantagem econômica concreta.

Observo impulso crescente para adoção antecipada de soluções climáticas. A competitividade econômica das energias renováveis acelera transições mesmo sem mandatos governamentais. China e Índia já suprem mais de 80% do crescimento energético com fontes limpas. A iniciativa ‘Early Warnings for All’ visa proteger toda população global com sistemas de alerta até 2027, custando apenas US$ 0.50 per capita ao ano.

Ao mesmo tempo, persistem riscos de que soluções só sejam implementadas após desastres maiores. A lacuna de financiamento para adaptação permanece enorme, com apenas metade dos países possuindo planos adequados. Um terço da população mundial carece de sistemas básicos de alerta climático. Perdas econômicas de eventos extremos já superam US$ 4.2 trilhões desde 1993, com tendência acelerada.

Para o setor de plásticos, isso representa oportunidade extraordinária. A transição não significará eliminação, mas evolução para materiais que resolvam simultaneamente necessidades funcionais e imperativos ambientais. Empresas que liderarem inovações sustentáveis prosperarão fornecendo soluções essenciais para economias descarbonizadas, em especial se governos implementarem incentivos que tornem escolhas sustentáveis economicamente vantajosas.

Soluções climáticas mundialmente aceitas emergem com rapidez, mas muitas só serão implementadas em escala após catástrofes severas. A competitividade das energias renováveis demonstra que um caminho preventivo é economicamente racional. Contudo, a insuficiência dos compromissos atuais e a persistência de respostas reativas indicam que muitas transformações necessárias ocorrerão sob pressão de eventos extremos.

Nossa responsabilidade coletiva é acelerar esse processo através de políticas que tornem comportamentos sustentáveis financeiramente recompensadores. A chave está em reconhecer que transformações duradouras dependem menos de consciência moral abstrata e mais de incentivos econômicos que alinhem interesses individuais com objetivos ambientais coletivos. O futuro climático será determinado não pela sabedoria preventiva, mas pela necessidade urgente de prosperidade em um mundo transformado.

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