Think Plastic Brazil busca desconcentrar exportações

Meta é reduzir dependência das vendas de transformados ao continente americano
Think Plastic Brazil busca desconcentrar exportações

Desde 2 de abril, quando Trump deflagrou sua guerra comercial, o comércio exterior virou um terreno minado de incertezas. Mesmo assim os choques tarifários de alta voltagem mundo afora não têm conseguido esmorecer as exportações de nossos transformados plásticos incentivadas pelo projeto setorial Think Plastic Brazil. O balanço positivo dos embarques no primeiro semestre, as boas perspectivas para a metade final do ano e os frutos iniciais da bem sucedida estratégia de diversificação geográfica dos destinos compõem a tônica desta entrevista de Carlos Moreira, diretor executivo do Instituto Nacional do Plástico (INP) e de projetos do Think Plastic Brazil (TP).

Para 2025, o objetivo do Think Plastic (TP) é atingir US$ 626 milhões em exportações, alcançando 163 empresas exportadoras ativas e um total de 217 assistidas pelo programa. O balanço do primeiro semestre mantém esta meta?

Os dados do primeiro semestre revelam desempenho bastante positivo na maioria dos indicadores. Com 209 transformadoras associadas, superamos em 2,45% a expectativa de 204 empresas para o período, enquanto as 15 novas incorporadas atingiram exatamente o intento delimitado. Mais impressionante ainda foi o desempenho das empresas exportadoras: 162 delas superaram em 8% superior à meta preestabelecida, representando 86,6% do objetivo anual de 187 exportadoras.
O resultado financeiro merece destaque. O saldo de US$ 239,05 milhões exportados de janeiro a junho último supera em 13,18% a meta semestral de US$ 211,20 milhões, além de crescerem 3,41% em relação ao mesmo período de 2024. Este desempenho sugere que o potencial exportador estava sendo subestimado no planejamento inicial e posiciona o portfólio favoravelmente para atingir a meta anual reformulada.

“A diversificação geográfica das exportações tem revelado excelentes oportunidades de negócios em regiões emergentes”

Carlos Moreira, Think Plastic Brazil

Carlos Moreira_da Think Plastic Brazil

Qual o grau de pulverização do mapa de entregas das exportações?

A diversificação alcançada é notável: 153 tipos de produtos exportados para 97 destinos e uma parcela de 91 das 162 empresas exportadoras apresentaram crescimento nessas vendas externas. Trata-se de um fortalecimento operacional que reduz riscos de concentração e amplia oportunidades sustentáveis.

Contudo, existe um ponto de atenção importante: apenas cinco empresas passaram a exportar pela primeira vez, ficando 64,29% abaixo da meta original de 14 novas exportadoras. Este déficit indica que, embora nosso portfólio seja eficaz com empresas já exportadoras, enfrenta desafios na conversão daquelas não-exportadoras.

A análise estatística evidencia que as estratégias para empresas inseridas no mercado internacional são altamente efetivas, enquanto as direcionadas a novos players necessitam ajustes. Dispomos de quatro projetos adicionais, financiados pelo aditivo do convênio com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX), para nos auxiliar a fechar esta lacuna: Missão Empresarial Colômbia, ExpoFerretera (México), Envase (Argentina), Pack Expo (EUA).

Combinada a sazonalidade do setor (o segundo semestre em regra concentra maior volume de exportações) com o desempenho financeiro 13,18% acima das expectativas, as metas reformuladas apresentam viabilidade consistente. O portfólio mantém trajetória robusta, necessitando apenas de refinamentos estratégicos para maximizar a inclusão de novas empresas exportadoras.

África: mercado promissor para transformados de plástico do Brasil.

África: mercado promissor para transformados de plástico do Brasil.

Quais os novos mercados abertos para transformados do Brasil pelo TP no primeiro semestre?

O balanço revela conquistas importantes, mas também confirma a necessidade urgente de acelerar nossa diversificação geográfica. Mas antes da análise, cumpre enfatizar a importância das recentes missões empresariais na África Ocidental e no Magreb (Marrocos, Argélia e Tunísia). Essas ações têm revelado excelentes oportunidades de negócios em regiões emergentes. Em suma, abrimos no primeiro semestre 10 novos destinos: Curaçau, Sérvia, Madagascar, Tunísia, Tanzânia, Namíbia, Bonaire, Barein, Congo e Uganda. Embora sejam volumes ainda pequenos de exportações, representam passos concretos em linha com nossa estratégia. É animador, em particular, ver países como Madagascar, Tunísia, Tanzânia, Namíbia e Uganda validando nossa aposta na África.

A realidade dos números, porém, sinaliza o desafio pela frente. Com 92,05% das exportações concentradas nas Américas e com a Argentina absorvendo quase 30% do total, estamos excessivamente dependentes de mercados regionais. Esta posição nos deixa vulneráveis a crises econômicas, instabilidade política ou flutuações cambiais passíveis de impactar os resultados. Daí porque nossa missão na África do Sul, entre 17 e 20 de junho último, marca um divisor de águas nesta estratégia. Com 21 empresas participantes realizando 255 reuniões de negócios, superamos as expectativas. O montante gerado de US$ 910.000 em negócios imediatos e a projeção de US$ 5.665.000 para os próximos 12 meses atestam o real e tangível potencial africano. Por sinal no webinar realizado em julho, empresários atestaram que mercados como Namíbia e Botsuana surpreenderam pela qualificação dos compradores. Países como Ruanda, Egito e África do Sul já adotam tecnologias facilitadoras do comércio internacional.No mesmo evento, aliás, , empresários como Dina Gazola (Metalurgica Metaltru e Mecânica e Estamparia São Bernardo Ltda) e Jefferson Pereira (Azulpac) reforçaram a importância da continuidade no atendimento, pois, no passado, quando empresas brasileiras perderam mercados na Nigéria por interromper relacionamentos comerciais.

Quais as expectativas para o restante deste ano?

Para o segundo semestre, nosso foco é a expansão sistemática para mercados ainda inexplorados. Na África Ocidental, países como Gana, Costa do Marfim e Senegal apresentam economias dinâmicas e crescente demanda por manufaturados. Com ollataformas digitais integradas, Gana, em especial, oferece facilidades comerciais que reduzem barreiras de entrada. Já a África Oriental surge como segunda prioridade, usando o Quênia como porta de entrada regional. Em pesquisa preparatória, vimos o Quênia como hub para Tanzânia, Uganda e Ruanda. A Etiópia, com mais de 120 milhões de habitantes e crescimento econômico sustentado, é outra oportunidade imperdível. E aqui vai uma lição fundamental da missão africana: abordar cada região de forma segmentada, respeitando especificidades econômicas e culturais.

No Oriente Médio, os Emirados Árabes Unidos são nossa prioridade máxima. Além de mercado relevante, Dubai funciona como centro de reexportação para a região, facilitado nossa entrada na Arábia Saudita, Omã e Kuwait. O Catar mantém demanda robusta por nossos produtos, em especial na construção, aproveitando os investimentos pós-Copa do Mundo. Também estamos avaliando mercados asiáticos emergentes, como Bangladesh Vietnã e Tailândia.

Nossa meta para o semestre atual: reduzir a dependência das Américas de 92% para algo próximo de 80%, incorporando mercados africanos e do Oriente Médio.

Dubai: porta de entrada para o Oriente Médio para exportações impulsionadas pelo Think Plastic.

Dubai: porta de entrada para o Oriente Médio para exportações impulsionadas pelo Think Plastic.

Qual tem sido, em média, a participação dos EUA entre os destinos das exportações estimuladas pelo TP nos últimos cinco anos?

Baseado nos indicadores dos últimos quatro anos disponíveis (2022-2025), os EUA têm mantido participação consistente nas exportações estimuladas pelo TP – em média, 11,46% dos destinos das exportações das empresas nossas associadas. Analisando os dados detalhados por vertical, observamos que no segmento de embalagens, que representa nossa principal força exportadora com 69,28% do total das exportações do programa, os EUA absorvem 11,46% delas. Quanto às utilidades domésticas, que representam 15,45% do nosso portfólio total, os EUA respondem por 1,77% das nossas exportações, refletindo a intensa concorrência neste segmento. Por sua vez, a construção civil, com 11,74% do total das  exportações via TP, tem penetração de apenas 0,31% no mercado americano. Já o agrobusiness equivale a 3,31% das nossas exportações totais e possui participação de apenas 0,01% no mercado americano.

Quando analisamos a evolução temporal da participação americana, observamos uma tendência de declínio ao longo do período. Em 2022, a participação dos EUA foi de 14,37% no segmento de embalagens, caindo a 9,98% em 2023, subindo para 11,44% em 2024 e chegando a 9,43% em 2025. Esta variação sugere influência de fatores macroeconômicos, incluindo políticas comerciais, flutuações cambiais e ciclos econômicos que afetam a demanda americana por produtos brasileiros.

No segmento de utilidade doméstica, a participação americana também apresentou oscilações, partindo de 1,64% em 2022, subindo para 2,40% em 2023, caindo para 1,54% em 2024 e chegando a 1,54% em 2025. Já na construção civil, observamos uma participação ainda mais modesta, oscilando entre 0,24% em 2022 e 0,24% em 2025, passando por 0,29% em 2023 e 0,24% em 2024.

A análise por regiões do continente mostra que nossa dependência da América do Sul permanece muito alta, concentrando 45,57% das exportações, seguida pela América do Norte com 14,25%. Os três produtos mais embarcados para os EUA via TP são liderados pelo segmento de embalagens, que detém a grande maioria dos volumes despachados. A recente tendência de queda da participação americana sugere a necessidade de estratégias mais agressivas para expandir nossa presença neste mercado.

Em volume e receita, como projeta a participação dos EUA nas exportações impulsionadas pelo TP no 1º semestre versus o saldo do mesmo período em 2024?

O comparativo do primeiro semestre de 2025 versus o mesmo período em 2024 revela clara redução da participação dos EUA nas exportações totais estimuladas pelo TP. Foi aferida queda de 12,59% em valores absolutos, com as exportações para os EUA caindo de US$ 31,26 milhões (13,22% do total exportado) no primeiro semestre de 2024 para US$ 27,33 milhões (11,21% do total) na metade inicial deste ano. Em termos de volume físico exportado, essa redução também se evidencia, principalmente na vertical Embalagem que, sozinha, respondeu por retração de 15,01%: caiu de US$ 27,05 milhões para US$ 22,99 milhões.

Diante deste cenário adverso, a estratégia adotada pelo TPl desde 2023 é o fortalecimento da diversificação dos mercados internacionais, em especial África e Oriente Médio, como já foi mencionado.

Indústria na China: ingresso de manufaturados na América do Sul aumentará com ferrovia do Peru ao litoral brasileiro.

Indústria na China: ingresso de manufaturados na América do Sul aumentará com ferrovia do Peru ao litoral brasileiro. 

Brasil e China firmaram em 8/7 acordo de cooperação sobre ferrovia do Peru ao litoral do Nordeste. Se a obra vingar, como vê o impacto da escalada das matérias-primas e transformados chinese aqui e no restante da América do Sul?

O porto peruano de Chancay, ponto de partida dessa linha férrea, tem potencial para diminuir em pelo menos 10 a 12 dias o tempo atual de frete marítimo entre a China e a costa oeste sul-americana, resultando em economia estimada em 20% nos custos logísticos. Com redução nos prazos de entrega e transporte mais acessível, produtos chineses terão sua competitividade aumentada na região. Isso poderá gerar pressão ainda maior sobre ar petroquímica do Brasil, principalmente em resinas como polipropileno e polietileno, materiais que a China possui com grandes excedentes. Apesar de esse cenário proporcionar benefícios imediatos aos nossos transformadores de plástico, como acesso à matéria-prima mais barata, a dependência desse suprimento pode fragilizar estruturalmente a cadeia produtiva brasileira no longo prazo, em particular se sua petroquímica  perder escala ou deixar de ampliar suas plantas.

No que se refere especificamente aos transformados plásticos, a concorrência tende a se intensificar bastante. Hoje em dia, mais de 50% dos artefatos plásticos internados no Brasil vem da China, o que correspondeu a cerca de US$ 1,26 bilhão em 2022, Com o barateamento da logística ensejado pela futura ferrovia a redução dos custos logísticos proporcionada pela ferrovia, produtos chineses tornarão a competição por preço na América do Sul quase insustentável para muitas empresas brasileiras.

O que sugere para nossa cadeia plástica ampliar a competitividade diante da fortalecida concorrência chinesa?

A primeira ação é a diferenciação dos nossos transformados em  qualidade, sustentabilidade, design e inovação tecnológica, pois será impossível competir direto em preço com os chineses. Outro ponto fundamental: investimento intensivo em tecnologia produtiva. A produtividade da indústria brasileira de plásticos é baixa e parte da solução para isso é modernizar com rapidez as plantas com automação e tecnologias 4.0, baixando assim os custos fabris e viabilizando a oferta de preços mais competitivos sem comprometer as margens. No mais, é essencial incrementar nossa presença nos mercados vizinhos da América Latina. A proximidade geográfica e cultural permanece  uma vantagem  relevante, principalmente no atendimento logístico e com menor tempo de reposição de estoques. Uma quarta ação relevante seria diversificar a atuação internacional para além da América Latina, explorando os já citados mercados emergentes na África e Oriente Médio.

Qual a expectativa para os resultados do TP neste último semestre marcado pelo dólar e barril de petróleo mais voláteis, encarecimento do frete, insegurança e crédito caro demais para animar investimentos produtivos?

Para o semestre atual, mantemos uma expectativa positiva, porém cautelosa, quanto ao cumprimento das metas repactuadas recentemente junto à Apex. Elas incluem um crescimento de 217 para 249 no número de empresas associadas apoiadas, além de elevar de 163 para 187 o total de empresas exportadoras, com um valor total projetado de exportações próximo a US$ 627 milhões. Ao mesmo tempo, estão sendo ampliados os esforços para captar novos entrantes (associados), de 31 para 36, e de empresas que iniciarão atividades de exportação, de 17 para 20.

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