Cruzamento das elucubrações da consultoria Datagro e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) situa em 8,2% o aumento em 2024 da capacidade estática de armazenagem nacional de grãos, calculada em 203 milhões de toneladas em janeiro de 2025, informou em 1/7 o jornal Valor Econômico. Apesar do progresso, persiste um déficit que faz brilhar os olhos dos transformadores de silos bolsas de polietileno (PE), pois o volume estocado abrange 58,9% da produção geral de cereais e oleaginosas no ciclo 2024/2025, de total estimado em 344,8 milhões de toneladas. A propósito, encaixa a Datagro, a maioria dos divulgados levantamentos de armazenagem estática não incluem os dados dos silos-bolsas, enxergados pela consultoria como solução temporária de depósito dos grãos.
A insuficiência de estocagem não é drama lancinante para cooperativas e tradings, considera a Datagro, mas uma lacuna visceral no reduto dos agricultores médios e menores, aliás um público sob medida para o silo bolsa pelo ângulo do poder aquisitivo, pois seu custo, tal como a vida útil, é inferior ao do galpão metálico fixo. Na visão da consultoria, a persistência do déficit decorre de falta de financiamento específico para a armazenagem e insuficiência da malha logística, caso de ferrovias, rodovias e portos.
Uma referência-chave do crônico e avantajado descompasso entre produção e armazenagem é Mato Grosso, estado líder na produção nacional de grãos, com 28,9% de participação na capacidade brasileira de estocagem e que deve fechar 2025 com déficit de três milhões de toneladas deixadas ao desabrigo. Outros estados em situação preocupante envolvem Goiás, Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, sendo o Sul a região mais servida de alternativas de estocagem.
Em 2024, a falta de armazenagem prejudicou 124 milhões de toneladas de grãos, volume que deve subir no mínimo a 129 milhões este ano, previu na edição de 1/3 do Valor Paulo Bertolini, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Equipamentos para Armazenagem de Grãos (Cseag) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Pela sua percepção, a intensidade da expansão da produção rural equivale ao dobro do aumento da capacidade nacional de estocagem. “Só para manter a capacidade atual de armazenagem, acompanhando o ritmo de crescimento da produção de grãos, teríamos que investir em torno de R$ 15 bilhões por ano, para aumentar a capacidade em 10 milhões de toneladas estáticas por ano. A gente investe metade disso”, declarou o dirigente ao jornal. No mesmo artigo, foi assinalado que o agricultor sem armazém é obrigado a vender de imediato o que colhe aos preços do momento, sem ter como esperar pela valorização na entressafra.
Apesar das oportunidades entreabertas pelo déficit de estocagem, a conjuntura atual é desafiadora para a oferta de silos-bolsas. Além dos noticiados índices significativos de inadimplência de produtores rurais (pessoas físicas), influem no enrosco os juros sufocantes, baixa disponibilidade de financiamento, o viés de baixa dos preços internacionais das agrocommodities e tormentos climáticos, como a recente enchente no Rio Grande do Sul.


