Edilson Luiz Deitos
Diretor da Zandei Plásticos
“A discussão não deve se limitar ao uso de barreiras comerciais. O que se impõe é um redesenho estratégico da petroquímica brasileira”
Mesmo com a recente elevação das barreiras tarifárias – como o aumento do antidumping do PVC de 8,2% para 43,7% e o pleito em curso para sua implementação sobre PE –, que atingem níveis historicamente altos, é muito provável que o Brasil continue a importar volumes expressivos de PE, PP e PVC nos próximos anos. Isso não é apenas uma questão de proteção comercial, mas sim um reflexo da realidade estrutural da cadeia petroquímica nacional.
O parque industrial brasileiro encontra-se hoje em desvantagem competitiva frente às novas plantas construídas em regiões com acesso abundante e barato a matérias-primas – como o shale gas nos EUA e o gás natural no Oriente Médio. Assistimos a esse movimento de camarote, sem qualquer reação estrutural efetiva. Além disso, essas fábricas operam em escala muito superior, com altos níveis de eficiência produtiva e custos logísticos significativamente menores, fatores que pressionam os preços internacionais para baixo e inundam o mercado global com oferta excedente.
No Brasil, o gargalo não está apenas na capacidade instalada, mas principalmente na falta de competitividade econômica da produção. Os custos de insumos, energia e logística são elevados. A rigidez contratual do fornecimento de nafta, atrelada a um modelo verticalizado e pouco dinâmico, limita a flexibilidade da indústria nacional. Soma-se a isso a ausência de uma política pública integrada de desenvolvimento da cadeia – da petroquímica básica até o transformador final – o que contribui diretamente para a perda de espaço frente aos produtos importados.
Agravam esse cenário as distorções geradas por modelos de incentivos regionais, com destaque para o caso da Zona Franca de Manaus (ZFM). Embora criada com o objetivo de promover o desenvolvimento regional, a ZFM tornou-se um exemplo isolado que compromete a competitividade da indústria petroquímica e de transformação no restante do país. A facilidade para a importação de matérias-primas como PE, PP e PVC, somada à isenção total ou parcial de tributos federais e estaduais, cria um ambiente artificialmente competitivo. Soma-se a isso o direito ao crédito presumido de IPI – recentemente reafirmado pelo STF –, que, em razão da falta de regulamentação, concede crédito integral do imposto mesmo sem que este tenha sido efetivamente recolhido pelo transformador beneficiado. Como agravante, manteve-se a alíquota do IPI sobre os produtos plásticos transformados mesmo após a reforma tributária, evidenciando a influência do relator da proposta no Senado, coincidentemente oriundo do estado do Amazonas.
O resultado prático é preocupante: observa-se a entrada crescente de produtos plásticos transformados via ZFM, produzidos com matérias-primas 100% importadas e incentivadas pelo Tesouro Nacional. Enquanto isso, a indústria de transformação nas demais regiões do país enfrenta crescentes dificuldades para importar as mesmas resinas, agora mais onerosas em razão do aumento do Imposto de Importação (atualmente em 20%) e da aplicação das medidas antidumping – já implementadas para PVC e em tramitação (nota: até a publicação desta pesquisa de opinião) para PE.
Se essas resinas não entrarem no país na forma de grãos, inevitavelmente chegarão como produtos acabados, o que representa um risco sistêmico para todo o setor. A indústria de transformação brasileira – que vem reduzindo sua participação no PIB ano após ano – pode sofrer uma desindustrialização ainda mais acelerada, sem que se atinja o objetivo de proteger a cadeia produtiva como um todo.
Caso o futuro controlador da Braskem adote uma visão estratégica de longo prazo, será imprescindível investir em modernização, inovação tecnológica e na reestruturação da matriz de matérias-primas, com foco em fontes alternativas e renováveis. No entanto, mesmo com esses avanços, não há garantia de que o Brasil atingirá a plena competitividade internacional a curto e médio prazos.
Portanto, a discussão não deve se limitar ao uso de barreiras comerciais. O que se impõe é um redesenho estratégico da indústria petroquímica brasileira. Isso passa pelo fortalecimento da infraestrutura, pela formulação de políticas públicas que incentivem a competitividade em toda a cadeia produtiva e por um novo modelo de governança que promova a integração e cooperação entre produtores, transformadores e o poder público. Só assim o Brasil poderá construir um futuro verdadeiramente sustentável para sua cadeia de plásticos.
Erasmo Fraccalvieri
Fundador e presidente da consultoria EF
“Em termos de competitividade, somos tetraplégicos em cadeira de rodas tentando disputar uma olimpíada”
Precisamos entender que o mundo ficou mais competitivo e não há espaço para nós.
Somos bons em commodities. Nosso papel é fornecer ao mundo matéria-prima, da soja ao minério de ferro. O resto é esmagado pelo sistema. Décadas de descaso com educação criaram uma massa de mão de obra desqualificada e cara. Nossa infraestrutura carece de melhorias e a insegurança jurídica é algo institucionalizado. Criamos monopólios risíveis. Salvo algumas exceções no ramo industrial, não somos competitivos de maneira geral.
O boom das importações iniciadas no segundo semestre de 2022 deixa o cenário evidente. Segundo o sistema Comex Stat, o volume importado acumulado em 12 meses do PP sem carga, em forma primária, subiu 120% até dezembro de 2024. As exportações caíram 30% no mesmo período.
O gráfico, sozinho, é uma lição de economia, escancara nossa falta de competitividade. Em outras palavras, trazemos de onde é mais vantajoso e o mundo compra de nós o que precisa. Assim, fomos colocados no nosso devido lugar em apenas cinco anos. O valor das ações da nossa principal empresa do ramo encolheu 83% em valor no mesmo período. O mercado financeiro sabe fazer contas.
Sendo assim, a resposta para a pergunta é: depende. Nosso país precisa decidir se quer continuar no jogo. Em termos de competitividade somos tetraplégicos em cadeira de rodas tentando disputar uma olimpíada. Impomos tarifas, antidumpings e damos benefícios fiscais em nome da ‘defesa’ da indústria nacional. Salvamos ‘meia dúzia’ de empregos e empurramos o custo para o resto da cadeia, o cidadão que arque com as despesas.
O caso recente do PVC é algo próximo da bizarrice. Na minha opinião, subir uma alíquota de 8,2% para 43,7% não é normal. A soma das taxas e benefícios pode dar uma ideia numérica do nosso nível de incompetência. Dessa forma, ou o Brasil desiste de competir, ou abre espaço para gestores internacionais mais qualificados poderem investir.
O problema é que a competitividade da indústria passa pelos pilares mais sensíveis de uma nação: educação, ética e infraestrutura – justamente onde somos medíocres.
Marcelo Nicolau
CEO da Cipatex
“A matéria-prima para a petroquímica nacional necessita ser competitiva, caso contrário os investimentos não virão”
No curto prazo (até três anos) creio que teremos que importar resinas para atender a diferença entre a demanda nacional e a produção local. No médio prazo, caso nosso mercado de gás natural seja aberto à competição global e com preços mundialmente competitivos, poderemos ter investimentos para aumento de capacidade de eteno via gás e, por consequência, disponibilidade desse petroquímico básico para gerar PE, PP, PVC e outros termoplásticos. A matéria-prima para a petroquímica necessita ser competitiva, caso contrário os investimentos não virão e continuaremos sofrendo com resinas caras e produtos terminados importados ganhando cada vez mais participação de mercado.”
José Ricardo Roriz Coelho
presidente do conselho da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast)
“O efeito prático dessas alíquotas de importação é a manutenção de altos preços domésticos de resinas estratégicas para a indústria brasileira, sem contrapartida em investimentos”
A questão do volume das importações é algo mais atrelado à prática estrutural do mercado de plásticos no Brasil do que da capacidade em si da produtora local de suprir a demanda. Temos um mercado altamente concentrado (apenas a Braskem no caso do PE e PP e Braskem e Unipar no caso do PVC) e a precificação dessas resinas no mercado brasileiro segue o preço internacional mais os custos de internação.
Sendo assim, a alíquota de importação acaba resultando em ‘barreira’ a entrada de materiais do exterior porque o preço da resina doméstica aumenta para fazer margem para a produtora local.
Como o mercado é altamente concentrado, algumas empresas, para não ficarem sujeitas apenas às políticas do monopólio ou duopólio produtor doméstico, preferem manter o canal internacional aberto, mesmo arcando com custos maiores.
Temos como efeito prático dessas alíquotas a manutenção de altos preços domésticos de insumos plásticos estratégicos para indústria brasileira, sem contrapartida em investimentos (a petroquímica brasileira é grande investidora em expansões no mercado internacional e no Brasil seus investimentos geralmente são mais relacionados à manutenção e não à expansão de capacidade). Daí também o aumento consistente das importações de produtos plásticos acabados. Só no ano passado vimos aumentar as importações desses transformados em 29%, lembrando que, historicamente, a balança comercial de transformados plásticos é deficitária.
Simone de Faria
Diretora da consultoria Townsend Solutions para a América do Sul
“Em mais de 30 anos de antidumping no PVC e mais de 10 anos em PP, o market share do produto importado só tem aumentado”
O antidumping para importação de PVC foi imposto contra fontes específicas e, portanto, haverá outras origens que despontarão como alternativas. A importação deve continuar aumentando, principalmente porque a capacidade no país é insuficiente para atender a demanda. Ao longo de mais de 30 anos de antidumping no PVC e mais de 10 anos em PP, o market share do produto importado só tem aumentado. O antidumping em si, não resolve o problema de competitividade.
Quanto à questão de investimentos em novas capacidades, isso depende de uma série de fatores e a rentabilidade é apenas um deles. Nós somos dependentes de tecnologia importada, que custa muito caro e implica, na maioria dos casos, em adquirir o desenvolvimento de um ‘concorrente’. Nosso custo de capital é altíssimo, o que desestimula investimentos, principalmente nesses valores, que exigem muitos anos para pagar. O país carece de infraestrutura adequada. Para aumentar a oferta de resinas, a exportação é muito importante para trazer equilíbrio, até que a demanda interna seja capaz de absorver a produção. E para exportar, dependemos de uma boa infraestrutura portuária e menores custos logísticos. Além disso, a exportação é extremamente necessária, para pagamento dos contratos de crédito firmados, muitas vezes transacionados em dólar com entidades financeiras de outros países. Atualmente, trazer investimentos para o país é um grande desafio. O risco é alto porque não temos estabilidade financeira e nem fiscal. A regra do jogo muda dependendo do governo e sem qualquer previsibilidade. A burocracia é um entrave adicional. E por fim, mas não menos importante, nos faltam matérias-primas a custos competitivos e ficamos na dependência do governo para realizar esses investimentos. Nos últimos anos, vimos enormes gastos no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), sem retorno algum.
Mas ainda considero que estamos realizando as ações de trás para a frente. O que quero dizer é que deveríamos pensar o antidumping no final das cadeias e não no início, caso contrário estaremos sempre fadados a exportar produtos básicos e importar produtos acabados.
Domênico Macchia
Diretor de novos negócios e desenvolvimento de novos mercados da Videplast
“A demanda de PE base metaloceno vem crescendo e a produção local não acompanha essa expansão”
A importação de resina sempre irá ocorrer, principalmente de grades especiais desenvolvidos pelos os grandes players mundiais, pois se fazem necessários para alguns projetos dependentes de requisitos como downgage (redução de espessura), resistência mecânica, brilho e output (capacidade produtiva). Em relação aos grades mais commodities, dependendo do valor de chegada no Brasil do seu landed price (preço no destino), poderão continuar a ser importados, pois trata-se de questão de custo final e capacidade de caixa de cada empresa e de atuação dos traders.
A demanda nacional de resinas de PE base metaloceno vem crescendo significativamente e não há volume de produção para acompanhar essa expansão. A não ser que seja realizado um rearranjo dos grades produzidos no Brasil abrindo espaço nos reatores com possibilidade de produção de PEs base metaloceno/octeno, a importação regular desses grades deve continuar, devido à operação de novas máquinas de alta produtividade e necessidade de selagem em alta velocidade e contra contaminante. Não há como retroceder neste quesito e abrir mão de produtividade na transformação.
Precisamos verificar o balanço de produção x demanda de PE, incluindo a Argentina para este cálculo. Afinal, lá existe uma capacidade produtiva sem perspectiva de ser contemplada com grandes aumentos, porém com a possibilidade de receber pequenos desgargalamentos.
O ciclo de baixa das resinas, deve perdurar por mais alguns anos em condições conjunturais normais. Isto é, sem guerras, fechamento de fábricas, problemas de importação de petróleo etc. As plantas petroquímicas com melhores condições de feedstock (matérias-primas), poderão buscar a exportação para manter as taxas de operação a nível elevado e dessa maneira, tornando-se mais competitivas no mercado internacional.
Aqui no Brasil, possuímos a Zona Franca de Manaus (ZFM), onde grande parte da resina recebida é importada e cujo polo industrial opera ancorado em benefícios fiscais que devem perdurar por vários anos (nota: subsídios prorrogados até 2073). O fluxo de volume de resinas como poliolefinas para a ZFM deve crescer com várias novas plantas partindo. Isso mexe em todo o balanço logístico do setor plástico brasileiro
O mercado de embalagem e utilização de PP e PE cresce a nível mundial. As novas capacidades, devido ao ciclo de baixa devido á super-oferta atual, irão demandar mais tempo para destinar volumes de produção economicamente aceitáveis. Mas eles acabarão sendo atingidos e novos projetos petroquímicos surgirão. Não sigo de perto o cenário de PVC, mas o fato de sua capacidade instalada no Brasil ser inferior à demanda é um ponto a ser considerado na análise das perspectivas para as importações.”
Carlos Fadigas
Presidente da consultoria CF Partners
“Para que o Brasil aumente sua produção de resinas de forma competitiva, será essencial melhorar o ambiente de negócios”
Não acredito que o Brasil esteja fadado, necessariamente, a importar cada vez mais resinas. No entanto, os desafios para evitar esse cenário são significativos.
O país é rico em matérias-primas petroquímicas. A produção de petróleo tem crescido nos últimos anos, com recorde de 3,4 milhões de barris por dia em 2023, e deve aumentar novamente em 2025 com a entrada de novas Unidades Flutuantes de Produção, Armazenamento e Transferência (FPSOs). O Brasil é exportador de petróleo há quase 15 anos, tendo registrado um recorde de vendas externas em 2023.
O cenário do gás natural, porém, é distinto: o país ainda importa parte do volume necessário. Trata-se de reflexo de um histórico de menor investimento na produção de gás. Ainda assim, há regiões com potencial de oferta para expansão da indústria petroquímica – como o Rio de Janeiro, que deve receber volumes crescentes do pré-sal. Não por acaso, a Braskem já manifestou interesse em ampliar a capacidade do complexo petroquímico no estado, baseado justamente em gás como matéria-prima.
Há também projetos relevantes em curso para elevar a produção nacional de gás, seja com o avanço gradual do pré-sal, seja com a abertura de novas fronteiras exploratórias.
Contudo, para que o Brasil aumente sua produção de resinas de forma competitiva, será essencial melhorar o ambiente de negócios. A atual taxa básica de juros, de 15%, é apenas um dos vários entraves que ilustram o grau de dificuldade enfrentado pela indústria.
Será igualmente importante manter os esforços em prol da ampliação da oferta de gás como insumo industrial – pauta defendida com ênfase pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim)
Por fim, caberá à Braskem encontrar, de alguma forma, soluções financeiras para viabilizar a expansão da capacidade base-gás quanto à eventual conversão de parte de suas unidades hoje baseadas em nafta.
Em síntese: o Brasil tem condições de evitar o aumento estrutural das importações de resinas, mas os obstáculos exigirão articulação, investimento e políticas industriais consistentes.
James Francisco de Andrade Tavares
Diretor geral da distribuidora SM Resinas Brasil
“Presenciamos, ano a ano, um aumento das importações de PE e PP e perda de market-share do produtor local”
A superoferta mundial de poliolefinas é um fato. Vimos novas capacidades surgindo nos últimos anos e que não foram acompanhadas pelo crescimento da demanda. O resultado é um ciclo de baixa de preços. Ele impacta nos resultados dos integrantes de toda a cadeia no mundo inteiro.
No Brasil, objeto da pergunta, o impacto observado foi semelhante. Por termos um grande mercado interno, somos vistos como uma alternativa para o escoamento do excedente de produtos já há algum tempo.
Estabelecendo como foco da resposta os mercados em que minha empresa atua, de PE e PP, presenciamos, ano a ano, um aumento das importações e perda de market-share do produtor local (nota: Braskem), intensificada no exercício de 2024. Tal quadro pode ser observado nos gráficos abaixo, onde apresentamos em azul as vendas declaradas do produtor local em seu relatório anual público; em verde, os volumes de importação nacionalizados e em vermelho a evolução do market share do mencionado produtor doméstico.
Polietileno:
Analisando o quadro, vemos alguns dados importantes:
Volumes de venda de produtos de fabricação local não crescem em toneladas, enquanto os volumes de importação aumentam quase três vezes se comparados com 2012. O efeito no market share acompanha a tendência e, pela primeira vez em 2024, os produtos locais não alcançam 50% do mercado. Importante dizer que no período de 2024 o mercado não cresceu como o indicado e, em teoria, viramos o ano com estoque em toda a cadeia. Naquele mesmo ano, os impostos de importação subiram de 12,6% para 20% e podemos dizer, analisando o primeiro trimestre de 2025, que o ímpeto das importações não arrefeceu, deixando o fornecedor local com market share inferior a 50%. Está em avaliação (nota: até a publicação desta pesquisa de opinião) a possibilidade de aplicação de tarifas antidumping para importações de PE dos EUA e Canadá. No exercício de 2024 e de janeiro a maio de 2025 estes dois países representaram aproximadamente 80% do total de importações brasileiras de PE, o que equivale, a números de hoje, a aproximadamente 40% do mercado total. Na nossa opinião, a aplicação de sobretaxa de antidumping nas resinas americana e canadense, dada a sua relevância em termos de volume, possibilitará ao produtor local recuperar market share no mercado brasileiro no curtíssimo prazo. Considerando que a) já observamos movimentos de busca de produtos de outras origens, b) que importações já fazem parte da estratégia dos transformadores e c) que importações são alternativa natural para locais como a Zona Franca de Manaus, acreditamos que a importação de PE seguirá relevante para o mercado interno no médio e longo prazo. Um ponto de atenção: os preços de PE devem aumentar no país e reduzir a competitividade das indústrias transformadoras brasileiras.
Polipropileno:
A tendência das importações são muito semelhantes a do Polietileno e se comparadas com 2012 , crescem mais de 3 vezes enquanto as vendas do fornecedor local estagnaram. O fornecedor local perde aproximadamente 20% de market share. Considerando que para PP, já temos tarifas anti-dumping para produtos oriundos de Estados Unidos, África do Sul e Índia e que o mesmo passou com relação a Imposto de Importação, com elevação de 12,6% para 20%, constata-se que o mercado brasileiro atrai o interesse cada vez maior de exportadores e as importações tornaram-se relevantes e parte da estratégia de aquisição dos transformadores o que reforça nossa conclusão que os volumes serão elevados no futuro também. Nesta linha, também é importante frisar que o aumento dos impostos ajuda o produtor local na recuperação do market share ( 4% de recuperação no primeiro trimestre), mas em PP fica nítido que mesmo com tarifas anti-dumping e Imposto de Importação elevado os volumes seguem relevantes.
Resumindo, para PE e PP, acreditamos que as importações seguirão sendo relevantes e dependendo da estratégia do fornecedor local, subirão um pouco ou permanecerão no atual patamar ou levemente inferior. Nossa grande preocupação reside na competitividade dos transformadores que certamente terão dificuldades para competir com o transformador internacional devido a relevância do custo da matéria-prima no produto final.
Com relação a investimento nas Plantas, para melhorar competitividade é difícil opinar. Nos cenários de muita oferta, plantas pouco competitivas são descontinuadas e isso pode ser uma opção para preservar rentabilidade. O outro ponto a ser analisado é a matéria prima utilizada e seus respectivos custos e nesse caso as plantas mais competitivas deverão ser as que receberão os investimentos.
Mateus Mesquita Inacio
Presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Nãotecidos e Tecidos Técnicos (Abint)
“As barreiras tarifárias não são mais suficientes para compensar o elevado custo de operar a produção no Brasil”
A aplicação de barreiras tarifárias tem sido, historicamente, utilizada como principal estratégia do país para proteger os fabricantes locais da concorrência internacional. No entanto, elas não são mais suficientes para compensar o elevado custo de se operar no Brasil, entrave que inclui a variação cambial, a dificuldade de acesso ao crédito, a defasagem da infraestrutura logística e a burocracia em torno de importação de maquinário e equipamentos, entre outros pontos.
Neste cenário, ainda que a Braskem invista em ações como a atualização da sua matéria-prima, com maior participação de gás natural em relação à nafta petroquímica – o que é muito bem-vindo – sua competitividade continuará sendo desafiada.
No mercado de resinas, assim como no meu setor de nãotecidos, o excesso de oferta é apenas a ‘gota d’água’ que diminui ainda mais os preços dos importados. A redução vem atingindo níveis predatórios. Eles não permitem à indústria nacional competir em preços de forma saudável.
Esta situação é agravada ainda mais pelo aumento expressivo nas importações de produtos acabados. Seja qual for o segmento, quando a fabricação local é substituída por importações, cessa também a demanda pelas matérias-primas, criando um efeito dominó que impacta diversos setores da economia.
A indústria brasileira de nãotecidos e tecidos técnicos é um ator importante, que apoia e impulsiona o desenvolvimento de importantes cadeia produtivas, a exemplo da automotiva, da construção e infraestrutura, higiene pessoal, médico-hospitalar e agro. Trata-se de uma indústria que, nos últimos cinco anos, investiu mais de R$ 600 milhões em ampliação de capacidade e inovação, além de gerar postos de trabalho e impostos, para atender setores estratégicos da economia brasileira.
É uma indústria líder na América Latina, contando com algumas das maiores empresas mundiais no setor, um amplo portfólio de tecnologias e capacidade produtiva para atender a demanda nacional. No total, cerca de 100 empresas empregaram 17.000 pessoas na produção de mais de 370.000 toneladas em 2024. Para se ter uma ideia, o setor hoje atua num cenário em que se mostra frágil diante do ataque predatório da concorrência internacional. Por causa disso, a taxa de ocupação da capacidade produtiva de nãotecidos e tecidos técnicos no Brasil foi de apenas 68,7% em 2024, com crescimento tímido (0,7%) da produção em relação ao ano anterior.
Jorge Büher-Vidal
Diretor da empresa Polyolefins Consulting
“O quadro das rotas petroquímicas mostra uma debilidade estrutural da indústria de PE no Brasil”
Vários fatores afetam e afetarão as importações brasileiras de PE e PP. De um lado, consideramos a capacidade instalada no país e a demanda doméstica por estes produtos. Do outro, temos o excesso da capacidade global de PE, em especial nos EUA. Essa superoferta pode crescer ainda mais, devido às novas travas no comércio capazes de impor a China em represália aos aumentos tarifários dos EUA. Além do mais, pesam no quadro as restrições chinesas às exportações americanas. Abalando a todos os mercados por igual, temos os preços dos materiais e suas despesas de produção, ambos dependentes da disponibilidade e custo de matérias-primas e da eficiência operacional das plantas petroquímicas.
No Brasil, a capacidade instalada totaliza 3.201 milhões de t/a para PE e 1.850 milhão para PP. O único aumento da capacidade a caminho, previsto para 2028, é de 220.000 t/a de PE na unidade no Rio de Janeiro. Também se pode especular que uma parcela da capacidade instalada da poliolefina, em especial as linhas menores e antigas, possam ser desativadas por baixa competitividade.
A produção da Braskem no Rio de Janeiro é baseada em etano, enquanto na Bahia e São Paulo a nafta é a rota dominante e detém a exclusividade no completo da empresa no Rio Grande do Sul. O quadro das rotas petroquímicas mostra uma debilidade estrutural da indústria de PE no Brasil. Afinal, a matéria-prima responde por cerca de 85% do custo de produção da resina. A produção de PE baseada no etano, tal como ocorre nos EUA e Argentina, desfruta a importante vantagem de ser mais barata que a da rota da nafta.
O aumento do consumo das resinas está relacionado à economia do Brasil. O Banco Mundial projeta crescimento do PIB brasileiro da ordem de 2,5% para 2025; de 2,2% para 2026 e 2,3% para 2027. A Associação Brasileira dos Distribuidores de Resinas Plásticas e Afins (Adirplast) prevê expansão entre 2% e 3% no setor de embalagens este ano. Torna-se plausível antecipar, portanto, a absoluta necessidade de importações de poliolefinas para o Brasil corrigir a diferença entre a capacidade instalada (e a produção efetiva) e o antevisto aumento da demanda doméstica. Nos casos em que o custo do material importado seja inferior ao doméstico, haverá ainda mais pressão sobre a indústria brasileira de resinas.


