Dos pontos de vista tecnológico e empresarial, quais os principais obstáculos para a transição energética se consumar a contento no Brasil?
A transição energética em curso não tem um objetivo em si mesma, ao contrário das anteriores. É uma forma de reduzir a emissão dos gases efeito estufa (GEE), causa do aquecimento global. Como o uso da energia fóssil é, no mundo, o principal fator de emissão dos GEE, a política ‘transition away from fossil fuels’ (transição à margem das fontes fósseis, em tradução livre) é indispensável para se avançar nas metas climáticas.
O custo financeiro e social de nada fazer em relação ao aquecimento global é superior ao custo de mudar o perfil energético mundial. A questão, entretanto, é determinada pela política, pois a conta decorrente do aquecimento não é paga diretamente por quem o provocou. Em resumo, queimei 50 milhões de toneladas de carvão no Texas, mas onde alagou foi em Porto Alegre …
No Brasil a principal fonte das emissões está ligada ao uso da terra e à atividade agropastoril. Logo, a contribuição brasileira depende, em especial, do que acontecerá – literalmente – nesse campo. As demais atividades emissoras de GEE, como a geração de energia elétrica, o transporte, os usos comerciais e residenciais e a indústria também devem contribuir na redução das suas emissões, como prevê a NDC brasileira (Contribuição Nacional Determinada, NDC em inglês. Consta de compromisso de baixar emissões de GEE).
“A petroquímica voltada a commodities e polímeros de grande volume tende a ser dominada por empresas integradas de óleo e gás”
Luiz Fernando Marinho Nunes, ChemVision
Mas como esta contribuição transcorre fora do papel?
O avanço não é homogêneo em todos os setores. Na geração elétrica renovável, por exemplo, o Brasil tem posição invejável. Ainda assim, em termos de ‘limpeza’, sua matriz elétrica fica com o 15º lugar, honroso para um país da nossa dimensão, mas atrás da França com sua opção nuclear. Temos a oportunidade de agregar mais energia eólica e solar, desde que os obstáculos regulatórios e operacionais do sistema sejam contornados e haja financiamento competitivo. Afinal, na geração renovável o custo mais significativo é o do capital.
Nos transportes, por seu turno, etanol e biodiesel são uma realidade da nossa transição energética, dadas as condições privilegiadas da agricultura brasileira. Neste caso, a pergunta a ser respondida é: considerando que não estamos isolados no mundo e os veículos elétricos avançam, alguma solução baseada nos motores a combustão interna e sua baixa eficiência energética se manterá viável a médio prazo?
Na indústria, por fim, há o desafio de a transição avançar nos setores chamados ‘hard-to-abate’ (indústrias de difícil redução de emissões de carbono). E entre eles consta a petroquímica.
Quais os entraves inerentes à petroquímica para a transição decolar nesse setor?
Os principais desafios tecnológicos estão ligados às altas temperaturas necessárias às reações, que o uso da eletricidade não alcança, e à baixa viabilidade de processos complementares. Por exemplo, a captura de carbono e o custo elevado do hidrogênio ‘verde’ ou ‘azul’. Há ainda fatores estruturais, como a longa duração dos ativos que, associada à intensidade de capital, desencoraja a parada das unidades durante sua vida útil. O fato de os mercados de produtos petroquímicos serem globais e ultra competitivos obriga que as medidas climáticas que aumentam os custos sejam globalizadas ou compensadas – ao menos no mercado interno – por taxas de fronteira.
O que as empresas têm feito é buscar a maior eficiência energética, através da eletrificação onde aplicável, ou pelo melhor aproveitamento do calor latente. O desenvolvimento de novos catalisadores contribui.
Resumindo, os projetos da transição energética, não importa o segmento em foco, dependem do acesso ao capital para custeá-los, além de ambiente de negócios estável, regulação capaz de se adequar à realidade mutável do mercado e da capacidade de empreender. A tecnologia é um fator, mas, na maior parte das vezes, não é o ponto crítico.
Agronegócio: principal fonte emissora de gases de efeito estufa no Brasil.
Substituir nafta por gás natural é suficiente para conferir à indústria química/petroquímica brasileira a competitividade hoje insuficiente?
O gás natural e, em particular, o etano de gás natural, que pode substituir a nafta, não tem nenhum atributo intrínseco que o torne mais competitivo. O gás é vantajoso em algumas regiões, como Oriente Médio e EUA, pois lá seu preço é baixo. E qual a razão para ser baixo? É que ele não encontrou colocação em outro mercado – em particular no energético – que pague mais.
Devemos nos lembrar que a indústria petroquímica americana, baseada no gás natural, passou por sérias dificuldades na primeira década do século XX. Qual seria seu futuro se a tecnologia shale (extração de óleo/ gás de jazidas de xisto) não tivesse multiplicado a disponibilidade local do gás?
Tomando ainda os EUA como paradigma, não podemos esquecer o papel do Estado na conformação dos mercados estratégicos. Na década de 70, o uso energético do gás natural era limitado, tornando a petroquímica o escoadouro natural. Já foi proibido nos EUA exportar petróleo…
No Brasil, as variáveis da equação são as mesmas. O que difere são os valores atribuídos a elas, como a disponibilidade, o limite de concentração do etano no gás, a infraestrutura limitada e a localização das reservas impactando o custo. Também pesam a reinjeção de gás natural em grandes volumes diminuindo sua oferta e o tamanho do mercado potencial, sem falar no poder de negociação dos vários agentes na cadeia.
No final, a competitividade da petroquímica brasileira com base no etano dependerá de uma convergência entre o preço que justifica sua separação do gás natural e o preço que viabiliza a produção de eteno.
Sou otimista e acredito que veremos, em breve, uma conjugação de todos esses fatores viabilizando investimentos em crackers de etano no Brasil.
A substituição de nafta por etano é exequível em todos os crackers de eteno na ativa no Brasil (SP, RJ, BA, RS)?
Ela é exequível tecnicamente, mediante investimentos pesados. Mas a questão está no fato de que, a partir do etano, só se produz eteno. De onde virão o propeno, o butadieno, os aromáticos? Além do mais, a competitividade de um projeto baseado no etano requer sua disponibilidade na região onde será utilizado – embora isso não seja um condicionante absoluto, pois há crackers alimentados por etano transportado por navios.
A resposta, portanto, é que não será feita a substituição da nafta por etano em todos os crackers do Brasil. O que não impede que parcela da nafta seja substituída, como já ocorre no polo de Camaçari. O caso do Rio (UNIB 4 da Braskem) é diferente, pois tem no etano a principal matéria-prima. Já foi anunciada sua expansão, aproveitando o etano da Rota 3 (nota: um dos trechos da rede de gasodutos submarinos que escoa a produção em alto-mar).
Devemos olhar para frente e pensar em novos projetos.
EUA: tecnologia shale proporcionou autossuficiência no óleo e gás e turbinou com etano a petroquímica local.
Como tornar competitivos complexos onde a substituição de nafta por gás é (econômica e/ou tecnologicamente) inviável?
Há crackers alimentados por nafta que são ‘competitivos’ e vão operar nos próximos anos, mesmo que as margens da petroquímica global permaneçam deprimidas. A nafta ainda é – e assim continuará – a principal fonte de olefinas. Quem vai fechar são as unidades que aparecem entre os ‘laggards’ (retardatários) na curva do custo desembolsável acumulada e voltadas à exportação. Serão expulsas do mercado pelas novas capacidades mais competitivas, operando com etano ou integradas ao refino.
O próprio conceito da curva de custo é uma fotografia imperfeita da realidade. Afinal, a existência de tarifas, custos logísticos e de incentivos à produção local altera a rentabilidade dos vários atores.
Os recentes movimentos de fechamento de unidades de crackers e poliolefinas no Japão, Coréia do Sul e Europa, estão aí para serem vistos. O que essas economias têm feito? Percebendo a importância da petroquímica de base para sustentar o tecido industrial, lançaram uma combinação de políticas. De um lado, essa estratégia força a reestruturação, eliminando as unidades menos eficientes; do outro, ela é acompanhada pela proteção do mercado interno. Este isolacionismo sustenta as unidades petroquímicas escolhidas para sobreviver num momento de agravamento mundial da tendência de aplicação de dumping. Os incentivos estatais, inferiores ao prejuízo para o país decorrente da eventual perda do segmento industrial, se concentrarão nos ativos melhor posicionados e em novos projetos.
No Brasil, a química está presente em 96% da produção industrial. O Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química – PRESIQ (nota: projeto de lei referente a novos benefícios fiscais e aprovado pela Câmara dos Deputados em 29/10) compartilha a mesma inspiração. Ele propõe estimular a indústria com contrapartidas que aceleram a transição para processos de baixo carbono.
Devemos nos lembrar que partimos nessa corrida pela competitividade com uma vantagem em relação a muitos outros países. Afinal, o mercado interno tem tamanho suficiente para absorver a produção petroquímica de novos projetos.
No consenso dos analistas, daqui a 30 anos carros movidos a combustão de etanol ou gasolina não existirão. Isso implica super oferta de petróleo e consequente barateamento da nafta. Com esta baixa nos preços, a nafta, mesmo num cenário de transição energética, não voltaria a ficar competitiva diante do gás como rota para petroquímicas como a brasileira?
Pesando todas as variáveis, eu responderia que sim. No futuro, a nafta ganhará espaço no mix de matérias-primas em relação ao etano. No cenário descrito na pergunta, o importante não é o preço absoluto da nafta, mas a sua relação com o preço do gás natural e seus líquidos.
Portanto, a análise deve considerar, simultaneamente, o mercado de óleo e o do gás. Lembremos que o primeiro, do óleo, é globalizado, e o segundo, do gás, ainda majoritariamente regional. Em algumas regiões o gás continuará imbatível.
Reforçando a complexidade do tema, quando – e se – cair a produção de petróleo por falta de mercado para os combustíveis líquidos, cairá também a produção de gás associado a ela. E o etano, em consequência, se tornará mais escasso. Na direção contrária, vale indagar: com a eventual retração da gasolina e do diesel, os outros produtos, como a nafta, se tornarão responsáveis pela sustentação da margem do refino, aumentando o seu preço?
Aquecimento global: custo do imobilismo supera o de mudar o padrão energético mundial.
A indústria petrolífera mundial vai perder para a eletrificação seu mega cliente, o setor automotivo. Esse impacto futuro para as petroleiras poderá ser anulado ou amortecido pela indústria química/petroquímica produzindo valorizadas especialidades em conexão direta com refinarias (Oil to Chemicals)?
Essa é a aposta de algumas companhias de petróleo, interessadas em assegurar o mercado para colocar a sua produção futura do combustível fóssil. Os projetos de integração Refino x Petroquímica, com vários graus de intensidade, têm em comum o aumento da proporção de insumos petroquímicos produzidos nas refinarias.
O modelo de negócio petróleo-integração-petroquímica se sustenta pelo fato de não haver previsão, das mais diversas organizações, de que, mesmo no longo prazo, a química de base vá encontrar, em quantidades não marginais, alternativas não fósseis como matérias-primas. De toda maneira, a petroquímica pode contribuir, mas não solucionar a queda da demanda de diesel e gasolina, pois eles correspondem a cerca de 60% do petróleo, algo próximo a 3 bilhões de t/a. Mesmo uma queda de apenas 10% nestes derivados dificilmente poderia ser absorvida 100% pela petroquímica.
Estudos mostram que, na falta de mercado energético para o petróleo, todo investimento e a produção numa unidade petroquímica integrada se pagariam apenas como um custo de comercialização do combustível. Ou seja, produzir ou não produzir petróleo ‘that’s the question’ (eis a questão). Corolário: a petroquímica básica, voltada a commodities e polímeros de grande volume, tende a ser dominada, cada vez mais, por empresas integradas de óleo e gás.
No mundo e no Brasil, a indústria química/petroquímica foi destronada pela digitalização como vanguarda da tecnologia. Em decorrência disso, do Custo Brasil e do retorno imbatível e menos suado do mercado financeiro, a indústria química/petroquímica brasileira, tal como outros redutos da manufatura, deixou de seduzir novos entrantes e projetos de plantas greenfield. Como atrair para a transição energética no setor a iniciativa privada, hoje alheia à atividade produtiva?
Eletrificação: petroleiras apostam em especialidades petroquímicas para compensar perda do setor automotivo.
A pesquisa científica brasileira deve perseguir soluções de fontes renováveis ajustadas às características locais ou deve focar aquelas que também possam ser transpostas internacionalmente?
A pesquisa deve seguir buscando soluções locais que tenham a perspectiva de se integrarem ao mercado global. Tomemos o exemplo do agro. O aprendizado que levou à produção no Cerrado focou nas condições locais, mas o resultado, os grãos, atingiram o mercado mundial.
Como contornar a ojeriza à produção de fontes renováveis de energia extraídas do agro sob o risco da acusação de comprometimento da produção alimentar?
A transição energética tem seu avanço politicamente determinado e, como disse o Betinho, “quem tem fome tem pressa”. Cabe ao agro demonstrar, cientificamente, que destinar a produção para fins energéticos, não compete com uso alimentar. O mundo está longe de ter encontrado um consenso nessa área, aliás um tema forte para discussão na COP 30. Economias com grande potencial agrícola como o Brasil e a Indonésia tem visões diferentes da Europa. Acredito que se chegará a uma solução negociada, permitindo o avanço dos óleos vegetais principalmente na produção de SAF (combustível de aviação), na qual a solução praticamente se impõe. Vejo maiores oportunidades na exploração das demais famílias de biomassas, como o amido, a hemicelulose, a lignina, os óleos vegetais e a própria sacarose, se voltada a produtos de alto valor agregado.
O governo aprovou decreto regulador da logística reversa de embalagens plásticas, delimitando teor de 22% de plástico reciclado pós-consumo (PCR) em transformados em 2026, passando a 30% em 2030. Quais especialidades de sua empresa tendem a deslanchar nos processos de reciclagem e melhora da performance do PCR na garupa da vigência desta lei?
Por que o uso da rota alcoolquímica (etanol da cana, p.ex.) como substituto de aura verde da nafta até hoje não deslanchou na petroquímica do Brasil e do mundo, apesar de bem visto como aliado da sustentabilidade?
O Brasil já teve uma grande produção alcoolquímica. Hoje, fora o eteno de álcool da Braskem (nota: PE base etanol da cana-de-açúcar lançado em 2007), nada há de significativo em operação. Devido ao seu custo, o etanol não deslancha novamente, nem mesmo na linha dos produtos oxigenados que, ao contrário da produção do eteno, aproveita o oxigênio da molécula. Na cadeia dos derivados acéticos, por exemplo, o etanol concorre com os derivados do gás de síntese, oriundo do gás natural, precificado abaixo do petróleo.
O preço do etanol tem dinâmica própria. É balizado na base pelos custos de produção, pelo mercado de açúcar que compete pelo destino final da sacarose e, por fim, pelo preço da gasolina. Em decorrência, o uso do etanol hoje depende de um cliente que possa valorizar o lado ambiental da alternativa mais cara. No futuro, a existência de uma ‘taxa de carbono’ sobre os derivados fósseis pode criar um outro paradigma de competitividade.
O avanço tecnológico do etanol 2G, de origem celulósica, merece atenção. Ele pode alterar a base de custo, permitindo que novos projetos sejam viáveis.
Coreia do Sul: reestruturação da petroquímica movida por aliança do governo com empresariado elimina plantas defasadas.
A reciclagem de plástico, estimulada desde os anos 1990, nunca alcançou no mundo índices convincentes de sua eficácia como solução para a crise climática. A situação hoje se agrava com o excedente global de resina virgem e o impulso à produção mundial de fontes fósseis de energia dado por drivers tipo EUA e China, O Brasil, aliás, segue a onda com a nova fronteira de exploração Margem Equatorial, tal como a Argentina com Vaca Muerta. Esse movimento tende a manter a reciclagem de plástico em banho-maria diante da incessante produção de fontes não renováveis e derivados?
A demanda por plásticos aumentará à medida que mais países avancem economicamente. A própria transição energética impulsiona o uso dos plásticos, pela eficiência gerada pelo seu uso em relação a materiais alternativos. Devemos distinguir a questão da emissão de GEE na produção dos polímeros e os problemas associados a seu descarte. Cabe lembrar que em nada altera a questão da reciclagem o uso de matérias-primas renováveis nos plásticos “drop-in” (produzidos por outras vias ou matérias-primas e possuidores das mesmas características originais), como polietileno (PE).
A reciclagem mecânica do plástico não resolve o problema da destinação dos resíduos de polímeros. É apenas uma solução de extensão do ciclo de vida, reduzindo, mas não eliminando, a quantidade final de produto a ser descartado.
O avanço da reciclagem é fortemente condicionado pelo valor agregado no processo e pela manutenção das suas propriedades após o reprocessamento. O alumínio, de alto valor e fácil coleta, é muito reciclado, tal como garrafas PET, e polietileno de alta densidade (PEAD) se destaca nas poliolefinas. Outros polímeros, em geral, não encontram as mesmas alternativas, justamente pelo seu principal atributo: o baixíssimo custo…
A reciclagem química, ao contrário, é uma solução que permitiria que o ciclo se fechasse. Entretanto, o seu custo e, mais que isso, a demanda energética para coletar e tornar mais uma vez plásticos em matérias-primas pode reduzir substancialmente o benefício. A abordagem mais ampla na linha dos 4 R’s (Reduzir, Reutilizar, Reciclar e Repensar hábitos de consumo) deve ser perseguida.
Acredito que, mesmo no final do século, a maior parcela dos plásticos será de origem fóssil e destinada aos aterros sanitários. Mas alcançar isso já seria um sucesso. Os plásticos descartados devem chegar de fato aos aterros sanitários, através de ação coordenada, apoiada pela legislação, empresas da cadeia, consumidores e a sociedade organizada. Não podem terminar nos cursos d’água e oceanos. •


