Transformação precisa se repensar para atrair jovens

Nova abordagem engloba sustentabilidade, tecnologia de ponta e ambiente criativo, constata gestora de RH da indústria Epema
Transformação precisa se repensar para atrair jovens
Entre 2006 e 2024, dimensiona rastreamento do Senai, caiu 26,49% a presença de funcionários de até 24 anos no emprego formal da indústria paulista de manufatura. Além dos salários de admissão equiparáveis aos de ocupações em serviços, comparou o estudo focado no estado locomotiva da economia brasileira, a indústria hoje compete com emprego sem carteira assinada e com a explosão de microempreendedores. Para agravar o blecaute de jovens qualificados na atividade fabril, desaba no Brasil o número de graduados em Engenharia e Química e a nova geração integra a montanha de beneficiados por programas assistencialistas do governo, uma explicação para mais de 10 milhões de pessoas na faixa de 18 a 24 anos não trabalharem nem estudarem. Além dessas lombadas e buracos na pista, pesam na indiferença dos jovens pela carreira na transformação de plástico a reputação ambiental em cacos do material e a necessidade de o setor acenar à galera na flor da idade com as expectativas profissionais dela, 100% destoantes das gerações anteriores. Na entrevista a seguir, este desafio e o reposicionamento necessário para a transformação de plástico fisgar o arisco olhar de quem ingressa no mercado de trabalho são dissecados por Pâmela Cassiano, consultora em gestão de pessoas da Epema, motor turbo da produção nacional de embalagens flexíveis.

O apagão de mão de obra qualificada e a preferência dos novos talentos pela carreira em outros setores (em especial, serviços e mercado financeiro) compõem um cenário que tende a piorar ou atenuar na indústria brasileira com a entrada em cena da inteligência artificial (IA) em todas as áreas profissionais?

A IA pode criar um paradoxo. No curto prazo, o desafio pode se intensificar, pois a tecnologia avança mais rápido do que nossa capacidade de preparar e capacitar pessoas para usá-la.

Não se trata apenas de operar máquinas, mas de interpretar dados, tomar decisões com base neles e trabalhar em conjunto com sistemas inteligentes.
O ponto crucial é que, ao mesmo tempo que desenvolvemos tecnologias, precisamos investir massivamente na requalificação do público interno, transformando habilidades tradicionais em competências digitais. O futuro não está na substituição pura e simples, mas na integração entre a experiência humana e a eficiência da tecnologia.

“Os jovens querem saber como podem desenvolver novas habilidades e como seu trabalho contribui para algo maior”

Pâmela Cassiano / Epema

Pâmela Cassiano da Epema

Por que a oferta de salários mais atraentes mostra não ser o bastante para indústrias, como a de transformação de plásticos, atraírem satisfatoriamente novos talentos?

Hoje, as pessoas buscam sentido no que fazem. O salário é importante, mas tornou-se apenas um dos fatores a serem analisados pelos novos talentos, não o diferencial. Os jovens profissionais querem saber como podem crescer na empresa, que tipo de ambiente encontrarão, se suas ideias serão valorizadas e, principalmente, se terão saúde e qualidade de vida.

Na indústria de transformação de plásticos, precisamos trabalhar nossa imagem como um setor inovador, tecnológico e preocupado com sustentabilidade. Temos de mostrar que aqui também se desenvolvem carreiras interessantes e com propósito.

Com a atual geração, a atração para a carreira na transformação deixou de ser apenas financeira para também ser emocional e profissional.

Poderia citar exemplos concretos de fringe benefits (benefícios adicionais) que indústrias como a de transformação de plásticos devem passar a oferecer, além do salário inicial maior, para recrutar e manter jovens talentos qualificados?

Os benefícios que realmente fazem diferença são os que demonstram cuidado genuíno com a pessoa como um todo. Programas de desenvolvimento contínuo, oportunidades de educação e capacitação como Universidade Corporativa, apoio à saúde mental através de acesso à psicólogos clínicos e organizacionais, flexibilidade onde for possível – mesmo em ambientes presenciais podemos pensar em escalas inteligentes. O que observo é que os jovens valorizam benefícios que mostram que a empresa investe no crescimento deles e respeita seu bem-estar e autonomia, não proporcionando apenas compensações materiais.

Em decorrência da dificuldade para recrutar e manter pessoal especializado na linha de produção, acha que os transformadores tendem a intensificar os investimentos na automação das etapas do processo e em máquinas que dispensem cada vez mais a necessidade da participação humana na sua operação?

Sem dúvida, a escassez de mão de obra qualificada acelera a necessidade da automação. Mas vejo isso como uma oportunidade de evolução. É importante entender que a automação deve redesenhar funções, não eliminar pessoas. Podemos realocar talentos para atividades mais estratégicas, que exigem pensamento crítico e criatividade. O grande desafio é garantir que nossos colaboradores acompanhem essa transformação através de programas sólidos de capacitação interna e de parceiros externos.

Quais as principais diferenças que nota entre as metas e planos de carreira ambicionados pela nova geração de talentos e aqueles sonhados pelas gerações anteriores?

A mudança é profunda. Antes, as pessoas buscavam estabilidade e progressão linear dentro de uma mesma empresa. Era sinônimo de orgulho aquele profissional que se aposentava na mesma companhia onde iniciara sua jornada profissional. Hoje, os jovens valorizam experiências diversificadas nos mais diversos ramos, num aprendizado contínuo e com propósito. Eles querem saber claramente como podem desenvolver novas habilidades e como seu trabalho contribui para algo maior.

Nossa tarefa, então, é criar estruturas mais flexíveis que permitam mobilidade interna, projetos desafiadores e crescimento baseado em competências, não apenas em tempo de casa. Além disso, proporcionar benefícios coerentes com a busca desses profissionais por mais qualidade de vida.

Quais os setores que mais atraem os jovens diante da alternativa do trabalho numa indústria como a de transformação de plásticos? O que fazer para tornar este trabalho atraente para a nova geração qualificada?

Setores como tecnologia, análise de dados e sustentabilidade naturalmente atraem mais os jovens, por associarem inovação e propósito. Para a indústria do plástico competir por esses talentos, precisamos reposicionar nossa narrativa. Devemos destacar nosso papel na economia circular, mostrar como estamos incorporando tecnologia de ponta e criar ambientes que valorizem a criatividade e a colaboração. É sobre comunicar que aqui também se constrói o futuro.

Como avalia a influência da imagem negativa do plástico sobre os novos talentos que as indústrias transformadoras procuram atrair para seus quadros?

Sim, afeta, especialmente entre os jovens mais conscientes e preocupados sobre as questões ambientais. Para reverter isso, precisamos ir além do discurso e demonstrar ações concretas em sustentabilidade e economia circular. É fundamental envolver os colaboradores nessa transformação, mostrando como seu trabalho contribui para soluções mais responsáveis.

Quando as pessoas veem que estão participando ativamente dessa mudança, passam a enxergar o setor de plásticos fora dessa posição de vilão e a percepção sobre ele começa a se transformar.

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