Com a instituição do decreto regulador da logística reversa de embalagens plásticas, o Brasil engrossa a corrente mundial que está emitindo atestado de óbito para esta máxima entoada na cadeia plástica: faça chuva ou faça sol no mercado, o crescimento da indústria petroquímica será sempre líquido e certo. Não mais, rebatem fatores como a torrente de vetos a plásticos de uso único e a catequese da sociedade (mal combatida pelo setor), por ecodemagogos (greenwashing), pela substituição de plásticos por alternativas cientificamente provadas como menos sustentáveis, casos de papel, vidro e metal. A evolução tecnológica também influi nas dúvidas sobre o destino da petroquímica, reduzindo a espessura ou quantidade de plástico em diversas aplicações.
“Combine a atual demanda mundial entre estável e declinante com o excedente global de resinas e constate o horizonte sinistro”, sintetizou em blog John Richardson, analista da consultoria Icis. “A petroquímica não atravessa uma baixa cíclica, mas uma mudança estrutural e secular”. A oferta de polímeros é tão excessiva, ele opina, que pode levar uma década para ela tornar a se enquadrar nos moldes das previsões tradicionais de crescimento da demanda.
Um problema adjunto nesse labirinto, aponta o analista, é que as projeções sobre a demanda de petroquímicos baseiam-se, em regra, em premissas tornadas obsoletas por esta nova era. Richardson exemplifica com o cálculo de relacionar crescimento do PIB ao do consumo de petroquímicos, metodologia que ele vê furada hoje pela supremacia na economia dos setores terciários e digitais no valor total de bens e serviços finais produzidos em determinado período. No mais, ele segue, os dados típicos de um PIB compõem uma foto no atacado de um exercício passado e as novas levas de projeções para petroquímicos precisam mirar bem mais o desempenho futuro e específico dos mercados em vista. Richardson também acha pouco inteligível o modelo de agregamento de números do PIB e diz que em vários deles influem definições nacionais triadas por filtro político (alô Brasil e suas constantes mexidas na medição do PIB).
Outro guindaste com bola de demolição nos métodos clássicos de planejamento estratégico em petroquímica atende por demografia. No plano mundial, caem as taxas de natalidade e sobem as de expectativa de vida. Japão e Coréia do Sul beiram o colapso populacional e o índice raso de nascimentos motiva China e Finlândia a concederem bene$$e$ a quem topa casar e ter filho. A Europa virou referência da falta de jovens para as vagas abertas pelos idosos aposentados. Corte para o Brasil: em 2023, reza o IBGE, foram registrados 2,5 milhões de nascimentos, o menor número desde 1976, e 1,43 milhões de óbitos, queda de 5% versus 2022, sendo a menor redução (-7,9%) de mortes na faixa a partir de 80 anos. A expectativa média de vida do brasileiro era de 76,4 anos em 2023 e de 71,1 anos em 2000 e se prevê 79,7 anos em 2040. A atual população idosa é situada em 30 milhões de pessoas e pesquisa recente do Serviço de Proteção ao Crédito mostra que 47% dos consumidores acima de 60 anos gastam mais com produtos desejados que com os essenciais e 45% dizem suar para achar produtos adequados à sua faixa etária. Dado o peso da velhice, cai nesse público a propensão, também travada por juros altos, para consumir bens duráveis com alta incidência de petroquímicos, caso dos redutos automotivo e de reformas residenciais. Saldo agridoce do quadro: uma bomba relógio para a Previdência Social (menos contribuintes e mais beneficiários) e mais desafios e potenciais oportunidades para o plástico singrar.
Essa estrada é cheia de trechos em obras e o futuro para a petroquímica (e a cadeia plástica subjacente) passa pela assimilação de um cenário sem pontos em comum com qualquer momento anterior vivenciado pelo setor, acentua Richardson. Outros preparativos para a decolagem incluem o embarque em especialidades mais valorizadas e sustentáveis e a reconstrução da rentabilidade derretida pelo atual excedente global de resinas, mediante o fechamento de plantas obsoletas e onerosas. Nome e sobrenome disso tudo; reinvenção na marra. •


