Química/Petroquímica: desindustrialização atormenta a Europa

Continente lidera no mundo o fechamento de plantas e crackers
desindustrialização atormenta a Europa

Desde 2022, mais de 20 fábricas de produtos químicos/ petroquímicos bateram em retirada da Europa, fechadas em decorrência de, em essência, prejuízos acumulados com a demanda doméstica empalidecida e custos exorbitantes de energia (gás natural). As perdas chegaram a um ponto em que conglomerados formadores de preço e opinião em resinas como poliolefinas e estirênicos, como LyondellBasell, ExxonMobil, Sabic e Ineos, marcaram o noticiário do setor este ano bradando planos de venda e decisões de desligar unidades na zona do euro e Reino Unido, tormento aliás piorado desde abril pela chuva de tarifaços de Trump. Os efeitos desse momento não só para a Europa, mas para a produção e mercado mundiais de matérias-primas insubstituíveis para todas as cadeias setoriais dão o tom da entrevista a seguir de André Passos Cordeiro, presidente executivo da Associação Brasileira da indústria Química (Abiquim).   

Por que a Europa lidera no mundo o movimento de fechamento de plantas químicas/petroquímicas em reação ao excedente global desses materiais?

A Europa liderou o processo de industrialização no setor químico ao longo de grande parte do século XX, trazendo soluções inovadoras que permitiram à humanidade avançar em termos de eficiência produtiva, tecnologia de processos e de soluções aos desafios industriais e da sociedade moderna.

Contudo, nos últimos 20 anos, um forte processo regulatório no setor químico europeu, que se traduziu em uma escalada desproporcional de custos operacionais e de dificuldades técnicas para cumprimento das exigências normativas, além de um padrão insustentável de dependência estrangeira de insumos estratégicos (cenário agravado no bojo de sanções/embargos aplicados à Rússia, principal fornecedora para os europeus de energéticos derivados do óleo e gás natural) levaram a Europa, no começo do século XXI, a liderar um processo de fechamento de plantas industriais. Ele também foi pressionado por importações agressivas e originárias de mercados altamente competitivos, como o Oriente Médio, o leste asiático (em particular, a China) e os EUA.

“A crescente participação de importados no consumo aparente dentro do mercado europeu é uma realidade alarmante”

André Passos Cordeiro / Abiquim

André Passos Cordeiro da Abiquim

O fechamento de plantas químicas/petroquímicas em curso na Europa tende a favorecer a transferência de capacidades mais para os EUA, decorrência dos tarifaços, do que para a Ásia?

Em termos globais, o fechamento de unidades europeias impulsiona um processo de racionalização de ativos, em benefício daquelas geografias melhor posicionadas em fatores de competitividade. Nesse contexto, saíram na frente pela instalação de mega capacidades as duas maiores potências globais. Os investimentos estão ancorados, respectivamente, em sólidos programas de estímulo industrial nos EUA (desde a política do uso do shale gas como insumo estratégico ao Inflation Reduction Act – IRA) e em uma competitividade artificialmente construída na China, com matérias-primas russas adquiridas em condições bastante vantajosas no contexto dos embargos europeus em resposta à invasão da Ucrânia.

A indústria química/petroquímica europeia emprega mais de 1 milhão de pessoas e a Alemanha ainda é o coração da vanguarda científica mundial no ramo. As unidades europeias de indústrias clientes desse setor declinante tendem a seguir em frente substituindo matérias-primas locais por importadas ou tendem a ser fechadas e substituídas por filiais em regiões mais competitivas do planeta, destinadas também a atender a Europa?

A crescente participação de importados no consumo aparente dentro do mercado europeu é uma realidade alarmante. Ela se ‘retroalimenta’ com mais importações predatórias que colocam para hibernar a produção europeia, diminuindo a oferta interna e aumentando a necessidade de compras externas.

De todo o modo e em que pese o momento econômico delicado pelo qual passa a Europa, o mercado interno continental permanece um ativo muito atrativo e de alto valor no reposicionamento geopolítico da região.

Além do custo inviável de energia e da demanda continental em recesso, pesa na desindustrialização do setor químico/petroquímico da Europa a severa legislação ambiental. Em contrapartida, grandes bancos europeus continuam formando entre os principais financiadores da crescente exploração mundial de petróleo, principal fonte fóssil de energia e vilã ambiental. Como enxerga este paradoxo?

A transição das economias para o baixo carbono deve ser vista como um processo e não apenas como um fim em si próprio. Na jornada pela habilitação de novas fontes energéticas sustentáveis, de insumos renováveis e da economia circular, a base tradicional já instalada exerce um papel fundamental tanto como parque industrial com capacidade disponível hoje, quanto por ser agente estratégico na condição de investidor direto nesses movimentos de novas produções e das tecnologias que as viabilizem.

A guerra comercial deflagrada por Trump desmantelou o livre comércio mundial. Com base nisso, acha que o fechamento do mercado europeu seria a única tábua de salvação para conter a desindustrialização do seu setor químico/petroquímico, mesmo que à custa do consequente encarecimento dos manufaturados locais?

Cabe, de saída, esclarecer que a correta aplicação de medidas de defesa comercial e de combate a operações predatórias não representa uma plataforma de fechamento de mercado. Ao contrário, viabiliza um ambiente de negócios favorável à realização de ainda mais operações entre parceiros estratégicos e em condições leais de comércio.

Muito embora sejam materiais de vital importância e utilizados à larga devido ao baixo custo e multifuncionalidades, sendo insumos que alimentam cadeias industriais longas e ainda distantes do ponto direto de consumo, os produtos químicos – em particular, as resinas termoplásticas –, não possuem impacto significativo no custo dos produtos finais, incluídos os setores de alimentos (cesta básica) e de bebidas.

A alternativa do protecionismo na Europa poderia livrar sua vulnerável indústria química/petroquímica de investir na modernização e expansão em tempos de rentabilidade corroída pelo excedente global no setor?

Além de atuar na direção de medidas específicas para a correção de distorções comerciais, a resposta da Comissão Europeia, ainda que tardia, ao crítico cenário produtivo da sua indústria química se materializa com o denominado Chemical Industry Action Plan, lançado em julho último. Trata-se de um programa que visa reforçar a competitividade, a resiliência e a modernização do setor, focando na acessibilidade da energia, descarbonização, inovação e um ambiente regulatório simplificado, buscando reverter a desindustrialização, fortalecer a soberania estratégica da União Europeia e reposicionar seu setor químico como líder global na evolução, sustentabilidade e resiliência.

Reza o consenso no setor sobre a necessidade de racionalizar a capacidade instalada para diminuir as perdas financeiras causadas pelo excedente global de químicos/petroquímicos. Fora a Europa, quais locais/regiões do planeta tendem a aderir com vigor a ações de fechamento de plantas não competitivas?

No acumulado entre 2023 e 2024, China e Rússia tiveram crescimentos de seus PIBs setoriais na química, respectivamente, de 19,57% e 8,56%. Por sua vez, economias sólidas e maduras como Japão, Coreia do Sul e UE tiveram fortes quedas (entre 9,31% e 6,67%).

E como enxerga o Brasil nesse cenário?

No Brasil, o PIB do setor químico diminuiu 6,26% em 2024 perante 2023. Os recentes anúncios de escalada das tensões comerciais entre EUA e China, somados ao prolongamento do ciclo de baixa da indústria química (particularmente a petroquímica) em nível global, colocam ainda mais pressão sobre o setor químico brasileiro. Ele já opera nos mais baixos níveis históricos de utilização da capacidade instalada, com uma ociosidade de praticamente 40% do parque industrial doméstico, enquanto as importações ocupam quase 50% do consumo nacional.

Nesse cenário, a superação desse momento crítico é possível somente com medidas sólidas de defesa comercial e de combate ao comércio predatório, com foco na retomada sustentável da capacidade instalada e de estímulos aos investimentos. A indústria química nacional possui plenas condições de abastecer o mercado interno com produto doméstico, gerando renda e divisas para o Brasil.

Compartilhe esta notícia:

Deixe um comentário