“Aparentemente, a tempestade de 2025 não passou”, suspirou em janeiro um reciclador diante da chuva de notícias sobre o fechamento de plantas de seu setor na Europa e EUA. O principal suspeito de sempre dessas fábricas desligadas é a superoferta recorde de resinas virgens a preços muito abaixo das versões recuperadas. O cenário tem outras explicações adjacentes, como o custo abusivo de energia e demanda esfriada inviabilizando a reciclagem na Europa, ou então, a insuficiente coleta de resíduos e a falta de leis federais nos EUA sobre a inclusão de reciclado na composição de produtos transformados. Até o fechamento desta edição, o Brasil não registrava casos de unidades recicladoras que cerraram as portas em razão de rentabilidade colapsada pela abundância de polímeros novos em folha bem mais baratos.
Mas sinais de fumaça começam a ser emitidos. Foi o caso da confirmada parada de manutenção, de fevereiro a março, das três plantas de reciclagem de PET da Valgroup, totalizando capacidade da ordem de 92.000 t/a, conforme noticiado em 26/1 no site Icis. As justificativas para a interrupção, repassadas pela mesma fonte, incluem a procura atenuada pelo poliéster reciclado e falta de preços competitivos face ao polímero virgem cada vez mais acessível. Foi informado também que a Valgroup dispõe de estoque suficiente para atender o mercado durante a paralisação. O estoque alto, aliás, implica capacidade recicladora ociosa devido ao espaço surrupiado pelo abundante PET novinho. Na mesma trilha, a Indorama, maior produtora de PET virgem (550.000 t/a) no país, comunicou a Plásticos em Revista que sua planta local (MG) recicladora de 25.000 t/a de poliéster grau alimentício está temporariamente desativada “em função das condições de mercado” e que as operações serão retomadas “assim que as condições de mercado permitirem”.
Está para nascer consultor que discorde da continuidade do excedente global de resinas. Liderado por investimentos nas capacidades dos EUA e China, este inchaço decorre do fim do último super ciclo mundial de investimentos petroquímicos (1992-2021) coincidindo com a economia mundial enfraquecida e insegura. Por essas e outras, desde então campeia a caça, pelos fornecedores de resinas chiando no prejuízo, a canais para escoar seus produtos em regiões de petroquímica não competitiva e/ou deficitária, a exemplo da América Latina com Brasil na proa.
Pois é nessas circunstâncias que entra em vigor no Brasil a lei sobre logística reversa de embalagens plásticas de uso doméstico. Ela determina o uso de teores de plástico reciclado pós-consumo (PCR) em produtos transformados. Acontece que, nos últimos anos, o barateamento da superofertada resina virgem tira cada vez mais mercado da reciclada. Tomam corpo, então, duas considerações. Uma delas refere-se a petroquímicas com braço na reciclagem. Seu negócio por vocação é a resina de primeiro uso, de modo que, se o preço dela mata a recuperada, a atividade secundária de reciclagem pode ser sustada ou fechada sem drama.
O segundo lance evoca um caso verídico. Questionado por consultor sobre sua conscientização ambiental, um transformador disse: “Eu visto a camisa verde, mas no meu peito está gravado a fogo EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização)”. Em suma, mesmo após décadas de catequese da sustentabilidade, no frigir dos ovos quem dita os negócios continua a ser o sacrossanto Dr. Bolso. Daí porque brand owners, que antes trombeteavam seu apreço pela economia circular, agora tiram de suas embalagens a resina reciclada em prol da virgem e não se fala mais nisso – até o preço mudar de novo.
Na pele dessa mudança de ares, coça uma incógnita: qual a possibilidade de as metas de uso de PCR, estipuladas pela lei da logística reversa de embalagens, ficarem no papel em razão das cotações atraentes da resina zero km? Essa hipótese ganha mais peso diante do mundaréu de empresas menores e pouco capitalizadas que predomina quantitativamente na reciclagem de plástico num país de notória insegurança jurídica. Já paira sobre os elos da cadeia recicladora a dúvida se vale mais a pena, mesmo sob risco de penalização, o retorno obtido com eventual uso exclusivo da resina virgem mais em conta do que seguir à risca os ditames da nova legislação a favor do custoso material reciclado. A ver em dezembro. •


