Proibido dormir no ponto

Fornecedores de materiais nobres se preparam para a retomada em ano eleitoral
Fornecedores de materiais nobres se preparam para a retomada em ano eleitoral

Selic a 15% é uma pá de cal nas compras a prazo, aplicáveis a bens duráveis como autos e eletroeletrônicos, irmanados por cordão umbilical aos plásticos de engenharia, categoria de polímeros dominada no Brasil por importações e, por tabela, à mercê do vaivém no câmbio, comércio e geopolítica mundiais. O recesso da demanda pega fundo nas carteiras de pedidos dos fornecedores de materiais nobres. Mas, mesmo assim, calejados pela habitual montanha-russa da economia doméstica, eles em geral se aferram à máxima de que nada é para sempre, de modo que fases de giro em baixa são aproveitadas para lapidar as qualificações que lhes permitirão surfar na retomada anisada e já pressentida, a bordo da efêmera demanda prevista para ser animada pelo governo, mesmo atolado em mega dívida pública, no ano eleitoral de 2026. Na entrevista a seguir essa demonstração de perseverança é compartilhada por Rodrigo Lozano, gerente técnico-comercial da CPE; João Rodrigues, diretor da Thathi Polímeros; Luciano Nunes Rolla, diretor da Flamel Polímeros; Gustavo Nascimento, diretor de marketing da Krisoll e Laercio Gonçalves, CEO do Grupo activas.

“O fechamento da economia dos EUA tende a intensificar a concorrência internacional em mercados secundários como o Brasil”

Rodrigo Lozano, CPE

Rodrigo Lozano, CPE

Como a inflação descontrolada, juros abusivos, câmbio volátil, crédito escasso e inadimplência empresarial estão afetando este ano suas vendas de plásticos de engenharia?

Rodrigo Lozano: De fato, empreender num ambiente marcado por inflação instável, juros elevados, volatilidade cambial, escassez de crédito e aumento da inadimplência empresarial nunca foi tarefa simples – e o cenário atual apenas reafirma esse histórico desafio. No entanto, observamos com certo alívio que os principais setores consumidores de plásticos de engenharia – como automotivo, eletroeletrônicos e linha branca – têm mantido níveis de atividade razoavelmente sustentados.
Apesar de serem segmentos tradicionalmente sensíveis ao crédito ao consumidor, eles vêm se beneficiando de uma combinação favorável de fatores: renda real preservada, taxa de desemprego baixa e massa salarial ainda robusta.
No início do ano, havia a percepção de que os desequilíbrios de 2024 cobrariam sua fatura em 2025. Mas, até o momento, a resiliência da economia brasileira – característica que já se provou em outros ciclos – tem prevalecido.
Diante desse contexto, cabe lembrar que a CPE é uma empresa 100% nacional, com sócios presentes e atuantes, construída com base em tecnologia própria e estrutura robusta, sem passivos financeiros. Ela já provou sua capacidade de adaptação em momentos críticos como a pandemia. Por isso, seguimos prontos para qualquer cenário e, em linha com essa disposição, otimizamos processos, diversificamos mercados e fortalecemos a estrutura para mitigar riscos e preservar a capacidade de entrega, mesmo sob a atual instabilidade.

João Rodrigues: A maioria dos plásticos de engenharia fornecidos pela minha empresa (PA6, PA6.6, PPA, POM, PBT e PBT+PET) é importada e com preços dolarizados. As fortes oscilações cambiais criam bastante complexidade na gestão dessas importações. Nosso desempenho depende muito do esforço empreendido com os materiais que importamos, produzimos (nota: beneficiamento de resinas) e homologamos na indústria, inclusa a marca Technyl (nota: da belga Domo Chemicals) de poliamidas, multiplicadora de negócios por suas características técnicas e competitividade.
Determinados polímeros tiveram redução nos preços internacionais, provocadas inclusive pela baixa demanda europeia e asiática. Tudo isso gera um contexto que exige muita atenção na precificação e gestão dos estoques. Inadimplências em nossa carteira são baixas e pontuais. A Thathi conta com importantes linhas de crédito no exterior para oferecer e aposta na liquidez do seu painel de clientes.
Alguns setores da indústria tiveram este ano desempenhos mais modestos e outros apresentaram resultados positivos. Na média, ainda não é possível aquilatar 2024 versus 2025 pois resta ainda mais de meio ano para uma comparação precisa.

Luciano Nunes Rolla: O cenário de inflação acima da meta estabelecida pelo Banco Central, de juros elevados por um longo período, de volatilidade cambial, de crédito escasso e de crescente inadimplência afeta diretamente a dinâmica da economia como um todo. No mercado em que atuamos, o de plásticos de engenharia, não poderia ser diferente.
Nesse contexto, há oscilação maior nos preços das matérias-primas derivadas do petróleo – sobem e descem de forma abrupta numa economia instável. Essa volatilidade dificulta o planejamento dos custos unitários, a manutenção das margens de contribuição e o estabelecimento de preços de venda competitivos.
Além disso, crises e juros altos desestimulam novos projetos, afetando setores consumidores de plásticos técnicos, como o automotivo, o eletrônico e o agronegócio. Uma demanda reduzida significa menos compra de peças técnicas, como componentes de motores, sensores, conectores e estruturas.
Os juros elevados também encarecem financiamentos essenciais para expansão, manutenção de máquinas de injeção/extrusão e formação de estoques de resina. Com o crédito restrito, as empresas passam a depender do capital próprio, comprometendo reservas e limitando a flexibilidade frente à demanda.
Apesar dos desafios, o cenário para o restante de 2025 apresenta perspectivas positivas para a economia brasileira, impulsionadas em especial pelo desempenho excepcional do agronegócio e sinais de fortalecimento da confiança interna e externa.
O setor agrícola foi o grande destaque do primeiro trimestre, com crescimento de 12,2% em relação ao trimestre anterior, impulsionado pela safra recorde de soja. A produtividade no campo sugere que o PIB poderá superar os 3,4% de crescimento registrados em 2024, ultrapassando a previsão oficial de 2,4%. As exportações agrícolas seguem firmes, com destaque para soja, café, carne e milho, o que reforça o saldo comercial e protege a economia de choques externos. As tensões comerciais entre EUA e China também beneficiam o Brasil, pois amplia sua participação no mercado chinês.

Gustavo Nascimento: As condições da atual conjuntura citadas na pergunta afetam o mercado como um todo – em ambos os extremos, da cadeia produtiva até o consumidor final. O quadro fica ainda mais turbulento quando o fator da incerteza se faz tão presente. Com certeza, o ano de 2025 tem sido um momento de desafios e cautela.
Com um mercado que já dá fortes sinais de recessão de maneira geral, e uma espera de queda no dólar, a demanda dos plásticos de engenharia tem se manifestado a conta-gotas.

Laercio Gonçalves: 2025 tem sido mais desafiador que 2024 para o setor de plásticos de engenharia. A inflação, os juros elevados, o câmbio volátil e a escassez de crédito pressionam os custos e reduzem o apetite de compra dos clientes, mais cautelosos e estendendo os ciclos de decisão. Além disso, o aumento da inadimplência reforça a necessidade de gestão mais próxima e criteriosa do crédito.
Somado a isso tudo, presenciamos uma super-oferta global de resinas, em particular da China, pressionando os preços internacionais e agravando a instabilidade vigente no mercado brasileiro. Nosso setor plástico, infelizmente, segue sem políticas públicas de incentivo à modernização industrial, o que amplia sua vulnerabilidade frente à concorrência externa.

“Alguns polímeros tiveram redução nos preços internacionais, provocadas inclusive pela baixa demanda europeia e asiática”

João Rodrigues, Thathi Polímeros

João Rodrigues, Thathi Polímeros

Quais as inovações deste ano no seu mostruário e atividades relacionadas ao setor de plásticos de engenharia?

Rodrigo Lozano: Concentramos este ano os esforços em ampliar e aprimorar nosso portfólio de plásticos nobres com foco em sustentabilidade, desempenho técnico e atendimento ao cliente. Na frente dos materiais, destacamos o lançamento de compostos de polipropileno (PP) com conteúdo reciclado, tanto de origem pós-consumo quanto de aparas, voltados a aplicações técnicas exigentes. Também introduzimos formulações de PP com fibras naturais, como casca de arroz e filamentos de madeira, destinadas a peças automotivas e produtos da linha pet (animais de estimação), combinando leveza, estética diferenciada e menor impacto ambiental.
Outro avanço importante: o desenvolvimento de compostos de PP com até 50% de fibra de vidro, voltados à substituição de peças metálicas, e de poliamidas (PAs) com este mesmo tipo de reforço, proporcionando alta eficiência e redução da densidade – feito dos ganhos em leveza – sem comprometer a resistência mecânica. No âmbito das metas ambientais, nossa estratégia de P&D está orientada à redução de emissões de carbono, com o compromisso de alcançar uma redução de 90% dessas liberações até 2030 e a neutralidade completa até 2050, seja por meio da matéria-prima, do processo produtivo ou da cadeia logística.
Além dessas inovações, investimos este ano na modernização e expansão da planta da CPE, mediante a aquisição de duas extrusoras de última geração, ampliando assim em 35% nossa capacidade produtiva. Também incorporamos equipamentos laboratoriais avançados, fortalecendo nossa competitividade frente às multinacionais do setor instaladas no Brasil. Reitero que, em termos específicos de domínio tecnológico, a CPE desenvolveu autonomia completa: hoje, 100% de nossa pesquisa é local, retivemos talentos, métodos e disciplina de análise que rivalizam com qualquer centro internacional. Além da equiparação técnica, demonstramos notável preferência pelo conteúdo nacional e preservamos a praxe de reinvestir integralmente os nossos lucros.

João Rodrigues: Como sempre, os avanços ocorrem mais através de novos usos do que pelo aparecimento de uma nova formulação, pois cada solução desenvolvida atrai outras aplicações. Do seu lado, a Thathi está preparada para os desafios que surgem com frequência de maneira natural e sua estrutura voltada ao atendimento do mercado está bem dimensionada, inclusos logística e assistência pós-venda.

Luciano Nunes Rolla: A Flamel Polímeros está completando 12 anos na distribuição de resinas e, entre os passos dados para fortalecer sua atuação, recebeu recentemente o selo de agente oficial exclusivos da chinesa Juheshun para poliamidas (PAs) de alta viscosidade, além de ampliar sua participação na revenda dos grades de baixa viscosidade da mesma fornecedora. Nessa mesma trilha, lançamos a linha de compostos FLAMID. Por sua vez, para oferecer um atendimento ainda mais qualificado, reestruturamos nossas equipes e em duas gerências especializadas: uma delas dedicada a PA, compostos e PC e a outra a ABS, PS e POM.

Gustavo Nascimento: Há bom tempo a Krisoll pratica, como política de crescimento, a diversificação de portfólio de distribuição. Temos focado em trazer materiais para aplicações especiais, como aditivos para demandas especificas de embalagens flexíveis ou até mesmo matérias-primas com maior valor agregado, como PETG ou PA amorfa. No tocante à nossa planta de beneficiamento, aumentamos a a capacidade de compostos de poliamida e investimos em novas tecnologias e certificações, a exemplo da norma IATF (nota: credenciamento relativo à gestão de qualidade para indústria automotiva) e temos buscado ampliar a gama de soluções contendo materiais reciclados. Apesar do mercado frio este ano, fizemos contratações para departamentos como o fabril e comercial para acelerar processos internos e externos e investimos em treinamentos e ferramentas de gestão para nos prepararmos para a retomada.

Laercio Gonçalves: Reestruturamos este ano a coordenação da equipe técnica e comercial dedicada aos plásticos de engenharia. O objetivo é fortalecer o atendimento consultivo, suporte técnico e estreitar a proximidade dos clientes. Ainda em relação à prestação de serviços para todos os segmentos, sejam materiais commodities ou nobres, estamos lançando a solução financeira digital Grupo activas pay, plataforma que oferece aprovação imediata e menos burocratizada de crédito, sem necessidade de documentação física, atendendo em especial empresas atrás de alternativas mais ágeis para fechar negócios e que não se enquadram na política de crédito tradicional. A análise de crédito é baseada no perfil de risco e capacidade de pagamento do cliente, com possibilidade de revisão do limite após 30 dias, conforme o histórico de compras, e total integração com as áreas de faturamento, comercial e atendimento do Grupo activas. Constitui uma via para o transformador manter a produção em momentos de restrição de capital de giro e sem comprometer o fluxo de caixa.

“Plásticos de engenharia da China já competem de igual para igual com os consagrados insumos europeus”

Luciano Nunes Rolla, Flamel Polímeros

Luciano Nunes Rolla, Flamel Polímeros

Como avalia o impacto da guerra tarifária iniciada por Trump em 2/4 sobre os preços e disponibilidade dos plásticos de engenharia importados por sua empresa?

Rodrigo Lozano: Tem sido desafiador estimar com precisão os efeitos da nova escalada tarifária iniciada em abril por Trump, em especial porque o cenário global vem mudando semana a semana. Trata-se de uma dinâmica complexa, com múltiplas interdependências, cujos impactos devem ser sentidos de forma assimétrica e em diferentes horizontes de tempo.
De forma geral, identificamos duas forças opostas de atuação simultânea. De um lado, o fechamento do mercado americano e as retaliações subsequentes de outros blocos podem representar uma oportunidade para players brasileiros competitivos, à medida que certos fluxos globais se reorganizam e abrem espaços para novas origens de fornecimento. Do outro, este mesmo fechamento tende a reduzir o tamanho do mercado global acessível, intensificando a concorrência internacional em mercados secundários – Brasil incluso – e aumentando a pressão sobre margens e volumes.
No curto prazo, ainda não sentimos impactos relevantes nem em preços nem em disponibilidade de matérias-primas. No entanto, seguimos monitorando o tema com atenção, sobretudo quanto à possível reorientação de estoques asiáticos para mercados onde os EUA não estejam. Isso pode alterar preços e prazos de entrega.
Quanto ao repasse de preços, a CPE trabalha com estrutura de estoque e capital pensada para oferecer máxima previsibilidade ao cliente. Nossa operação é baseada em contratos de médio e longo prazo, que absorvem flutuações momentâneas sem gerar efeitos relevantes no curto prazo.

João Rodrigues: Não importamos resinas provenientes dos EUA, todas elas provêm da Europa e Ásia. Não fomos notificados pelas grandes empresas químicas que nos atendem no exterior sobre qualquer mudança vista como preocupante no primeiro momento. Ocorrendo qualquer movimento no cenário internacional que traga elevação nos custos de importação das resinas de engenharia, decerto teremos de enfrentar o desafio, como ocorreu em outras oportunidades, lembrando que qualquer mercado regido por materiais importados está à mercê dos custos da cadeia química, crédito, disponibilidade, frete marítimo e da política cambial. Nossos concorrentes estão sujeitos às mesmas regras.

Luciano Nunes Rolla: O mundo ainda enfrenta um cenário de grande incerteza diante da intensa guerra tarifária iniciada no novo mandato de Trump. Ainda não é possível mensurar completamente os impactos que um conflito comercial dessa magnitude pode causar aos negócios, mas é evidente que diversos efeitos indiretos afetarão nosso dia a dia. A cadeia global de suprimentos deve sofrer alterações significativas em sua dinâmica de preços, com tendência clara de priorização dos EUA a fornecedores domésticos. Isso pode forçar empresas brasileiras a redirecionar a produção para outros mercados onde os custos sejam mais competitivos.
Uma das consequências mais imediatas da guerra tarifária é o aumento da volatilidade cambial. Isso tende a pressionar os custos das resinas importadas e obrigar as indústrias a repassar aumentos de preços para proteger suas margens.
Embora os efeitos diretos das tarifas americanas sobre o setor de plásticos de engenharia brasileiro sejam limitados, os impactos indiretos – como a elevação dos custos dos insumos, a instabilidade cambial e a maior incerteza global – são bastante relevantes.
De outro lado, a conjuntura atual também abre oportunidades. Com concorrentes americanos enfrentando restrições e incertezas, o Brasil pode ganhar espaço em mercados alternativos como Europa, Ásia e América Latina. Além disso, o fortalecimento das relações comerciais com a China, a União Europeia e o Mercosul pode gerar demanda adicional por peças técnicas plásticas brasileiras.
Aproveitar essas oportunidades exigirá uma estratégia consistente de fortalecimento da cadeia de suprimentos, foco em exportação e negociações bem estruturadas para ampliar a presença em novos mercados.

Gustavo Nascimento: É inevitável que, cedo ou tarde, as consequências do conflito deflagrado nas tarifas por Trump avancem sobre as camadas de nossa cadeia produtiva. Temos que ficar atentos para que, com a queda da demanda americana, a oferta do continente asiático aumente muito e isso pode resultar em produtos importados no mercado brasileiro a preços abaixo da média praticada.
Existem condições além de preço que o mercado exige para selecionar a Krisoll como fonte de especialidades plásticas. Daí porque enfatizamos a busca de maior qualidade para nossos produtos, a garantia de abastecimento, suporte técnico e o desenvolvimento de projetos técnicos.

Laercio Gonçalves: A guerra tarifária iniciada pelos EUA sobre produtos chineses não favoreceu a indústria brasileira. Pelo contrário, temos observado um redirecionamento expressivo de volumes excedentes da China para mercados como o Brasil, o que intensifica a pressão por preços baixos e aumenta a concorrência com materiais muitas vezes de baixa qualidade, sem continuidade de fornecimento e assistência técnica adequada.
Enfrentamos o desafio de manter a competitividade num ambiente volátil, marcado por câmbio instável, custos logísticos elevados e oferta global excessiva. Para lidar com esses impactos, temos atuado com total transparência junto aos clientes, explicando os movimentos do mercado e buscando alternativas de fornecimento que garantam continuidade, qualidade e suporte técnico. Sempre que possível, estabelecemos acordos de médio e longo prazo que ajudam a mitigar variações bruscas e sustentar parcerias confiáveis.

A queda da demanda americana pode resultar no aumento de materiais asiáticos no Brasil a preços abaixo da média praticada”

Gustavo Nascimento, Krisoll

Gustavo Nascimento da Krisoll

Em contraste com o esfriamento do setor europeu, a quantidade expressiva de fornecedores asiáticos de plásticos de engenharia configura uma oportunidade de negócios para empresas brasileiras comercializarem e/ou beneficiarem materiais vindos desse continente?

Rodrigo Lozano: A crescente movimentação industrial em direção ao Sul Global aliada à expansão acelerada da capacidade produtiva na Ásia representa, ao mesmo tempo, uma ameaça estrutural e uma possível oportunidade para o setor brasileiro. De um lado, é inegável que esse avanço asiático pressiona forte a competitividade da indústria plástica brasileira, que segue enfrentando obstáculos crônicos: dependência do sistema Petrobras/Braskem, base produtiva concentrada em nafta convencional e custos logísticos e tributários elevados. Enquanto o mundo evolui tecnológica e energeticamente – explorando rotas mais econômicas como o etano americano obtido do gás natural –, o Brasil segue ancorado a uma matriz petroquímica mais onerosa e vulnerável.
No que diz respeito às matérias-primas, reconhecemos na CPE a existência de uma oportunidade – embora limitada – de integração com fornecedores asiáticos, especialmente para composições específicas. No entanto, o grau de exigência técnica dos nossos clientes e seus rigorosos processos de homologação tornam essa substituição pouco trivial. O fator preço, tomado em isolado, não é decisivo. Afinal, a aprovação de um material pode exigir ciclos de teste e validação durante mais de um ano. Por isso, não buscamos soluções imediatistas ou meramente oportunistas, mas sim parcerias estratégicas, com foco em confiabilidade, performance técnica e estabilidade de fornecimento. Estamos abertos a novos insumos, desde que alinhados às exigências regulatórias, à previsibilidade operacional e a nosso compromisso de longo prazo com os clientes.

João Rodrigues: Os fornecedores dos polímeros que trazemos da Ásia, notadamente da China, não devem mudar. Temos parcerias duradouras com empresas químicas chinesas que nos atendem há anos com excelente suporte técnico-comercial e qualidade, principalmente em relação a POM, PA6 e PBT.
Outras empresas da Ásia decerto nos procuram para firmar parcerias. Mas não cremos que abrir outras frentes seja estrategicamente adequado. Há muitos importadores que ofertam polímeros por oportunidade momentânea. Entretanto, poucas dessas empresas permanecem no setor e não contam com a experiência em gerar e produzir formulações, prestarr assistência ao cliente e manter o fornecimento. Vemos fraqueza nessas empresas que, eventualmente, venham a concorrer no mercado. Isso não é duradouro.

Luciano Nunes Rolla: A Flamel Polímeros consolida sua trajetória em parcerias com produtores asiáticos: aproximadamente 50% do atual volume comercial da empresa é sustentado por importações da China. Mais do que a quantidade, destaca-se a crescente qualidade dos produtos chineses que, em diversos segmentos, já competem de igual para igual com os consagrados insumos europeus.

Gustavo Nascimento: Existem oportunidades de negócios, mas temos que agir com cautela, principalmente no que se refere a preços. Nesse cenário, trabalhar com preços excessivamente baixos pode ser prejudicial como um todo, inclusive um ‘tiro no pé’. Numa conjuntura com viés de alta, corrigir o preço deprimido para cima tende a ser muito mais demorado. A dificuldade começa a aparecer quando deparamos com concorrência desleal por parte de ‘vendedores de oportunidade’, o que reforça a importância de se ter uma empresa estruturalmente estável.

Laercio Gonçalves: O cenário atual, marcado pela guerra tarifária entre EUA e China, tem gerado uma oferta excedente de resinas asiáticas, em particular de origem chinesa, redirecionadas para mercados como o Brasil. Esse movimento cria oportunidades para empresas daqui que têm estrutura e discernimento técnico para avaliar quais desses materiais realmente agregam valor.
Na activas, já atuamos fortemente com importações na linha de plásticos de engenharia e mantemos parcerias sólidas com fornecedores globais, com foco em continuidade, qualidade e suporte técnico. Nosso compromisso é preservar essas relações e, ao mesmo tempo, avaliar novos materiais capazes de complementar e enriquecer o portfólio, acentuando o diferencial da confiabilidade e padrão de atendimento da activas. Essa visão tem nos guiado em todas as decisões de expansão, inclusive na recente ampliação da estrutura logística em Minas Gerais, com o centro de distribuição instalado no município incentivado de Extrema, o que nos dá mais competitividade para operar com materiais importados.

“Enfrentamos o desafio de manter a competitividade num ambiente de câmbio instável, logística custosa e oferta global excessiva”

Laercio Gonçalves, Grupo activas

Laercio Gonçalves, Grupo activas

A China é sócia majoritária do megaporto de Chancay, na costa peruana. Com grandes vantagens logísticas e econômicas, ele deve escoar resinas e artefatos plásticos chineses na América Latina. Como vê a perspectiva de sua empresa concorrer aqui com plásticos de engenharia da China vindos do Peru?

Rodrigo Lozano: A entrada em operação do megaporto de Chancay, o primeiro sob controle majoritário chinês na América do Sul e parte da chamada Nova Rota da Seda, decerto deve facilitar o escoamento de manufaturados asiáticos – como resinas e artefatos plásticos – a custos ainda mais competitivos para mercados como o brasileiro.
No caso de grades commodities, de alto volume e baixo valor agregado, é inegável que haverá pressão adicional sobre a indústria nacional, já bastante afetada por entraves estruturais como carga tributária elevada, logística interna ineficiente e dependência de matérias-primas caras. Contudo, no segmento em que atuamos – plásticos de engenharia customizados –, essa ameaça é significativamente menor. Nosso produto não é apenas um material, mas uma solução técnica desenvolvida sob medida. Cada composto é ajustado a um processo específico, a um molde, a uma injetora, a um perfil termomecânico definido em conjunto com o cliente. Isso exige presença local, resposta rápida e assistência técnica próxima, frequentemente com suporte em menos de 24 horas. É justamente nesse nível de serviço e adaptação que está nossa vantagem competitiva.
A experiência mostra que, em caso de falha com um insumo importado e padronizado, não há tempo hábil nem estrutura logística que substitua o suporte imediato e direto que oferecemos. O cliente precisa de solução, não de justificativas – e isso não se resolve com contra-amostras a milhares de quilômetros.
Portanto, embora vejamos o movimento chinês como um alerta para o setor de transformação como um todo, não o encaramos como uma ameaça direta à nossa proposta de valor. Ao contrário, ele reforça a importância de nos diferenciarmos por especialização, agilidade e relacionamento contínuo com o cliente – fatores que fornecedores remotos, mesmo com ganhos logísticos, não conseguem replicar com a mesma eficácia.

João Rodrigues: Todas as nossas importações têm como destino portos no Brasil e portanto, oferecem boa logística aos centros consumidores. O translado interno é rápido e não afeta nossos compromissos com os prazos de atendimento nas programações que, com precisão, são colocadas em prática. Quanto ao porto no Peru, para ser considerado operacional para o Brasil, hoje depende do acesso para cá por hidrovia. Outro modal de frete demandaria altos recursos na carente infraestrutura e isso causaria transtornos em nossas operações.

Luciano Nunes Rolla: O porto de Chancay representa uma readequação logística e comercial com potencial impacto notável sobre o Brasil e a América do Sul como um todo. Há ameaças palpáveis à indústria manufatureira, aos fluxos de exportação e à autonomia estratégica. No entanto, há também oportunidades reais para a modernização e integração logística, se houver políticas públicas assertivas e investimentos coordenados.

Gustavo Nascimento: Cenários como o descrito na pergunta vêm e vão no mercado de resinas. Creio que a informação é a melhor ferramenta, pois há uma variedade muito grande de matérias-primas e produtos acabados. No caso de polímeros de engenharia e seus manufaturados, não vejo o mercado nacional apostando todas as fichas em importação direta; ainda há variáveis fiscais e logísticas a considerar, além do que nem todos os transformadores recorrem a importações diretas, tornando necessária a distribuição dos materiais para abastecer indústrias pequenas e médias.

Laercio Gonçalves: O megaporto de Chancay, operado pela China, está moldando uma nova dinâmica logística na América do Sul. Com sua maior eficiência, automação e menor custo, o escoamento de produtos chineses para a região será cada vez mais ágil. Para o Brasil, isso significa exposição ainda maior à concorrência direta de materiais chineses, como os plásticos de engenharia.
O risco é ver o Brasil se tornar um destino de dumping técnico e comercial, caso não haja estratégia para coexistir com essa competição. Nesse contexto, a resposta da activas tem sido fortalecer o suporte técnico, o relacionamento com o cliente e a oferta de valor agregado, um respaldo que o produto importado por um fornecedor local descomprometido dificilmente consegue replicar.

2026 será ano eleitoral no Brasil, com previsíveis facilidades de crédito e aumento de medidas assistencialistas. Isso tende a aquecer a procura por plásticos de engenharia, dominada por bens duráveis?

Rodrigo Lozano: Sim, este é o Brasil – um ano ‘normal’ quase sempre seguido por outro eleitoral. Já estamos acostumados com essa alternância de ciclos e nenhuma indústria que atue aqui pode se dar ao luxo de ignorar esse padrão. De fato, anos eleitorais no Brasil tendem a ser marcados por expansão do crédito, estímulos ao consumo e reforço em programas assistenciais, o que, aquece parte da demanda interna, em particular nos setores de bens duráveis e consumo financiado.
Plásticos de engenharia são majoritariamente aplicados em componentes automotivos e de eletroeletrônicos, inclusa linha branca Estão diretamente ligados à atividade industrial estimulada por esse ambiente de consumo ampliado. O aumento da oferta de crédito ao consumidor e o esforço de governos para manter a economia aquecida até as urnas tendem a impulsionar os volumes fabricados nesses setores – e, com isso, as nossas vendas.
De outro lado, sabemos que esse movimento não é isento de consequências: o empurrão no consumo em ano eleitoral quase sempre vem acompanhado de um ajuste nos períodos seguintes, quando os estímulos cessam e os desequilíbrios voltam à tona. É parte do ciclo.
Estamos, portanto, preparados para um aumento de demanda em 2026, com capacidade instalada suficiente para atender novos volumes, mas com atenção redobrada à gestão de estoques, crédito e margens – para garantir que a eventual bonança pontual seja aproveitada com responsabilidade e sustentabilidade no médio prazo.

João Rodrigues: Não será o crédito um pouco mais afrouxado para o consumo e programas sociais (se houverem) que alavancará nossos negócios. Temos dúvida sobre a capacidade dessa estratégia em assegurar o crescimento sustentável da produção nacional de bens duráveis e semiduráveis que consomem nossas resinas. Uma política industrial mais competitiva seria muito mais efetiva.

Luciano Nunes Rolla: Anos eleitorais historicamente trazem aquecimento econômico. O aumento de gastos e investimentos públicos gera maior circulação de moeda. No Brasil, há capacidade ociosa tanto de capital fixo quanto de mão de obra, o que permite que essa flexibilização fiscal e monetária estimule a economia sem necessariamente gerar pressões inflacionárias intensas. Além disso, o acesso ao crédito tende a melhorar nesse período, dinamizando diversos setores, em especial aqueles dependentes de componentes automotivos e peças técnicas para eletroeletrônicos. Com isso, a expectativa é que a demanda por materiais de engenharia, bem como por plásticos em geral, seja positivamente impactada.

Gustavo Nascimento: Num primeiro momento qualquer medida aquecedora da demanda parece muito bem-vinda, porém muita cautela se faz necessária. O Brasil já está extremamente sobrecarregado em suas contas públicas e, em contrapartida, os gastos do governo crescem em ano eleitoral e, para sustentá-los, é preciso ampliar a arrecadação. Desse descompasso resulta um clima de incertezas refletido nos aumentos dos juros, inflação e endividamento, um quadro com risco de levar a uma recessão ainda maior e alta na inadimplência. Isso já acontece e vemos uma tendência de queda no consumo de produtos não essenciais. Como já disse, a maior dificuldade é a incerteza”.

Laercio Gonçalves: Em regra, ano eleitoral marca por estímulos ao consumo e financiamento, o que pode beneficiar setores consumidores de plásticos de engenharia. Esperamos alguma retomada, em especial no segmento automotivo entre os bens duráveis, pois são sensíveis a crédito e à confiança do consumidor. Contudo, o impacto depende da previsibilidade e da estabilidade política. Mais importante que medidas pontuais é a sinalização de um ambiente favorável a investimentos produtivos. •

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