Nº1 em PET no mundo e nº1 nas Américas, a tailandesa Indorama e a mexicana Alpek SAB de CV deixaram em saia justa o status da reciclagem da resina como sinônimo da circularidade do plástico. Baqueadas pela demanda anêmica, preços do polímero recuperado acima do virgem e superoferta mamute do poliéster novo em folha, as duas petroquímicas evidenciaram em janeiro empenho em reduzir suas emblemáticas presenças na reciclagem de PET mundo afora, de modo a conter a queda em espiral das margens de lucro nos últimos anos.
Como noticiou em 23/1 o portal Plastics News, a Indorama vendeu 85% do controle da recicladora de PET tcheca UCY, ações compradas em 2022, para o sócio minoritário alemão Maximilian Josef Söllner. Em 2025, por sinal, vendeu a recicladora irlandesa do poliéster Wellman International à empresa OG World Ltd.
Por sua vez, a Alpek, de acordo com artigo postado em 17/1 no site Chemical News, verberou a decisão de fechar em março sua unidade de reciclagem e peletização em Reading, no estado americano da Pensilvânia. Adquirido por US$ 80 milhões no pandêmico 2020, este ativo engloba capacidades de 115.000 t/a de flakes (obtidos de garrafas) e 49.000 de pellets (obtidos de flakes). Ainda nos EUA, a Alpek encerrou em setembro passado as atividades da recicladora californiana de PET rPlanet Earth, na ativa desde 2018 e com instalações orçadas em US$ 100 milhões, segundo assinala matéria em 21/1 no site Plastics News. No cercado do poliéster virgem, a propósito, a Alpek desligou em 2023 sua fábrica de apenas 170.000 t/a em Charleston, na Carolina do Sul.
Fechar a torneira

“É aceitável manter um negócio secundário em deficiência financeira quando o ganha-pão principal vai bem”, pondera Irineu Barbosa Junior, CEO da Cirklo, maior recicladora de PET grau alimentício do Brasil. “Mas quando a atividade principal também passa por um momento de ajuste e a secundária não tem perspectivas de melhora a curto prazo, o mais responsável e razoável a fazer é fechar a torneira mesmo”. Para o dirigente, a vida também não anda fácil para as demais petroquímicas focadas em PET. “Mesmo entre as asiáticas, em especial chinesas, as margens do negócio de PET estão baixas, quando não negativas”, ele nota. “Uma vez que essas empresas não dependem da comercialização do reciclado para pagar contas, o correto é parar mesmo e voltar quando o mar estiver para peixe”.
Mesmo após décadas de catequese ambientalista, a reciclagem de PET nos EUA até hoje não correspondeu às expectativas. “São ventos que sopram ora pra lá, ora pra cá”, conjetura Barbosa. “Já vimos nos EUA muitos casos de sucesso e investimentos enormes em unidades de reciclagem e sistemas de triagem automatizados, cenário hoje substituído por empresas sofrendo para entregar fardos de garrafas PET quase sem preço às recicladoras”.
Os EUA se esquivaram, até hoje, de instituir regulação de abrangência nacional determinando teores de plástico pós-consumo reciclado (PCR), como PET, na composição de embalagens em linha com a circularidade. A pedido de Irineu Barbosa Junior, o engenheiro americano Karel Wendl, da empresa WEKA Plastics Recycling Consulting, esclarece o cenário. “Nos EUA, leis desse tipo, como as normas de coleta de resíduos e de uso obrigatório de teores de PCR, vigoram em nível estadual e não federal”, explica o consultor. “E o governo atual não é receptivo a esse tipo de legislação. Na realidade, fundos oficiais de apoio à indústria recicladora de plásticos foram cancelados no início deste segundo mandato de Trump. Seu governo dá pleno apoio às petroquímicas”.
Canto da sereia
O desinteresse mundial em vigor pelo poliéster reciclado é fruto do canto da sereia das petroquímicas para intensificar, entoando preços baixos, a procura pela superofertada resina virgem, julga Barbosa. “O preço dela caiu de modo contínuo durante 2025, tal como os custos dos fretes internacionais. Os grades recuperados reagiram barateando mês a mês e a ponto de, em alguns momentos, se observar uma diferença de 40% a favor da versão reciclada”. O CEO da Cirklo nota ainda ser necessário incluir na análise da situação o que ele chama de desequilíbrios locais. “Enquanto há quem suspenda investimentos, outros vão na contramão, a exemplo da Indorama anunciando mais recursos para reciclar PET na Índia”.
No Brasil, encaixa o porta-voz da Cirklo, as barreiras tarifárias e a importação vetada de resíduos plásticos protegeram pontualmente a cadeia da reciclagem. “Infelizmente, essas ferramentas foram eficientes por curto prazo”, constata Barbosa.
Seja como for, ele amarra as pontas, as embalagens plásticas não podem aceitar a conotação de poluentes. “Aqui entra a obrigação do governo de regulamentar o mercado e impor regras em favor do desenvolvimento sustentável e isonomia entre competidores”, defende o reciclador. “Os ambientalistas podem dar visibilidade ao problema, mas quem realmente decide é o pessoal que tem as canetas nas mãos”.


