Poliestireno (PS) e seu tipo expansível (EPS) detêm a lanterna no ranking da reciclagem de resinas commodities. Os volumes inexpressivos de recuperação desses resíduos são explicados, em regra, pelo baixo valor pago na coleta por suas embalagens e descartáveis e pelo fato de a reciclagem mecânica de estirênicos ser incompatível se combinada com outros polímeros. Daí a ojeriza ambientalista despertada pelos dois materiais em redutos como serviços de delivery. Formadora de opinião na tecnologia mundial de extrusão, filtração e reprocessamento de termoplásticos, a alemã Gneuss tem a chave para PS e EPS desabrocharem na economia circular. Trata-se do acessível processo OMNI de reciclagem mecânica com grau alimentício, de excelência avalizada nos EUA pela agência Food and Drugs Administration (FDA) e, com as devidas certificações dos órgãos da saúde pública, já na ativa no Equador, a cargo das transformadoras Plastlit, e Carvajal, na Colômbia. Nesta entrevista, Andres Grunewald, diretor da Gneuss Latinoamericana, detalha o impacto causado pelas duas operações na América Latina e sublinha os diferenciais dessa tecnologia avançada e alinhada com a realidade do setor plástico no Brasil.
Em quanto tempo a Plastlit obteve aprovação do governo equatoriano para o uso, em embalagens de alimentos do reciclado de EPS pós-consumo (EPS-PCR) gerado pelo sistema de reciclagem Omni da Gneuss?
A empresa tem permissão para fornecer embalagens contendo EPS-PCR no Equador desde 2024. Ela decidiu manter em 18% o teor de reciclado no blend com EPS virgem porque este índice corresponde ao conteúdo de expandido exigido por lei, proporção crescente desde a sua implantação em 2022. A elevação desse percentual depende basicamente da capacidade de coleta, pois a tecnologia OMNI permite o uso de até 100%, com base nos bem sucedidos ensaios realizados na Alemanha pelo Instituto Fraunhofer. Esses resultados, por sinal, motivaram a agência americana FDA a emitir cartas de não objeção ao uso do reciclado assim obtido em embalagens de alimentos.
“O consumo de PS/EPS reciclado realmente aumenta conforme os países exijam a incorporação de teores desses materiais”
Andres Grunewald, Gneuss
A reciclagem de embalagens e descartáveis de PS é penalizada pelo baixo índice de coleta, pouco valor comercial, triagem trabalhosa de resíduos e processamento complexo e incompatível em mistura com outras resinas. Como a Gneuss encara estes entraves para comercializar o sistema OMNI para reciclar o polímero estirênico com grau alimentício?
Tudo é determinado pelas exigências e leis locais. No caso do Equador, uma vez homologada a lei de obrigatoriedade de uso de PCR, criou-se um novo patamar de custo de fabricação das embalagens alimentícias, exatamente em função da relação com o custo da resina. Contudo, isso não é relevante, pois as variações são comuns a todo o mercado. Não existe mais a concorrência entre resina virgem e reciclada notada no Brasil. Tratam-se de dois componentes de uma receita na qual a única variável é o conteúdo de reciclado a partir de um percentual mínimo estabelecido por lei. É razoável que, em função dos custos de transformação e de leis de mercado, o material reciclado possa até ficar mais caro que a resina virgem, o que não é um problema. No Brasil, a extensão do decreto de logística reversa de embalagens plásticas, promulgado em outubro último, abrange embalagens alimentícias. Já há vários movimentos nesse sentido.
Tecnologia OMNI: reciclagem viabiliza uso em embalagens de alimentos de até 100% de resíduos de PS/EPS.
Por quais motivos até o momento não há, além da Plastlit, outros recicladores no mundo dedicados à recuperação de EPS ou PS grau alimentício?
Até deve haver, mundialmente, outros recicladores processando PS grau alimentício. Na América Latina, apenas dois casos são de meu conhecimento: a Plastlit e a Carvajal na Colômbia. Ela produz e tem certificação local do Invima (Instituto Nacional de Vigilancia de Medicamentos y Alimentos), para fabricação de embalagens de iogurte em PS com conteúdo de PCR. O baixo interesse pelo uso de PCR ocorre em função do custo de reciclagem e da falta de obrigatoriedade. Dessa forma, impera apenas a decisão de uso ou não de reciclado em função do seu valor. Eu adicionaria ainda uma pitada de falta de empreendedorismo.
O habitualmente baixo volume de PS coletado e reciclado explicaria o desinteresse de recicladores, transformadores e/ou brand owners de solicitarem a governos aprovação para o uso de PS/EPS recuperado grau alimentício pelo sistema da Gneuss?
A aprovação do uso do reciclado pelas autoridades de saúde pública é o primeiro passo, a exemplo de vários países sul-americanos onde isso já é permitido. Pelo menos, daria ao transformador a opção de usar o material reciclado. O consumo realmente aumenta conforme os países exijam a incorporação de teores de PCR.
Linha OMNI completa: reciclagem mecânica com grau alimentício avalizada pela agência regulatória norte-americana FDA.
Se entidades da Colômbia e EUA aprovaram a tecnologia, por que Gneuss não comercializou o equipamento Omni nesses países?
Já temos equipamentos em operação na Colômbia processando PCR para termoformados destinados a laticínios. Contudo, naquele país não existe a obrigatoriedade e, por isso, o uso do reciclado está ancorado em iniciativas isoladas de algumas marcas com visão ambiental. Por sua vez, os EUA, pelo grande consumo, tomaram a decisão de ingressar neste segmento com plantas de reciclagem química para PS/EPS PCR. Por sinal, unidades desse tipo fecharam, recentemente, no país. Sem a obrigatoriedade de uso do reciclado, dificilmente haverá interesse por essa tecnologia em qualquer país.


