Foi bom enquanto durou, mas não têm volta as condições que pavimentaram, entre 1992 e 2021, o último ciclo mundial de investimentos na petroquímica. A tranca na porta é o maior excedente de resinas commodities já visto, fruto, em especial, de uma percepção dos investidores tão generalizada quanto errada: a de que a China cresceria para sempre dois dígitos anuais, convicção tragada quatro anos atrás pela explosão do colapso imobiliário e contas públicas. Antes disso, pouca gente achava que proliferariam na China tantas novas capacidades de termoplásticos, uma posição apoiada na pureza de projeções de custo/benefício em meio à sobra global de materiais, sem considerar a pressão das metas sociais e políticas impostas por Pequim, caso da obsessão pela autossuficiência industrial do país.
Com a rentabilidade indo a pique pela hiper oferta de resinas, a guerra comercial instaurada por Trump mundo afora apenas fortalece as expectativas de aceleração de fechamento de plantas não competitivas e de associações e aquisições de players. No consenso dos olheiros do jogo, petroquímicas de resinas commodities caminham para ser agregadas a petroleiras ou a concorrentes maiores com acesso a matérias-primas (gás natural e etano) conseguidas na bacia das almas. Petroquímicas de baixa escala e fora dessa moldura serão forçadas pelas circunstâncias a buscar sobrevida em especialidades.
O embaralhamento do excedente de resinas com consumo desaquecido, restrições ambientais e custos proibitivos, como os de energia e trabalhistas, estão desindustrializando a Europa. Fala por si sua petroquímica, repleta de renomados pesquisadores licenciadores de processos. Hoje em dia, o continente é líder mundial em quantidade e frequência de fábricas desligadas por tecnologia e escalas defasadas, matéria-prima cara (nafta) e margens emasculadas pelos gastos na produção e vendas ladeira abaixo. Por causa disso tudo, aliás, a edição deste ano da feira alemã K (8 -15/10 em Düsseldorf), a maior do plástico mundial, tende a passar de tradicional celebração do zênite científico do setor para um muro das lamentações europeias pelos seus seguidos balanços deficitários e fechamento de plantas e postos de trabalho.
A desindustrialização na Europa tem pontos em comum com a petroquímica no Brasil. Também por aqui dominam as importações crescentes de resinas-chave (poliolefinas e PVC, p.ex.) versus fábricas locais antigas, de menor porte e economia energética e adeptas da rota mais cara da nafta. Mas há uma diferença-chave: todas as centrais petroquímicas no país pertencem a uma única companhia. Até o fechamento desta edição não foi noticiado o nome do futuro controlador da Braskem. Seja ele quem for, terá uma parada duríssima pela frente, pois revitalizar esta estrutura petroquímica implica medidas de ajuste que vão bem além da aventada substituição da nafta pela rota do gás natural, a ponto de, segundo analistas, o montante requerido equivaler até ao da montagem de um complexo produtivo zero bala. Noves-fora, um investimento temerário num horizonte de retorno ameaçado pelo excedente global de resinas e num país que as importa cada vez mais e nunca figurou entre os formadores de preços internacionais, condição-chave para a sobrevida em commodities como termoplásticos. •


