O duelo entre preço e meio ambiente

Balanço de 2024 evidencia perda de competividade do plástico reciclado pós-consumo (PCR) diante da resina virgem
Balanço de 2024 evidencia perda de competividade do plástico reciclado pós-consumo (PCR) diante da resina virgem
Varredura a fundo da consultoria MaxiQuim para o Movimento Plástico Transforma constata avanço de leve em 2024, embora persistente, da indústria recicladora de plástico no país. Em grande parte, essa moderação na performance decorre do preço competitivo da super ofertada global de resina virgem, além do peso de ossos estruturais duros de roer, como o insatisfatório suprimento regular de matéria-prima aceitável para a reciclagem mecânica. Direto ao ponto: na garupa de capacidade instalada de 2.429 milhões de t/a em 2024, a indústria brasileira recicladora de plástico produziu 1.505 milhão de toneladas de resinas pós-consumo (939.000 t em 2023) e 339.000 de aparas (325.000 t em 2023), desnudando um vácuo crítico de ocupação no ano passado e, na voz corrente na praça, sem perspectivas de melhora substantiva no exercício corrente e em 2026. Nesta entrevista, Maurício Jaroski, diretor executivo da MaxiQuim disseca as entrelinhas da nova edição desse relatório anual.

O relatório registra 656 recicladoras no Brasil em 2024, somando capacidade instalada de 2.429 milhões de t/a e produção de 1.012.265 toneladas no ano passado. Os EUA produzem cerca de cinco vezes mais PCR que o Brasil com uma quantidade de recicladoras 75% menor. Qual a explicação para esta discrepância?

O mercado de plásticos nos EUA é cerca de oito vezes maior que o brasileiro. Portanto, é natural que recicle volumes muito superiores. Além disso, a forma como a reciclagem se estruturou nos dois países explica a diferença: no Brasil, ela nasceu de iniciativas sociais e comunitárias, com micro e pequenas empresas familiares que processavam material coletado por catadores e cooperativas. Já nos EUA, a reciclagem surgiu como um grande negócio industrial, voltado a dar destino a enormes volumes antes dirigidos a aterros ou incineração. Nos EUA, a lógica relativa à indústria de reciclagem sempre foi pautada por plantas de grande porte, altamente mecanizadas e integradas, capazes de processar centenas de milhares de toneladas. No Brasil, ainda predomina a pulverização: muitas empresas pequenas e médias com baixa escala, o que reduz a eficiência agregada. Em resumo: menos players nos EUA, mas com operações gigantes, versus muitos players no Brasil, mas com capacidades limitadas.

“Nos últimos anos, houve forte expansão da capacidade, mas a demanda de PCR e a oferta de sucata não cresceram na mesma velocidade”

Maurício Jaroski, MaxiQuim

Maurício Jaroski, MaxiQuim

Com base no período de 2024, como avalia o impacto econômico sobre a indústria recicladora causado pela lacuna acima de 50% entre a capacidade instalada e a produção de PCR?

A ociosidade da indústria de reciclagem de plástico no Brasil não é novidade. Historicamente, ela sempre operou com capacidade subutilizada, reflexo da fragmentação decorrente de um universo de muitas pequenas indústrias. O que se intensificou nos últimos anos foi um certo descompasso: houve forte expansão da capacidade instalada, fruto de novos investimentos, mas a demanda de PCR e a oferta de sucata não cresceram na mesma velocidade. Isso gera pressão sobre a rentabilidade das empresas, porque custos fixos são diluídos em volumes menores. A consequência é um setor que tem potencial de crescer, mas enfrenta barreiras estruturais (competitividade frente à resina virgem, logística, qualidade da sucata, etc.). Nesse cenário, mesmo assim, as taxas de expansões e capacidades novas estão maiores que a taxa de empresas encerrando atividade, o que resulta em maior ociosidade.

Em 2018 o estudo registra a existência no país de 716 recicladoras e em 2024, um total de 656. Enquanto vigorar o excedente global de resinas virgens, essa redução deve continuar e/ou estancar ou os compromissos com a sustentabilidade podem estimular o aumento a médio prazo dessa quantidade de empresas?

O número absoluto de recicladoras não é, por si só, o melhor indicador para medir o desempenho estrutural do setor. A redução do número dessas empresas em atividade reflete, sobretudo, um movimento de consolidação e profissionalização da cadeia. Afinal, muitas empresas pequenas e pouco estruturadas encerraram atividades e, ao mesmo tempo, surgiram players médios e grandes, seja por fusões e aquisições, seja por novas plantas. É um movimento natural em cadeias em amadurecimento. Ainda que a alta disponibilidade de resina virgem pressione a competitividade, os compromissos de sustentabilidade de grandes marcas e as metas regulatórias (como logística reversa, obrigatoriedade de uso de PCR e acordos setoriais) devem continuar a estimular investimentos. A tendência é menos empresas em número, mas mais robustas em porte, tecnologia e governança.

O volume reciclado de aparas industriais em 2024 foi o segundo menor desde 2018, equiparando-se ao patamar de 2021. Quais as razões desse declínio?

É um resultado direto da modernização do parque fabril. As indústrias transformadoras investiram em maquinário mais eficiente e em práticas de redução e reaproveitamento interno de resíduos. Ou seja, a sucata industrial deixou de ser ‘desperdício’ para virar insumo reaproveitado na própria linha de produção. Isso é positivo do ponto de vista da economia circular, mas reduz a disponibilidade de aparas industriais para os recicladores independentes, que precisam buscar sucata pós-consumo em substituição às aparas industriais, por exemplo.

A nova geração de máquinas básicas para transformação de plásticos opera, em prol da produtividade, conectada com inteligência artificial (IA). Por extensão, à medida que a indústria brasileira for renovando o parque fabril, a geração de aparas caminha para a irrelevância?

Sim, essa tendência deve se intensificar. À medida que novas máquinas incorporam IA, controle de processos e automação, a geração de aparas se tornará cada vez mais marginal. Em um horizonte de médio prazo, as aparas industriais terão peso muito reduzido no mercado de reciclagem e a principal fonte permanecerá o resíduo pós-consumo coletado.

Em vigor nos últimos quatro anos, o excedente global de resinas virgens não tem fim previsto e cresce a produção de combustíveis de fonte fóssil. A permanência desses dois fatores tende a reduzir o pique da transição para a energia limpa e, em decorrência, a produção brasileira de PCR tende a marcar passo e/ou retroceder?

O efeito já foi sentido em 2023 e 2024, tanto no Brasil quanto nos EUA e na Europa. Segundo os últimos dados disponíveis para EUA e Europa, ano-base 2023, houve visível queda dos volumes reciclados e nos índices de reciclagem, em função da perda de competitividade do PCR frente à resina virgem. Esse cenário prolongado de alta oferta e baixo preço da resina fóssil pode, por um lado, desacelerar a transição energética e a circularidade, porque dificulta a viabilidade econômica de rotas alternativas. Por outro lado, os compromissos de sustentabilidade de grandes marcas (brand owners) e as metas regulatórias (como logística reversa, obrigatoriedade de uso de PCR e acordos setoriais) devem continuar a estimular a demanda. Enquanto não houver maior equilíbrio global entre oferta e demanda de polímeros, a reciclagem seguirá crescendo, mas em ritmo mais lento e com margens pressionadas.

Desde 2024, o Brasil registra alto nível de emprego e de distribuição de renda por programas assistencialistas. Estes fatos têm influído ou não para limitar a disponibilidade de mão de obra para a coleta de plásticos para reciclagem?

O setor tem enfrentado dificuldades para manter trabalhadores nas cooperativas de triagem, devido à baixa remuneração decorrente da queda no valor da sucata plástica. Há relatos de migração de mão de obra para atividades temporárias mais atrativas (como no período de eleições) ou para a coleta de materiais de maior valor agregado, como alumínio. É difícil atribuir isso exclusivamente a programas assistenciais, mas decerto o custo de oportunidade do trabalho na reciclagem aumentou, o que limita a disponibilidade de mão de obra.

Em 2024, a geração de resíduos plásticos e a produção de PCR retrocederam aos patamares de 2021. Por quais motivos?

Em 2024, a produção de PCR voltou a níveis de 2021, mas a geração de resíduos plásticos continuou crescendo (cerca de 3,6% ao ano). Isso explica a queda no índice de reciclagem, pois houve mais plástico gerado e o mesmo volume reciclado. Esse descompasso decorre da baixa competitividade do PCR em relação à resina virgem, somado aos desafios de coleta, logística e qualidade.

2026 é ano eleitoral, quando o governo aquece pontualmente a economia atrás de votos. Isso tende a estimular a reciclagem, mesmo com a resina virgem abundante e acessível?

Em ano eleitoral é comum haver estímulos à economia. Isso tende a aumentar o consumo, a geração de resíduos e, indiretamente, a oferta de sucata. No entanto, sem medidas regulatórias ou compromissos de mercado mais fortes, dificilmente esse aquecimento resultará em aumento expressivo de reciclagem. O risco é que se gere mais resíduo, mas que a reciclagem não consiga acompanhar. •

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