O relatório registra 656 recicladoras no Brasil em 2024, somando capacidade instalada de 2.429 milhões de t/a e produção de 1.012.265 toneladas no ano passado. Os EUA produzem cerca de cinco vezes mais PCR que o Brasil com uma quantidade de recicladoras 75% menor. Qual a explicação para esta discrepância?
O mercado de plásticos nos EUA é cerca de oito vezes maior que o brasileiro. Portanto, é natural que recicle volumes muito superiores. Além disso, a forma como a reciclagem se estruturou nos dois países explica a diferença: no Brasil, ela nasceu de iniciativas sociais e comunitárias, com micro e pequenas empresas familiares que processavam material coletado por catadores e cooperativas. Já nos EUA, a reciclagem surgiu como um grande negócio industrial, voltado a dar destino a enormes volumes antes dirigidos a aterros ou incineração. Nos EUA, a lógica relativa à indústria de reciclagem sempre foi pautada por plantas de grande porte, altamente mecanizadas e integradas, capazes de processar centenas de milhares de toneladas. No Brasil, ainda predomina a pulverização: muitas empresas pequenas e médias com baixa escala, o que reduz a eficiência agregada. Em resumo: menos players nos EUA, mas com operações gigantes, versus muitos players no Brasil, mas com capacidades limitadas.
“Nos últimos anos, houve forte expansão da capacidade, mas a demanda de PCR e a oferta de sucata não cresceram na mesma velocidade”
Maurício Jaroski, MaxiQuim
Com base no período de 2024, como avalia o impacto econômico sobre a indústria recicladora causado pela lacuna acima de 50% entre a capacidade instalada e a produção de PCR?
A ociosidade da indústria de reciclagem de plástico no Brasil não é novidade. Historicamente, ela sempre operou com capacidade subutilizada, reflexo da fragmentação decorrente de um universo de muitas pequenas indústrias. O que se intensificou nos últimos anos foi um certo descompasso: houve forte expansão da capacidade instalada, fruto de novos investimentos, mas a demanda de PCR e a oferta de sucata não cresceram na mesma velocidade. Isso gera pressão sobre a rentabilidade das empresas, porque custos fixos são diluídos em volumes menores. A consequência é um setor que tem potencial de crescer, mas enfrenta barreiras estruturais (competitividade frente à resina virgem, logística, qualidade da sucata, etc.). Nesse cenário, mesmo assim, as taxas de expansões e capacidades novas estão maiores que a taxa de empresas encerrando atividade, o que resulta em maior ociosidade.
Em 2018 o estudo registra a existência no país de 716 recicladoras e em 2024, um total de 656. Enquanto vigorar o excedente global de resinas virgens, essa redução deve continuar e/ou estancar ou os compromissos com a sustentabilidade podem estimular o aumento a médio prazo dessa quantidade de empresas?
O número absoluto de recicladoras não é, por si só, o melhor indicador para medir o desempenho estrutural do setor. A redução do número dessas empresas em atividade reflete, sobretudo, um movimento de consolidação e profissionalização da cadeia. Afinal, muitas empresas pequenas e pouco estruturadas encerraram atividades e, ao mesmo tempo, surgiram players médios e grandes, seja por fusões e aquisições, seja por novas plantas. É um movimento natural em cadeias em amadurecimento. Ainda que a alta disponibilidade de resina virgem pressione a competitividade, os compromissos de sustentabilidade de grandes marcas e as metas regulatórias (como logística reversa, obrigatoriedade de uso de PCR e acordos setoriais) devem continuar a estimular investimentos. A tendência é menos empresas em número, mas mais robustas em porte, tecnologia e governança.
O volume reciclado de aparas industriais em 2024 foi o segundo menor desde 2018, equiparando-se ao patamar de 2021. Quais as razões desse declínio?
É um resultado direto da modernização do parque fabril. As indústrias transformadoras investiram em maquinário mais eficiente e em práticas de redução e reaproveitamento interno de resíduos. Ou seja, a sucata industrial deixou de ser ‘desperdício’ para virar insumo reaproveitado na própria linha de produção. Isso é positivo do ponto de vista da economia circular, mas reduz a disponibilidade de aparas industriais para os recicladores independentes, que precisam buscar sucata pós-consumo em substituição às aparas industriais, por exemplo.
A nova geração de máquinas básicas para transformação de plásticos opera, em prol da produtividade, conectada com inteligência artificial (IA). Por extensão, à medida que a indústria brasileira for renovando o parque fabril, a geração de aparas caminha para a irrelevância?
Sim, essa tendência deve se intensificar. À medida que novas máquinas incorporam IA, controle de processos e automação, a geração de aparas se tornará cada vez mais marginal. Em um horizonte de médio prazo, as aparas industriais terão peso muito reduzido no mercado de reciclagem e a principal fonte permanecerá o resíduo pós-consumo coletado.
Em vigor nos últimos quatro anos, o excedente global de resinas virgens não tem fim previsto e cresce a produção de combustíveis de fonte fóssil. A permanência desses dois fatores tende a reduzir o pique da transição para a energia limpa e, em decorrência, a produção brasileira de PCR tende a marcar passo e/ou retroceder?
O efeito já foi sentido em 2023 e 2024, tanto no Brasil quanto nos EUA e na Europa. Segundo os últimos dados disponíveis para EUA e Europa, ano-base 2023, houve visível queda dos volumes reciclados e nos índices de reciclagem, em função da perda de competitividade do PCR frente à resina virgem. Esse cenário prolongado de alta oferta e baixo preço da resina fóssil pode, por um lado, desacelerar a transição energética e a circularidade, porque dificulta a viabilidade econômica de rotas alternativas. Por outro lado, os compromissos de sustentabilidade de grandes marcas (brand owners) e as metas regulatórias (como logística reversa, obrigatoriedade de uso de PCR e acordos setoriais) devem continuar a estimular a demanda. Enquanto não houver maior equilíbrio global entre oferta e demanda de polímeros, a reciclagem seguirá crescendo, mas em ritmo mais lento e com margens pressionadas.
Desde 2024, o Brasil registra alto nível de emprego e de distribuição de renda por programas assistencialistas. Estes fatos têm influído ou não para limitar a disponibilidade de mão de obra para a coleta de plásticos para reciclagem?
O setor tem enfrentado dificuldades para manter trabalhadores nas cooperativas de triagem, devido à baixa remuneração decorrente da queda no valor da sucata plástica. Há relatos de migração de mão de obra para atividades temporárias mais atrativas (como no período de eleições) ou para a coleta de materiais de maior valor agregado, como alumínio. É difícil atribuir isso exclusivamente a programas assistenciais, mas decerto o custo de oportunidade do trabalho na reciclagem aumentou, o que limita a disponibilidade de mão de obra.
Em 2024, a geração de resíduos plásticos e a produção de PCR retrocederam aos patamares de 2021. Por quais motivos?
Em 2024, a produção de PCR voltou a níveis de 2021, mas a geração de resíduos plásticos continuou crescendo (cerca de 3,6% ao ano). Isso explica a queda no índice de reciclagem, pois houve mais plástico gerado e o mesmo volume reciclado. Esse descompasso decorre da baixa competitividade do PCR em relação à resina virgem, somado aos desafios de coleta, logística e qualidade.
2026 é ano eleitoral, quando o governo aquece pontualmente a economia atrás de votos. Isso tende a estimular a reciclagem, mesmo com a resina virgem abundante e acessível?
Em ano eleitoral é comum haver estímulos à economia. Isso tende a aumentar o consumo, a geração de resíduos e, indiretamente, a oferta de sucata. No entanto, sem medidas regulatórias ou compromissos de mercado mais fortes, dificilmente esse aquecimento resultará em aumento expressivo de reciclagem. O risco é que se gere mais resíduo, mas que a reciclagem não consiga acompanhar. •


