Com juros altos e crédito restrito inibindo a compra de bens duráveis, o consumidor padrão brasileiro tende a destinar aos não duráveis sua renda ampliada pelo pleno emprego e programas assistencialistas. Este quadro sinaliza aos segmentos supridos de embalagens pela G&G um desempenho neste ano eleitoral superior a 2025?
“Vemos espaço para investimentos em automação, redução de custo unitário, eficiência energética e aumento de produtividade”
Alcides Guerreiro Torres, Greco & Guerreiro
Como avalia a motivação para investimentos pelo seu setor (sopro de embalagens em geral) este ano diante do crédito escasso e Selic nas alturas abocanhando grande parte da geração de caixa e complicando as perspectivas de retorno?
De fato, o atual patamar da Selic, em torno de 15%, exerce forte pressão sobre o fluxo de caixa das indústrias transformadoras e eleva significativamente o custo de oportunidade dos investimentos produtivos. Nesse contexto, o setor tende a adotar uma postura mais seletiva e racional. Projetos de expansão só se justificam quando há contratos, volumes ou ganhos claros de eficiência que assegurem retorno acima do custo do capital. Investimentos puramente especulativos ou baseados apenas em expectativa de crescimento de mercado tendem a ser postergados.
Por outro lado, vemos espaço para investimentos específicos, voltados à automação, redução de custo unitário, eficiência energética e aumento de produtividade. É uma decisão que procede, em especial, quando esses movimentos fortalecem a competitividade no médio e longo prazo.
Nessa conjuntura instável, quais os eventuais investimentos relevantes cogitados para o período atual pela G&G na capacidade produtiva e/ou na estrutura comercial?
Para este ano, não há grandes expansões de capacidade previamente mapeadas. O cenário atual nos leva a priorizar disciplina de capital e foco em rentabilidade. Em 2024, a propósito, realizamos o maior investimento da nossa história – a ampliação significativa da capacidade produtiva por meio da implantação da unidade da G&G Minas, em Extrema. A prioridade em 2026 será capturar todo o potencial desse investimento.
Ainda assim, estamos abertos a avaliar novos projetos, em particular aqueles que, comprovadamente, apresentem retorno superior aos níveis observados em 2025. Nossa área comercial está orientada a prospectar negócios com esse perfil.
Por fim, vale reforçar que a G&G respeita profundamente sua trajetória e os mercados que a trouxeram até aqui. Mesmo buscando oportunidades mais rentáveis, não está nos planos abandonar segmentos de volume, como o domissanitário, que seguem sendo estratégicos e relevantes para o nosso portfólio.
Poderia dimensionar a envergadura da capacidade instalada total para embalagens da G&G, incluindo as unidades em Morungaba, Extrema e Barra do Piraí?
Em 2025, nosso grupo transformou 22.800 toneladas de PEAD e 4.500 de PET. No caso de PEAD, a distribuição do volume transformado foi concentrada principalmente em São Paulo, responsável por 50% do total, seguida por Minas Gerais, com 40%, e Rio de Janeiro com 10%.
Já em relação a PET, a produção esteve fortemente centralizada em São Paulo, que respondeu por 97% do volume total transformado no ano passado. Minas Gerais participou com 3%, enquanto a unidade do Rio de Janeiro não realizou a transformação desse material.
Em termos de capacidade produtiva, a expansão da planta de Extrema (MG) foi parcialmente concluída em 2025. Dela resultou o aumento de aproximadamente 40% na capacidade instalada em comparação ao ano anterior. A conclusão total do projeto está prevista para ocorrer ao longo dos próximos três anos.
Como a G&G avalia a possibilidade de ingressar no sopro de PET reciclado grau alimentício (bottle to bottle), nicho em intensa ascensão no Brasil?
A G&G acompanha de perto a evolução do PET reciclado grau alimentício. Do ponto de vista técnico e de know-how, não temos limitações para atuar nesse nicho. O principal fator que hoje restringe uma atuação mais ampla nossa é a disponibilidade de pré-formas recicladas para o mercado alimentício/bebidas, ainda bastante concentrado nas mãos de grandes players da indústria. Seguimos atentos às movimentações do setor e avaliamos esse mercado como estratégico no médio prazo, desde que haja condições de fornecimento estáveis e economicamente viáveis.
No campo dos produtos de limpeza, principal mercado da G&G, há vários fabricantes verticalizados nos frascos soprados. Como avalia a possibilidade de a G&G ingressar na formulação e envase de domissanitários com marca própria?
Não está nos planos do grupo ingressar na formulação e envase de produtos de limpeza com marca própria. Nossa estratégia permanece focada em ser parceiro industrial, oferecendo soluções em embalagens e serviços que fortaleçam as marcas dos clientes, sem competir com eles no ponto de venda.
Como e quando surgiu a oportunidade de a G&G envasar goma de mascar?
O envase de goma de mascar teve início em 2024, para atender a um cliente que enfrentava restrições de espaço físico em sua planta. Isso limitava sua capacidade de acompanhar uma demanda em forte crescimento. A partir dessa necessidade concreta, estruturamos uma solução conjunta. Desde o primeiro contato até o início do faturamento, o projeto foi implementado em apenas três meses, evidenciando a agilidade e a capacidade de adaptação do nosso grupo, pois atuávamos, até então, no mercado de envase de bebidas não carbonatadas. Nesse curto período, realizamos as adequações necessárias na planta de Morungaba para viabilizar o acondicionamento de um produto inédito em nosso portfólio, permitindo-nos entrar num novo segmento. Hoje em dia, a operação está bem consolidada e, além do serviço de envase, a G&G fornece parte dos potes utilizados no armazenamento do produto, entregando uma solução integrada e eficiente ao cliente.
Essa experiência reforça nossa atuação como parceiro industrial e nos inspira a ampliar esse modelo de atuação. Já estamos prospectando novos projetos e aliados para o envase de produtos alimentícios, inclusive em pó, sempre de forma criteriosa e alinhada à nossa estratégia de longo prazo.
Como a G&G enxerga a possibilidade de ingressar na modalidade de sopro in house (produção de embalagens anexa à linha de produção do cliente)?
Enxergamos o sopro in house como uma alternativa válida em situações muito específicas, sobretudo quando há grande escala, estabilidade de demanda e sinergia operacional clara. No entanto, trata-se de um modelo de produção dependente de alto nível de integração, governança bem definida e segurança jurídica. Por isso, não é uma prioridade estratégica ampla para o nosso grupo, mas pode ser avaliado pontualmente quando gera ganhos claros para ambas as partes.
A G&G divulga que, em média, suas embalagens sopradas empregam teor de 60% de resina reciclada. Sustentabilidade à parte, como o grupo garante competitividade em preços aos seus frascos contendo reciclado (nota: o grupo recicla resinas em Barra do Piraí) diante da alternativa bem mais barata da superofertada resina virgem, adotada por muitos concorrentes?
Mesmo diante da oferta abundante de resina virgem importada, o material reciclado ainda se mostra mais competitivo em preço. Nosso foco é trabalhar com resinas PCR que apresentem excelente desempenho, permitindo a produção de embalagens mais leves, eficientes e com alto padrão de qualidade para performarem de forma satisfatória. Isso dilui custos e mantém competitividade, ao mesmo tempo que reforça nosso compromisso com a sustentabilidade.
O transporte de embalagens sopradas vazias é inviável economicamente. Para contornar este entrave e em linha com sua estratégia de expansão, como avalia possibilidade de a G&G montar plantas filiais no Centro-Oeste, Sul e Nordeste?
O frete é, de fato, um dos principais componentes de custo das embalagens sopradas vazias. Por isso, a possibilidade de expansão para regiões como Sul e Nordeste não é descartada e, inclusive, já foi demandada por alguns clientes. Entretanto, a disponibilidade de mão de obra tem se mostrado um fator crítico. A escassez de profissionais, em todos os níveis, exige cautela. Qualquer decisão nesse sentido precisa estar sustentada por um projeto sólido, com rentabilidade claramente comprovada.
Além da sede em Morungaba, G&G tem plantas em dois municípios atraentes pelos benefícios fiscais: Extrema e Barra do Piraí. Daí esta pergunta: diante do peso descomunal da carga tributária brasileira, a disponibilidade de incentivos fiscais hoje pesa tanto ou mais que a proximidade dos clientes para decidir o local de uma nova fábrica no setor da transformação de plástico?
Historicamente, os incentivos fiscais sempre tiveram peso relevante nas decisões de localização industrial no Brasil, em particular diante da elevada carga tributária e da complexidade da regulamentação atual. No entanto, com a reforma tributária prevista para vigorar a partir deste ano, o cenário passa a exigir uma análise ainda mais cautelosa da localização conveniente para uma fábrica.
A transição para um novo modelo tributário, com a substituição de ICMS e ISS pelo IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da saída de cena do PIS, IPI e Cofins para dar lugar à CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), traz incertezas importantes, sobretudo quanto à forma de creditamento, às regras de transição e à efetiva manutenção de incentivos regionais. Nesse contexto, decisões baseadas exclusivamente em benefícios fiscais se tornam mais arriscadas.
Para a G&G, a definição do local de uma nova planta tende a considerar cada vez mais um conjunto equilibrado de fatores. Entre eles, a proximidade dos clientes, eficiência logística, disponibilidade e qualificação da mão de obra, infraestrutura existente e potencial de expansão da área, além, naturalmente, da análise tributária.


