Nos idos de 1958, a extinta Union Carbide iniciava, no polo de São Paulo, a produção brasileira de polietileno de baixa densidade (PEBD). Em 1965, a Rulli-Standard começava a montagem de extrusoras blow de filmes da resina e, ao longo da trajetória que completa 60 anos, a empresa firmou-se como joia da coroa da tecnologia nacional de produção de filmes mono e coextrusados, assinando inclusive um bocado de pioneirismos no país em termos de componentes e recursos aperfeiçoadores do processo. Na entrevista a seguir, o diretor comercial Silvio Davi Pires traça o balanço dessa contribuição-chave da Rulli Standard para a consolidação do setor plástico no Brasil.
Como a americana Davis-Standard tomou conhecimento no Brasil da Rulli e porque topou formar parceria com ela em extrusoras blow?
Nas décadas de 1960 e 1970 a Davis-Standard, exportava muito para o Brasil. Foi quando o governo brasileiro passou a proibir e/ou dificultar muito as importações, iniciando uma política de incentivo à produção nacional. Diante disso, a Davis-Standard decidiu se associar a uma empresa daqui. Após estudos e entrevistas com fabricantes locais, o parceiro escolhido foi Luigi Rulli, proprietário da empresa Luigi Rulli & Cia. Ltda. Em 1961 surgia a sociedade Rulli – Davis Standard Ind. e Com. Ltda. com o projeto de produzir máquinas de fios e cabos elétricos e linhas de chapas para termoformados destinados a autopeças e componentes da linha branca. Quatro anos depois, essa indústria começava a montar extrusoras de filme balão (blow) de PEBD e linhas de ráfia e monofilamentos.
Quais as principais características das primeiras extrusoras de flexíveis construídas pela Luigi Rulli há 60 anos?
As primeiras linhas para trabalho com PEBD eram monocamada, equipadas produzidas a partir de 1965, mono camada, equipadas com cabeçotes fixos e produção variando de 30 kg/h a 100 kg/h.
Poderia dar exemplos das principais melhorias e inovações introduzidas pela Rulli-Standard na montagem de mono e coextrusoras blow nacionais?
A Rull-Standard lançou em 1997 o cabeçote bifluxo, elevando assim a resistência mecânica do filme. Também introduziu o troca telas com pistão pneumático, facilitando a vida dos operadores. A montagem de coextrusoras entrou em cena ao final da década de 1990, evoluindo desde então e abrangendo linhas de duas até sete camadas. As máquinas passaram a ter produções muito mais elevadas, com a Rulli Standard disponibilizando também monoextrusoras de PEBD com roscas de 50 mm a 160 mm de diâmetro e produção desde 100 a 1500 kg/h.
Silvio Davi Pires: Rulli Standard acumula pioneirismos na tecnologia nacional de extrusão desde 1965.
Como situa a empresa no segmento nacional de extrusão de flexíveis?
Na média, a Rulli Standard, detém cerca de 40% de participação na construção de linhas mono. Entre as mais vendidas, constam os modelos EF 21/2 Colossus; EF 21/2 Evolution e Ef 70 e EF 80, com capacidades de 200 a 415 kg/h. Já a linha especial mono camada, modelo EF 100, conta com capacidade operacional de 450 a 600 k/h variando de acordo com diâmetro de matriz, formatos dos filmes e grades dos materiais.
Entre os equipamentos diferenciados da Rulli Standard, sobressai, na monoextrusão, o modelo EF 21/2 Evolution com rosca diâmetro 63.5mm. Produz 265 kg/h de filme para sacolas, por exemplo, contendo 60% de PEAD na formulação-padrão para esse tipo de película. O filme segue o formato de 1.520 mm de largura útil com 12 micra de parede e consumo de energia ao redor de 0,25 kW/kg. Não tem concorrência em sua categoria, tal como ocorre com nossas linhas coex ABA, com roscas de 65 mm de diâmetro. Na listagem de avanços cabem ainda as linhas EF 80 para filmes de PEBD/PEBDL com produção até 415 kg/h; a linha EF 100 com produção até 550 kg/h e o modelo coex de três camadas com matriz de 900 mm e conjunto de duas roscas com diâmetros de 70 mm e uma de 100 mm. Produz 1t/h com filmes de 4 m de largura útil e espessura de 100 micra em trabalho com PEBD 100% reciclado/lavado.
A Rulli Standard hoje ocupa área de 25.000m² em Guarulhos (SP), com área construída de 15.000m². Produzo cerca de 60 máquinas/ano entre as linhas das divisões de flexíveis e rígidos. Os investimentos no último triênio contribuíram para o aumento médio de 20% na nossa produção anual.
Quais os destaques no desenvolvimento de componentes que considera marcos históricos da Rulli Standard na extrusão de filmes?
Apenas nos últimos dois anos, a empresa lançou anel automático fixo e com elevação, periféricos importantes para controlar e reduzir a variação de espessura em até 50% e, no caso do anel com regulagem de altura, incrementando a produção em até 20%. Em parceria com a Weg, desenvolvemos motores de fluxo axial (categoria IR5), com menos peso, manutenção e espaço ocupado e melhor desempenho que motores da categoria IR3, resultando em ganhos da ordem de 40% em eficiência energética. Por sua vez, os nossos cabeçotes, munidos de revestimentos diferenciados, acenam com durabilidade superior e adequação às características reológicas de grades avançados de PEs, proporcionando filmes de qualidade acima da média em vigor no mercado.
Outro ponto alto nosso em componentes: as bobinadeiras especiais. Proporcionam bobinamento de filmes sem contato com rolo bobinador, módulos para manter filme completamente plano e sem conicidade. São exemplos de itens importantes para coextrusão a partir de 5 camadas, resultando em películas de altíssima qualidade e produtividade nas máquinas de acabamento.
“Indústrias que trabalham com coextrusoras de 3 camadas têm migrado aos poucos para linhas de 5”
Silvio Davi Pires, Rulli Standard
E quanto aos avanços digitais?
Desde 2022 nossas extrusoras contam com monitoramento em tempo real e configuração personalizada pelo software “Rulli Smart Machine (RSM). O sistema informa antecipadamente eventuais problemas técnicos, minimizando dessa forma riscos de parada da máquina. Além disso, o RSM armazena o histórico das variáveis do processo, alarmes e eventos configuráveis, receitas de produção e parâmetros (ocorrendo qualquer alteração ou problema otimiza a reprogramação), disponibilizando integração com módulos IA (BirminD), indicador de irregularidades e otimização.
O programa permite carregar manuais de instalação e operação, listas de peças de reposição, indicação de consumo de energia em tempo real (KWh/kg), monitoramento e digitalização dos motores e inversores da máquina, notificações e gestão de manutenção com relatórios customizados. Permite sua integração com o sistema de visão computacional (MVISIA), entre outras plataformas e softwares.
Por que a demanda de linhas de coextrusão blow de 5 camadas em diante ainda não deslanchou no Brasil com a mesma intensidade notada na procura por máquinas de até 3 camadas?
Nos últimos cinco anos, a procura por máquinas de cinco camadas tem aumentado gradativamente, com as de três permanecendo em alta. Indústrias que já trabalham com coextrusoras de três camadas para filmes poliolefínicos têm migrado aos poucos para linhas de cinco camadas, em função de melhores resultados de mix de formulação de matéria prima, maior resistência mecânica (com cerca de 25% a 30% com menos espessura) e menor percentual de utilização de aditivos e masters, resultando em economias de até 25% em relação ao processamento de filmes de três camadas. Vale ressaltar que, por conta dos valores para compra de coextrusoras de cinco camadas e, principalmente, por insuficiência de mão de obra qualificada, a demanda por estes equipamentos ainda não deslanchou de vez.
Por que a Rulli Standard até hoje não entrou na extrusão de filmes de matriz plana?
Não nos interessa a fabricação de linhas cast porque as empresas do exterior suprem perfeitamente a demanda.
Poderia dar uma prévia das novidades na extrusão de filmes que a Rulli-Standard levará à feira alemã K 2025?
Apresentaremos uma coextrusora com capacidade de extrusão de massa de 740 kg/h e munida de periféricos de última geração, dedicada à produção de filmes com baixa variação de espessura, excelente plastificação e baixo consumo de energia.
Qual a expectativa para vendas de suas extrusoras + coextrusoras este ano versus 2024?
Prevemos para este ano manter a média de aumento de 20% nas vendas/produção anual. A demanda maior segue por máquinas para fabricação de sacolas e filmes termocontráteis, seguidas por linhas de rígidos para PP e PET. •


