Desde o fim do último superciclo global de investimentos petroquímicos (1992-2021), o perfil do varejo brasileiro de resinas virou de ponta cabeça, sob pressão do excedente global a preços acessíveis, suscitando uma avalanche imparável de importações. Apesar dessa escalada e de uma demanda interna em fogo baixo, devido a prós como subsídios assistencialistas e pleno emprego, e contras como juros na lua, crédito raro e inadimplência recorde, 2025 fechou com salto de 7,3% cintilando nas vendas de 404.000 toneladas de resinas commodities e nobres pelos integrantes da Associação Brasileira de Distribuidores de Resinas Plásticas e Afins (Adirplast). Um balanço pormenorizado do desempenho desse segmento de agentes oficiais, que agrega fornecedores de materiais nacionais e importados, e as perspectivas realistas para este ano diferenciado pelas eleições dão o tom da entrevista de Laercio Gonçalves, vice-presidente da Adirplast e CEO do Grupo activas, casa de força da rede de distribuição da Braskem.
Pela sua estimativa, como reparte entre polipropileno (PP), polietileno (PE) e poliestireno (PS) as vendas de 347.0000 toneladas de resinas commodities pelos membros da Adirplast em 2025?
Com base na leitura consolidada da Adirplast, a divisão ficou em aproximadamente 51% de PE, 25% PP e 10% de PS. O volume total das vendas dos associados fechou 7,4% superior ao de 2024.
Os dados do cenário reforçam que a presença de resinas importadas segue relevante, especialmente em PE e PP. No caso específico da primeira, o Brasil importou cerca de 1,9 milhão de toneladas em 2025 (fonte: SECEX), volume no mesmo patamar observado em 2024, apesar da adoção de medidas tarifárias (taxas adicionais de importação).Por sinal, as importações de polietilenos de baixa densidade e linear (PEBD e PEBDL) caíram cerca de 6% em 2025 (nota: total de 497.669 toneladas, segundo a SECEX e exclusive copolímeros de etileno e alfa-olefina), mesmo percentual de declínio das importações do tipo de alta densidade (PEAD) no último período (total de 659.101 toneladas, segundo a SECEX). Já no caso de PP, o volume importado se aproximou das 698.579 toneladas no ano passado perante 723.281 (fonte: SECEX) do saldo anterior.
Considerando uma média de mercado, temos em PE um share de 55% de importado e 45% de material doméstico. Para PP, a estimativa fica ao redor de 35% para o polímero importado e 65% para o nacional.
“Apesar da perspectiva de crescimento este ano, a distribuição segue atenta aos riscos de um avanço desordenado e suas consequências para a economia real”
Laercio Gonçalves, Adirplast e Grupo activas
Nos últimos anos e apesar das sobretaxas tarifárias, os distribuidores de PP e PE da Braskem têm acusado perda de market share para importações crescentes, à sombra do excedente global. À parte estratégias específicas de cada empresa, quais as possíveis ações em comum cogitadas pelo conjunto desses agentes para evitar mais perda de participação nas vendas?
As ações são tratadas com base no cenário de cada empresa, porém precisamos reforçar o papel da distribuição como prestadora de serviço, indo além do simples fornecimento de resina: logística eficiente, fracionamento, crédito, assistência técnica e proximidade com o transformador.
Outra frente a considerar é a diversificação do portfólio, com maior foco em especialidades, compostos, masterbatches e soluções técnicas, reduzindo a dependência de apenas alguns materiais. Por fim, ganha importância a atuação institucional em conjunto com a Adirplast para acompanhamento de políticas tarifárias, práticas de dumping e defesa de condições de concorrência.
As vendas de plásticos de engenharia pelos filiados da Adirplast fecharam em 57.000 toneladas em 2025, salto de 17,3% sobre o registrado um ano antes. Este desempenho também pode ser interpretado como fruto do esforço maior dos distribuidores da Braskem para compensar a perda de market share em poliolefinas?
Em parte, sim. O crescimento reflete um movimento estratégico claro desses distribuidores para expandir seus portfolios. No entanto, não se trata apenas de compensação. Há também um crescimento real da demanda por materiais de maior desempenho, impulsionado por exigências técnicas, regulatórias e de sustentabilidade em diversos segmentos.
Portanto, o avanço dos plásticos de engenharia combina dois fatores: uma expansão de portfólio e um aumento de demanda.
Plásticos de engenharia estão ligados a bens duráveis, de vendas hoje dificultadas pelo crédito escasso e juros estratosféricos. Como explica o pulo nas vendas de materiais nobres pelos filiados da Adirplast nessa conjuntura financeira desfavorável?
Esse crescimento em 2025 resulta de uma conjuntura de fatores. Um ponto inicial relevante é a já mencionada diversificação de portfólio dos distribuidores, que passaram a ampliar a atuação em materiais de maior valor agregado, atendendo a demandas técnicas.
Mesmo com juros elevados, alguns setores de bens duráveis apresentaram desempenho positivo. Um exemplo é o setor automotivo: segundo dados da Anfavea, a produção de veículos no Brasil cresceu cerca de 3,5% no último período (nota: 2,64 milhões de unidades e compras de 2,69 milhões – avanço de 2,1% sobre 2024, desempenho engessado pelos juros altos). Isso contribuiu para sustentar a demanda por materiais de engenharia utilizados em componentes automotivos.
Portanto, o crescimento observado reflete a combinação entre estratégia de diversificação dos distribuidores, demanda técnica consistente e desempenho pontual de alguns segmentos industriais, mesmo dentro de um cenário macroeconômico ainda desafiador.
Qual o possível impacto das mudanças trazidas pela nova reforma tributária sobre o comércio informal de resinas?
A reforma tributária tem potencial de substituir múltiplos tributos por IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), impostos que tendem a aumentar a transparência e simplificar o sistema, reduzindo brechas exploradas pela informalidade.
No entanto, esse efeito não será imediato nem automático. A efetividade dependerá da implementação prática, da fiscalização e da adaptação das empresas. Ainda assim, no médio prazo, a tendência é de um ambiente mais equilibrado e competitivo para quem opera dentro da legalidade.
A nova reforma tributária tende ou não a intensificar a implantação de plantas filiais de transformadores maiores em Manaus? E qual o possível impacto da reforma sobre os negócios de indústrias menores, que compõem o grosso da clientela dos distribuidores de resinas?
A reforma tributária preservou os incentivos da Zona Franca de Manaus, garantindo sua continuidade e adaptação ao novo modelo de IBS e CBS, o que mantém a atratividade da região para investimentos industriais estruturados. Isso pode, sim, estimular transformadores de maior porte a avaliarem a instalação ou ampliação de plantas na região, desde que a regulamentação assegure previsibilidade e eficiência na geração de créditos tributários.
Para os transformadores e componedores de menor porte, o principal impacto estará na necessidade de adaptação ao novo sistema tributário. A simplificação tende a reduzir distorções no médio prazo, mas a transição exigirá maior organização fiscal e gestão de custos, o que pode representar um desafio inicial para empresas com estrutura mais enxuta.
Mesmo com taxas de juros impraticáveis, a injeção de R$114 bilhões em programas e subsídios assistencialistas, deve excitar a economia de modo pontual neste ano eleitoral. Como o quadro influi, respectivamente, nas expectativas da distribuição de resinas commodities e de engenharia versus 2025?
Historicamente, anos eleitorais no Brasil costumam ser acompanhados por maior injeção de recursos na economia, seja por meio de programas de transferência de renda, subsídios ao consumo ou políticas de crédito direcionado. Esse movimento tende, sim, a gerar uma movimentação adicional de curto prazo, mas muitas vezes com efeito limitado e temporário, o conhecido voo de galinha.
Para a distribuição de resinas commodities, esse estímulo pontual tem impacto mais direto. A maior circulação de renda sustenta o consumo de alimentos, bebidas, higiene, limpeza e embalagens, setores intensivos no uso de PE, PP e PS. Diante desse cenário, a expectativa do setor é de crescimento em torno de 5% em 2026, na comparação com 2025, apoiado principalmente por essa demanda de consumo essencial.
Já no caso das resinas de engenharia, o efeito desses estímulos é mais limitado, porém também deve apresentar crescimento. Apesar de depender muito mais de investimento produtivo, crédito de longo prazo e confiança empresarial do que de políticas de estímulo ao consumo de curto prazo. Assim, a expectativa é de crescimento seletivo, condicionado à evolução do cenário macroeconômico, sem aceleração relevante frente a 2025.
Ao mesmo tempo, esse movimento exige cautela. A injeção de recursos na economia, se não acompanhada de fundamentos sólidos, pode gerar pressões inflacionárias, exigindo respostas adicionais de política monetária, com efeitos negativos sobre juros, crédito e investimento nos períodos seguintes. Por isso, embora haja uma perspectiva de crescimento em 2026, o setor segue atento aos riscos de um avanço desordenado e suas consequências para a economia real.


