Até o último suspiro do dourado superciclo global de investimentos petroquímicos (1992-2021), movido por EUA e China, a distribuição de polietileno (PE) e polipropileno (PP) no Brasil era território cativo das resinas nacionais, a cargo da Braskem, e frequentado por importações apenas título de suprimento interno complementar. Desde então, ao sentir a trombada entre o resultante excedente de poliolefinas e uma demanda mundial desnutrida, a petroquímica brasileira vem tendo sua defasagem desnudada e a rentabilidade deteriorada. Essa guinada de 180º no cenário se estende ao palco do varejo de PP e PE, analisado nesta entrevista de Laercio Gonçalves, CEO do Grupo activas, artilheiro da rede de distribuição da Braskem, e vice-presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Resinas Plásticas e Afins (Adirplast).
Como explica o crescimento de 11,2% nas vendas (156.873 t) de PP e PE por membros da Adirplast no 1º semestre versus mesmo período em 2024?
Parece que estamos vivendo em nosso mercado sob uma força não natural na balança oferta x demanda. Ou seja, não é um crescimento baseado no consumo real e na sazonalidade do mercado e, sim, na compra e venda de oportunidade e muito focado nos materiais importados a um valor mais baixo e sob receio dos integrantes do setor quanto a possíveis aumentos tarifários como o antidumping para PE norte-americano, determinado em caráter inicialmente provisório pelo governo brasileiro em 21/8.
“O cenário econômico gerou aumento da inadimplência entre clientes da distribuição de resinas”
Laercio Gonçalves, Grupo activas
A expansão de 11,2% seria mérito, em especial, do avanço das poliolefinas importadas distribuídas por associados da Adirplast? Como reparte, do referido volume vendido de 156.873 t, as respectivas participações de poliolefinas nacionais e importadas?
Estamos acompanhando, infelizmente, mês a mês, ano a ano, o PP e PE importado ganhando mais share no Brasil. No passado, vivemos momentos de mercado chegando ao redor de 70% a participação local versus 30%a do material importado. Hoje, porém, vemos o importado com participação acima de 50%.
Outro ponto que estamos observando são determinados países de origem das poliolefinas importadas ganhando espaço, casos do Egito e da China cada vez mais presente. O quadro reflete uma oferta mundial maior que a demanda, fazendo com que países passem a buscar outros destinos para seus materiais excedentes.
Braskem vendeu internamente no 1º semestre 825.972 t de PE e 586.246t de PP. Qual a sua leitura do percurso das participações da distribuição neste movimento doméstico empresa nos últimos anos?
As vendas da distribuição das resinas locais caíram nos últimos anos, seguindo a queda do share da Braskem no mercado local e, principalmente, perdendo espaço para revendas e oportunistas de mercado.
Vimos as importações por Manaus ganhando presença, praticando preços extremamente baixos e circulando em todas as regiões do país. Isso fez com que a Braskem e seu canal oficial no varejo de poliolefinas, os agentes autorizados, perdessem espaço ao longo do tempo.
Com o sinalizado antidumping para PE norte-americano e a adequação da balança oferta x demanda mundial, deveremos ver o crescimento das vendas da distribuição oficial da Braskem e o ajuste adequado da sua participação no mercado.
Juros na lua, crédito restrito e consumo desaquecido pioraram muito ou pouco o nível de inadimplência entre transformadores clientes habituais do varejo de PP e PE no 1º semestre?
O ano de 2025 tem sido ainda mais desafiador que 2024. A inflação, os juros elevados, o câmbio volátil e a escassez de crédito pressionam os custos e reduzem o apetite de compra dos clientes. Eles estão mais cautelosos e estendendo os ciclos de decisão relativos ao suprimento de resinas. Esse cenário gerou aumento da inadimplência – com clientes deixando dívidas grandes no setor e em vários fornecedores – reforçando a necessidade de uma gestão mais próxima e criteriosa do crédito. Nesse contexto, muitas vezes a distribuição tem seu diferencial pela maior flexibilidade de pagamento e algumas vezes maior apetite a risco na análise de crédito.
O histórico tradicional coloca o mercado no segundo semestre mais aquecido que o primeiro. Esta praxe deve ser mantida nesta metade final de 2025 ou a instabilidade política e econômica, assim como as consequências internas do tarifaço de Trump, devem melhorar piorar o varejo brasileiro de PP e PE entre julho e dezembro próximo?
Entre os principais riscos que podem impactar o desempenho do setor nos próximos meses estão as incertezas macroeconômicas, pois afetam diretamente a confiança do consumidor e o ritmo de produção das indústrias. Além disso, a volatilidade cambial pode encarecer as importações, enquanto possíveis mudanças regulatórias ou novas restrições logísticas representam desafios adicionais. Ainda assim, olhando para a dinâmica específica do nosso mercado, a expectativa é positiva: historicamente, os meses de setembro a novembro costumam trazer um ritmo mais aquecido de demanda e tudo indica que esse padrão deve se repetir, sustentando bons resultados no período.
Um efeito esperado do advento da Inteligência Artificial (IA) é a fiscalização mais apurada da sonegação. Acha que essa ferramenta poderá zerar em definitivo o comércio informal de resinas por aumentar – em tese – a visibilidade fiscal de indústrias e seus fornecedores? Ou, na prática, a teoria deve continuar sendo outra no Brasil?
Sabemos que no Brasil sempre achamos uma forma ‘criativa’ de fazer negócios e achar brechas nas leis e processos, o que torna talvez mais difícil a regulamentação e a fiscalização. Todavia, a IA eleva o padrão de monitoramento (cruzamento de notas fiscais, logística, meios de pagamento etc), reduzindo zonas de segredo da informação. Tudo irá depender também de simplificação tributária, estabilidade regulatória e aplicação consistente.
Mas estamos sempre na expectativa de um controle maior da informalidade e de que o mercado legal tenha mais espaço. Eu apoio o posicionamento do nosso setor assumido pela Adirplast: seguimos defendendo, concorrência leal, compliance e ambiente de negócios previsível.
Como avalia o impacto do antidumping para PE dos EUA e Canadá aplicado num cenário de contração econômica do Brasil?
O Departamento de Defesa Comercial (Decom) recomendou a aplicação de direitos antidumping sobre PE norte-americano, com sobretaxas preliminares de US$ 199,04/t para os EUA e US$ 238,49/t para o Canadá. Esses valores representam um encarecimento de 20% a 27% no custo dos principais grades de PE importados dos EUA e Canadá.
Apesar de a demanda interna ainda apresentar sinais de fragilidade, a medida tende a gerar impactos relevantes no comércio local, em particular neste período em que, historicamente, observamos uma recuperação do consumo devido à sazonalidade do setor.
O processo do antidumping depende da aprovação do Comitê Executivo de Gestão (Gecex) e posterior publicação no Diário Oficial da União. No entanto, considerando o histórico do Brasil em casos semelhantes, é razoável esperar a efetivação da medida.
Diante desse cenário, é natural que importadores busquem alternativas em outras origens, como Oriente Médio e Ásia. Contudo, essa migração envolve custos logísticos mais altos, prazos de adaptação e eventuais limitações de disponibilidade e competitividade.
No médio prazo, acreditamos que essa ação trará maior equilíbrio para a indústria nacional e sua cadeia de distribuição, fortalecendo a competitividade do setor no Brasil.


