Crescimento a duras penas

Por que tem atenuado o dinamismo da expansão do setor no Brasil
Foto: Messe Düsseldorf / ctillmann
Sob a ótica do copo meio cheio, o consumo aparente (produção + importação – exportação) a transformação brasileira de plástico estreou no escalão das 8 milhões de toneladas (8,14 milhões) processadas. Pela percepção do copo meio vazio, o volume recorde manteve a praxe dos mirrados índices anuais de expansão estampados no retrospecto desde 2016 no relatório Perfil 2025 compilado pela Associação Brasileira da Indústria do Plástico (ABIPLAST) e focado no exercício de 2024. Este desempenho tímido, a ser reprisado este ano e sem previsão de mudanças decorre da martelada imagem do plástico de espelho do humor da economia, dada a presença do material em bens duráveis e de consumo imediato. Na prática, a contida demanda doméstica de transformados nos últimos anos retrata o peso de notórias coisas nossa – desde o populismo do governo e insegurança jurídica a consequências tipo inflação fora da meta, câmbio volátil, crédito caro e arisco, escalada da inadimplência e a segunda taxa real de juros do mundo. Para azedar o angu, reza o consenso na praça de que resina incide em média 70% do custo da produção de artefatos plásticos. A situação piora para a indústria transformadora na fechada economia brasileira em razão de as resinas nacionais serem mais caras e, não raro, menos disponíveis que as super ofertadas importadas. Estas, por seu turno, têm sido penalizadas pelo governo brasileiro com sobretaxas tarifárias a título de proteger mais ainda a defasada petroquímica local, Na prática, porém, o efeito dessas barreiras restringe-se ao óbvio aumento dos preços dos polímeros (repassado a toda a cadeia industrial) sem recuos nos volumes aqui desembarcados e, para nublar de vez o panorama, com possibilidades de avanço mais intenso das importações de transformados. Na entrevista a seguir, esta zona de turbulências e inquietações que o setor transformador atravessa é dissecada por José Ricardo Roriz Coelho, presidente do conselho da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (ABIPLAST).

“Não será com defesa comercial sobre matérias-primas que vamos conseguir prosperar como indústria”

José Ricardo Roriz Coelho, ABIPLAST

José Ricardo Roriz Coelho, ABIPLAST

De 2016 a 2019, o número de empresas transformadoras no Brasil caiu de 11.312 para 10.891. De 2020 a 2024, a quantidade subiu de 11.032 para 12.889. Como explica esses dois movimentos opostos num cenário nacional de enfraquecimento da indústria manufatureira em geral?

Esse comportamento decorre, em especial, do aumento do número de pequenos negócios abertos para produção de artefatos plásticos. Tratam-se de empresas pequenas que manufaturam peças simples e, por conta da classificação econômica, são reconhecidas como empresas transformadoras de plástico.
Vale salientar que o processo de industrialização tem a ver com a participação delas no PIB. Este movimento de unidades pode implicar desmembramentos e abertura de pequenos negócios, conforme fortemente observado no nosso setor.

PERFIL ABIPLAST 01

Fonte: Perfil Abiplast 2025

No plano geral, considera que as 1.587 empresas surgidas entre 2020 e 2024 sejam de novos entrantes na transformação ou de transformadores na ativa que constituíram novas razões sociais?

Como comentado na resposta anterior, grande parte dos novos entrantes consta de negócios muito simples de fornecimento de artefatos plásticos. Por conta da necessidade de serem enquadradas numa classificação econômica, suas atividades são relacionadas como indústrias transformadoras.

De 2016 a 2023 o número de empregos na transformação subiu de 305.725 para 363.368. Como conciliar este aumento com o empenho do setor em reduzir a intervenção humana nos processos mediante automação? E daqui por diante, com a inteligência artificial nas máquinas, o quadro de pessoal na produção de transformados caminha para encolher?

Nosso setor é um grande empregador de pessoal qualificado, mas sua produtividade acusa queda no período mencionado de 2016 a 2023. Com isso, precisamos de mais empregados para manter o nível da produção e esse é um gargalo e uma demanda do setor: ter acesso a mão de obra mais qualificada e de maior produtividade. O setor continua seus esforços nessa direção investindo na modernização, como o uso de recursos da indústria 4.0. Isso demonstra que, mesmo com essa tecnologia, a indústria transformadora nacional ainda necessita de muita interação humana para produzir, se relacionar com clientes, pesquisar e crescer. Reitero que esse pessoal entrante e atuante no mercado de trabalho precisa ser produtivo e qualificado.
Vladimir Oliveira Krisoll 2025

1 Pergunta

para Vladimir Oliveira

Diretor comercial da componedora Krisoll

Qual era, em janeiro, sua projeção para o desempenho da sua empresa em 2025 versus 2024, qual é esta mesma previsão hoje em dia e quais as razões para eventuais mudanças nessas suas estimativas?

“Devido ao seu amplo portfólio de soluções, os efeitos do mercado para a Krisoll em 2025 tiveram indicadores bem diferentes nos diversos segmentos de negócios. Porém, para o reduto do plástico de engenharia, o resultado acumulado está estimado em torno de 5% acima de 2024. Apesar de positivo, o saldo está aquém do planejado para este ano, projeção inicial traçada em função dos novos equipamentos que ampliaram em 30% nossa capacidade instalada de compostos”.

Em 2024, as exportações brasileiras de transformados (292.080 toneladas) ficaram no patamar de 2020. Como o Brasil pode crescer nesse comércio internacional se o seu eteno custa o triplo da referência mundial (EUA e Ásia)? Isso também explica a eterna liderança da Argentina, à sombra do Mercosul, como maior cliente externo dos transformados brasileiros?

Nossos principais parceiros comerciais são a América Latina e EUA. De forma geral, o mercado latino-americano não tem apresentado forte demanda e agora, com essa situação de tarifaço dos EUA, temos um baque ainda maior nas exportações de produtos transformados plásticos.
PERFIL ABIPLAST 02

Fonte: Perfil Abiplast 2025

A China já responde por 1/3 da produção mundial das resinas. Continua a investir na expansão das capacidades em busca de autossuficiência. Em meio ao excedente global, ela quer substituir plantas defasadas por outras de classe mundial e, para contornar a erosão das margens de lucro, a nova diretriz de Pequim é incrementar a exportação de artefatos plásticos. Em 2024, a China liderou com folga as exportações de transformados para o Brasil. Essa dianteira deve engrossar com a nova política de comércio exterior? E quais os segmentos da transformação brasileira mais ameaçados por essas importações rivais?

Este é um ponto que a ABIPLAST vem alertando o governo e sociedade há tempos. A China vem assumindo a liderança como a grande fábrica do mundo e tem como principal mercado externo os EUA. Em cenário de redução do comércio entre China e EUA, o excedente produtivo chines será direcionado a outros mercados potenciais e o Brasil é um deles. Já no Brasil vemos diversas políticas sendo adotadas para proteger a indústria petroquímica de importações. Estas barreiras tarifárias vêm sendo repassadas para melhora das margens de lucro da produção nacional de resinas. Entretanto, quase 60% das importações brasileiras de termoplásticos são provenientes da China e, se ela não exportar seus excedentes, vai processar internamente e exportar esse material transformado já com valor adicionado. Presenciamos forte crescimento na importação de diversas categorias de artefatos plásticos da China. Podemos citar como exemplo a codificação ‘outros plásticos’ (engloba produtos como capas de celulares, estojos etc), que ampliou em 34% o volume de importação no ano passado. Com base no mesmo critério, as importações de revestimentos de PVC, saltaram 53%; de polipropileno biorientado (BOPP), 65% e em películas de polietileno (PE), PET e PVC foram aferidos aumentos de até 150% (caso de filmes PET). No segmento de utilidades domésticas, a China responde por 89% das importações brasileiras que, por sinal, cresceram 54% em volume em 2024. Defendemos a tese de que não será com defesa comercial sobre matérias-primas que vamos conseguir prosperar como indústria, pois cada vez mais teremos produtos acabados menos competitivos perante as importações chinesas. A forma de competir em pé de igualdade nos custos com essas importações seria uma produção com acesso amplo e diversificado de matérias-primas.
Roberta Fantinati da Termocolor

1 Pergunta

para Roberta Fantinati

diretora administrativa e comercial da componedora Termocolor

Qual era, em janeiro, sua projeção para o desempenho da sua empresa em 2025 versus 2024, qual é esta mesma previsão hoje em dia e quais as razões para eventuais mudanças nessas suas estimativas?

“Em janeiro, a Termocolor projetava crescimento aproximado de 17% no volume de vendas para 2025, em relação a 2024. A previsão baseava-se na estabilidade da demanda observada em 2023 e no aumento de 6% na capacidade produtiva registrado no primeiro semestre de 2024 – fatores que indicavam um cenário promissor de expansão, sustentado pela fidelização de clientes e pela eficiência operacional. Ao longo do ano, porém, o contexto econômico apresentou mudanças relevantes. O início de 2025 foi marcado por um ambiente desafiador, impulsionado pela alta do dólar, pela implementação de políticas antidumping que afetaram matérias-primas essenciais nas formulações da empresa e por um cenário macroeconômico mundial conturbado.
Entre os fatores externos, destacam-se: oscilações de mercado, que impactaram a previsibilidade da demanda, em especial no segundo semestre; incertezas econômicas e políticas, que afetaram a confiança e o ritmo de compra de alguns segmentos de clientes; aumento nos custos de insumos e logística, exigindo ajustes operacionais e comerciais para preservação da competitividade.
Todas essas condições levaram à revisão da projeção inicial. A expectativa atual da Termocolor aponta para crescimento mais moderado, em torno de 2% em relação a 2024. Ainda assim, a empresa mantém sua trajetória de crescimento sustentável, apoiada em estratégias de expansão para novos segmentos, aumento de market share e uma carteira contendo um punhado de clientes que estão conosco há mais de 40 anos ininterruptos”.

Em janeiro de 2024, o governo instituiu a política industrial Nova Indústria Brasil (NIB), vitaminada com financiamento público. Qual o montante já destinado à indústria transformadora de plástico?

Empresas do nosso setor captaram, desde 2024, pouco mais de R$ 1 bilhão no âmbito do Plano Mais Produção (conjunto de iniciativas para viabilizar o financiamento no âmbito da NIB) junto ao BNDES. Esses recursos foram destinados a projetos de aumento de produtividade e inovação e entre as empresas contempladas temos os mais diferentes perfis de atuação, a exemplo de produtoras de embalagens, de peças e componentes injetados e recicladoras.

No levantamento de 2024 da Abiplast, das 15 principais origens de importações brasileiras de transformados sete são da Ásia, correspondendo a cerca de 70% das 971.080 toneladas então desembarcadas. Quais os principais tipos específicos de transformados flexíveis e rígidos exportados da Ásia para o Brasil em 2024?

São filmes e chapas de PE, PP, PVC e BOPP dos mais diversos tipos. Tratam-se de produtos tradeables e têm valor adicionado sobre a resina. A Ásia – e especificamente a China – já tem uma grande participação na pauta da importação brasileira de resinas. Sua participação tende a crescer caso a China tenha que buscar mais mercados além dos EUA para escoar sua produção excedente.
PERFIL ABIPLAST 03

Fonte: Perfil Abiplast 2025

Quais os efeitos práticos causados na cadeia plástica nacional pelas barreiras tarifárias impostas pelo Brasil sobre os volumes importados de PP, PE e PVC em 2024?

Na prática, os efeitos são reflexos nos preços domésticos dessas matérias-primas. Isso diminui a competitividade do produto acabado de plástico frente ao concorrente internacional e viabiliza a consequente ampliação da entrada de transformados importados.
Silvio Davi Pires diretor comercial da fabricante de extrusoras Rulli Standard

1 Pergunta

Para Sílvio Davi Pires

diretor comercial da fabricante de extrusoras Rulli Standard

Qual era, em janeiro, sua projeção para o desempenho da sua empresa em 2025 versus 2024, qual é esta mesma previsão hoje em dia e quais as razões para eventuais mudanças nessas suas estimativas?

“No plano geral, diante das altas taxas de juros e impostos, mercado globalizado, política nacional e externa e o tarifaço de Trump (a Rulli tem filial comercial nos EUA), o empresário precisa de jogo de cintura e ser guerreiro para encarar os muitos altos e baixos da nossa economia instável. Para dar uma ideia, em uma semana se vende o que era para ser faturado em três ou quatro meses e, de repente, se passa dois ou três meses com movimento abaixo do que deveria vender. Apesar de tudo isso, vamos superar este ano em torno de 20% as vendas de 2024. Para 2026 a perspectiva se mantém uma incógnita, pois é ano de muitos feriados, tem carnaval, Páscoa com dias estendidos de descanso, tem eleição – e é grande a indefinição sobre qual rumo o país tomará, deixando o empresário receoso de investir pois não sabe o que vai acontecer. Tem também a Copa do Mundo; são 30 dias em que o pessoal trabalha com a cabeça lá no futebol. No entanto, contamos também com as exportações – elas devem proporcionar um equilíbrio nas vendas e, desse modo, nossa expectativa é de que o volume geral de negócios se mantenha em 2026 nos mesmos patamares deste ano. O apoio das exportações será essencial”.

O crescimento da transformação brasileira de PVC e poliolefinas deve se apoiar daqui para a frente primordialmente nas importações, sob pressão do excedente global e da falta de competitividade econômica da petroquímica nacional? Essa dependência externa prejudica ou não as novas decisões de investimentos?

Não queremos a dependência externa, pois o melhor para a indústria é ter fornecimento competitivo no mercado interno e agregar valor à produção aqui. O que defendemos é que haja investimento na expansão da capacidade doméstica e que esse produto seja competitivo para podermos enfrentar a concorrência internacional. Para tanto, existem estratégias como desenvolver fontes alternativas de matérias-primas, aumentar o uso da rota do gás natural para a petroquímica, entre outros modelos que devem ser pensados e estruturados como plano de desenvolvimento da cadeia plástica. 

Por que a produção brasileira de transformados em 2024 – 7.46 milhões de toneladas – foi recorde no histórico desde 2016 e com qual grau de ocupação da capacidade instalada o setor operou no ano passado? Como avalia este nível de ocupação?

O nível médio de utilização este ano da capacidade instalada do setor de artefatos plásticos está em 69%. No ano passado o índice médio estava em 68%, sem grandes excedentes. É um percentual que podemos considerar adequado e mostra que ainda há fôlego na transformação para assegurar crescimento de produção sem pressionar a necessidade de grandes investimentos.

Como já estamos no último trimestre do ano, qual a sua atual projeção do desempenho da transformação em 2025 versus 2024, qual era esta mesma previsão no início do ano e quais as razões das eventuais mudanças nessas suas estimativas?

Estimamos que o ano termine com um crescimento de 2% frente ao resultado de 2024, um resultado que mostra uma redução no dinamismo de crescimento desse setor frente aos resultados dos anos anteriores. De forma geral, a demanda da indústria veio mostrando ao longo de 2025 sinais de estagnação e isso se refletiu no desempenho do setor de transformação de plástico. Desde o início do ano, já se refletiam em nossas sondagens que 2025 seria um exercício de menor crescimento. As últimas enquetes do empresariado demonstram uma visão um pouco otimista para estes últimos meses do ano, o que nos faz manter essa estimativa de fechamento ao redor de 2%. •

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