“Devido ao aumento na taxa de juros, dos custos fixos incrementais devido à regulação e pela redução no índice de confiança do consumidor brasileiro, o crescimento das vendas de automóveis e comerciais leves que projetamos leva a 2,64 milhões de veículos, crescimento de 6,4% versus 2024 (2,48 milhões de unidades). Se esses fatores passarem por uma inflexão favorável, poderemos ter volumes maiores e ultrapassar 2019. A torcida permanece”. A expectativa de Cassio Pagliarini, chief marketing officer da consultoria especializada Bright Consulting, anda em linha com a estimativa de 2.7 milhões de unidades de autos comercializadas no decorrer de 2025 divulgada pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Ambas as previsões, aliás, acentuam a permanência de um preocupante grau de ociosidade numa capacidade nominal de 4,4 milhões de veículos no país. Mesmo assim, o maior nicho dos plásticos em carros, o de compostos de polipropileno (PP) não esmorece o pique dos desenvolvimentos e mantém acesa a fé numa arrancada consistente da demanda, como demonstra nesta entrevista Celso Ferraz, diretor geral da turbo componedora Mitsui Prime Advanced Composites do Brasil.
No mundo e no Brasil, o reciclado perde espaço para o superofertado e acessível plástico virgem. O fator preço tem levado muitos brand owners e transformadores a preferirem a resina nova em folha, deixando em segundo plano o apoio à sustentabilidade. Diante dessa mudança em curso, a intensa oferta de compostos contendo resina reciclada, como os de PP, caminha para o declínio?
Não vejo dessa forma, nem aqui nem em outras regiões do mundo. Uma coisa são os movimentos de preços das commodities, que atravessam um período de grande oferta, intensificada pela entrada de novas capacidades produtivas e que impactam direto a precificação – em especial, em regiões com excesso de oferta. Outra questão, bem distinta, é o compromisso com a descarbonização da indústria, algo indispensável a todos os setores na busca por um mundo mais sustentável e na prevenção de danos irreversíveis ao planeta.
Nesse sentido, diversas ações estão em andamento, como o uso de materiais reciclados pós-consumo, uma iniciativa nobre na redução da pegada de carbono e com a qual nosso grupo está firmemente comprometido, principalmente no setor automotivo. É um caminho já adotado pelos principais players globais no setor.
“Independentemente de governo, o setor automotivo segue na direção certa – embora em ritmo mais lento que o de regiões mais maduras”
Celso Ferraz / Mitsui Prime Advanced Composites do Brasil
Juros exorbitantes, inadimplência, crédito travado, câmbio volátil, encarecimento de matérias-primas e poder aquisitivo tensionado marcaram o Brasil no 1º semestre, em particular o maior cliente da Mitsui Prime, o setor automotivo. Como vê o desempenho da indústria este ano?
Não vejo o mercado automotivo com números ruins neste ano. Apesar dos juros em 15% e da inflação acima do teto, o câmbio tem se mantido dentro das expectativas traçadas pelo setor para 2025. O Brasil encerrou os nove primeiros meses do ano com mais de 1.8 milhão de unidades de carros e comerciais leves emplacadas, além de mais de 101.000 caminhões e ônibus. Assim, até o momento (nota: até a publicação deste texto), o mercado registra um crescimento de 3,3% em carros e 2,8% no total de veículos – um desempenho positivo, considerando que mais de 355.000 unidades importadas foram emplacadas.
Também vale destacar o avanço expressivo nas exportações de automóveis, que aumentaram cerca de 50% em relação ao mesmo período de 2024. Esse resultado reforça a relevância do crescimento de 6% na produção nacional de veículos, em particular num ano tão desafiador.
Cabe lembrar que o Brasil ainda enfrenta a concorrência dos veículos chineses, tanto no mercado interno quanto nos países onde estamos expandindo nossa presença. Olhando para os próximos cinco anos, as projeções para a região (nota: Brasil e países da América do Sul com produção automotiva) apontam para um crescimento médio entre 4% e 5% ao ano, sem falar no grande gap ainda existente de consumo de autos em relação aos mercados maduros.
No Brasil, 2026 é ano eleitoral, período em que o governo aquece pontualmente a economia em busca de votos. Acredita que essa retomada pontual também beneficie bens duráveis como carros, movidos por vendas financiadas a prazo e hoje freadas por juros exorbitantes?
De fato, a política pode influenciar a regulamentação do setor automotivo por meio de emendas que visam conceder benefícios fiscais – como ocorreu recentemente com a medida anunciada pelo governo em 10 de julho último. Foi instituída dentro do programa MOVER, que prevê a isenção ou redução do IPI conforme critérios técnicos como redução de emissões e uso de matérias-primas recicláveis ou recicladas. Essa iniciativa impactou positivamente as vendas de diversos modelos, especialmente os de entrada.
O viés eleitoral pode favorecer o setor, mas tratam-se de ações pontuais, que colaboram de forma geral, embora nem sempre se sustentem ao longo do tempo. O que realmente consolida o futuro da indústria são políticas e regulações claras, que definam metas e o posicionamento do Brasil em seu programa de mobilidade verde e inovação.
Acredito que, independentemente de governo, estamos seguindo na direção certa – embora em ritmo mais lento que o de regiões mais maduras. A regulamentação é fundamental para o sucesso deste setor tão relevante, que responde por cerca de 20% do PIB industrial do país.
Quais as principais soluções introduzidas este ano no seu portfólio de compostos para peças aparentes, peças estruturais, peças funcionais e peças de segurança no universo automotivo?
Buscamos constantemente introduzir soluções em sustentabilidade, compostos avançados com efeitos metalizados e alternativas únicas no gênero que eliminam a necessidade de pintura, além de produtos reforçados para aplicações estruturais que oferecem enormes benefícios em relação ao metal e outros sucedâneos.
Também avançamos significativamente no desenvolvimento de materiais com elevadíssima estabilidade dimensional e aparência, que proporcionam peças injetadas mais leves e isentas de marcas de fluxo, com paredes mais finas e elevada resistência ao impacto, mesmo sob condições extremas de temperaturas – muito baixas como -30ºC ou muito elevadas. Esta tecnologia tem sido empregada, em particular, nas aplicações de segurança dos carros.
Quais as suas novidades no Brasil em termos de compostos de PP que substituem contratipos de outros materiais em peças automotivas?
Estamos apresentando a clientes daqui soluções que deslocam componentes metálicos, mudança bem sucedida em outras regiões. Por exemplo, a introdução – exclusiva do nosso grupo – de compostos de fibra longa aplicados em peças aparentes coloridas, substituindo metal.
A redução de peso dos veículos é essencial – tanto para aprimorar a eficiência e reduzir emissões, quanto para aumentar a autonomia dos carros elétricos e híbridos, em fase de expansão na nossa região. Hoje dia, dispomos de diversas soluções nessa direção em fase de desenvolvimento e outras já implementadas, como produtos de baixíssima variação dimensional, mesmo diante de variações de temperatura. Esses tipos de PP beneficiado podem ser utilizados em peças externas e internas, oferecendo ganhos substanciais nas propriedades mecânicas, densidade reduzida e, em consequência, peças mais leves, eventualmente mais finas, a custo adequado.
Outras inovações, como os compostos de PP com efeitos metálicos voltados à eliminação de pintura e os compostos para aplicações estruturais, devem ganhar espaço na substituição de materiais alternativos, devido à redução de peso, custos mais competitivos e atributos sustentáveis.
Eletrificados já são cerca de 10% das vendas de autos de passeio no Brasil. Qual o peso médio unitário de composto de PP num carro-padrão a gasolina e num elétrico?
O peso dos compostos nos veículos varia conforme sua classificação e porte. Em geral, compactos de entrada utilizam menor volume de compostos que modelos de maior porte. No Brasil, o peso médio de compostos por veículo de passeio pode variar de 50 kg a mais de 70 kg. À medida em que a tecnologia embarcada aumenta, é natural que esse peso também cresça.
Os compostos vêm sendo continuamente aprimorados e já estão presentes em uma ampla gama de aplicações nos carros movidos a combustão- desde coletores de admissão a estruturas complexas antes metálicas. Com a eletrificação, surgem novas oportunidades em aplicações estruturais, considerando que as baterias ocupam parte substancial do veículo. Isso impulsiona a busca por soluções de compostos para aplicações convencionais e novas ou pouco exploradas.
O Brasil, por sua vez, caminha de forma consistente para se consolidar como grande produtor de veículos híbridos, impulsionado por diversos fatores. Entre eles, a infraestrutura ainda limitada e o alto custo das baterias dos veículos elétricos. Isso afeta o valor de revenda deles veículos, aspecto mercadológico relevante em nossa região.
Hoje em dia, híbridos flex a etanol despontam como a melhor solução para o mercado brasileiro, pois proporcionam redução das emissões de CO₂ em níveis mais eficientes que os dos veículos 100% elétricos. O motor a combustão desses modelos amplia as oportunidades para redução de seu peso e uso de materiais sustentáveis. Além disso, a incorporação dos novos pacotes de segurança obrigatórios estimula o avanço tecnológico e reforça a importância de soluções de engenharia que equilibrem sustentabilidade, leveza e desempenho.
Mitsui Chemicals, Idemitsu Kosan e Sumitomo Chemical estão unindo seus ativos em poliolefinas no Japão, joint venture que deve contar com capacidade da ordem de 1.6 milhão de t/a de PP. Essa transação, a ser finalizada em 2026 e decorrente do excedente global de PP e PE, pode ter reflexos no suprimento da Mitsui Prime (nota: integrante do conglomerado Mitsui Chemicals) no Brasil?
Os movimentos de fusões e aquisições são comuns nos setores químico e petroquímico. A Prime Polymer, joint venture criada em 2005 entre a Mitsui Chemicals (65%) e a Idemitsu Kosan (35%), demonstrou que essas sinergias são extremamente bem-vindas e estratégicas. A entrada da Sumitomo na Prime Polymer ocorrerá por meio de participação nos ativos petroquímicos no Japão, tendo pouco ou talvez nenhum impacto nas operações das empresas no exterior.


