A estrada tortuosa para PS e estireno no Brasil

Unigel fecha 2 fábricas vergada por RJ e excedente internacional sem trégua
A estrada tortuosa para PS e estireno no Brasil

Agrura proveniente do fim do último ciclo global de investimentos petroquímicos (1992-2021), o excedente mamute de resinas tem escalpelado as margens do setor. Para estancar a sangria dos balanços, o consenso no mercado clama pela racionalização urgente da oferta mediante fechamento de plantas defasadas e/ou sediadas em regiões de matéria-prima não competitiva. Hoje em dia, essa reação pontifica em crackers e fábricas de poliolefinas, em especial na Europa, mas também dá as caras em resinas como PVC e poliestireno (PS) nos EUA e começa a desembarcar no Brasil. A combinação ácida da super sobra mundial de estirênicos com a noticiada entrada em recuperação judicial (RJ), movida por dívida da ordem de R$ 5,4 bilhões, forçou o conglomerado Unigel a comunicar à praça em janeiro o fechamento de duas fábricas obsoletas no Estado de São Paulo: a de 190.000 t/a de PS em São José dos Campos e a de 120.000 t/a de estireno em Cubatão. Restam ao grupo a planta de 160.000 t/a do monômero no polo da Bahia e a de 120.000 no Guarujá (SP). O impacto da prostração da Unigel, perspectivas para o mercado interno e sua interação com a tempestade armada pelo excedente global de estirênicos compõem o caldo grosso desta entrevista de Flávio Ferreira da Silva, CEO da consultoria OHXIDE. A Unigel não quis se manifestar.  

Unigel anunciou o fechamento das plantas de 120.000 t/a de estireno em Cubatão e de 190.000 t/a de PS em São José dos Campos. As consequentes importações desses materiais podem superar a capacidade nacional já este ano?

A Unigel fez este anúncio com base no cenário atual de baixas margens globais e demanda instável no Brasil. Além disso, a empresa informa que sua produção de PS será encargo apenas da planta no Guarujá. Ou seja, a empresa decidiu paralisar a planta de estireno em Cubatão, mantendo somente a de Camaçari (BA), e concentrar a atividade de PS também numa única fábrica, com objetivo de melhorar as margens através de aumento da taxa operacional das unidades.

Não vejo as importações de estireno e PS superando a capacidade nacional este ano nem nos próximos. Porém, os desembarques dos dois materiais devem subir, sim, principalmente em relação ao monômero que alimentará parte da unidade restante de PS da Unigel. Em 2025, por sinal, as importações de PS atingiram 124.020 toneladas contra 115.093 em 2024 (fonte: Secex, inclusos PS e EPS). 

Dada a baixa competitividade, a Unigel não tem conseguido operar suas unidades em nível rentável, daí a concentração de capacidades. Entendo que não teremos redução no volume ofertado pela empresa ao mercado. Por isso, não vejo alterações no balanço relativo às importações. Elas devem crescer no mesmo ritmo notado nos últimos anos.

“Vejo risco de encerramento para as demais unidades da Unigel, pois são tecnologicamente mais antigas, logisticamente desconectadas e a empresa tem problemas financeiros graves”

Flávio Ferreira da Silva, OHXIDE

Flávio Ferreira da Silva da OHXIDE

Ao lado da demanda global comedida, a prevista continuidade nos próximos anos do excedente de estireno/PS e a influência em preços do eteno dos EUA (via gás/etano), três vezes mais barato que o brasileiro (via nafta), podem levar ao fechamento de outras plantas de estirênicos no Brasil?

Assim como ocorre em toda a indústria petroquímica, a cadeia de estirênicos sofre pressão pela alta oferta global, apesar de seu excedente inferior em proporção ao de poliolefinas. Além dos ativos da Unigel, a capacidade brasileira de estirênicos se completa com a fábrica de PS da Innova em Manaus (195.000 t/a), suprida com monômero dos EUA e o complexo no polo gaúcho de Triunfo (420.000 t/a de estireno e 250.000 de PS), alimentado por eteno e benzeno do cracker local da Braskem.

Embora o estireno americano seja mais competitivo que o nosso, convém ter em mente que, para o custo do monômero, benzeno é muito mais impactante que eteno. Ou seja, o impacto do gás americano no custo fica menos expressivo na cadeia dos estirênicos. Além disso, é preciso considerar  o relevante gasto de energia na produção de etilbenzeno, intermediário do estireno.

Das fábricas em operação no Brasil, vejo risco de encerramento para as demais unidades da Unigel, pois são tecnologicamente mais antigas, logisticamente desconectadas e a empresa tem problemas financeiros graves.

PS: viés ambientalista menospreza atrativos do polímero para termoformagem.

PS: viés ambientalista menospreza atrativos do polímero para termoformagem.

O fato de uma unidade de PS do Brasil (da Innova em Manaus) ser suprida com estireno importado explicaria a ausência de pedidos de antidumping para a resina e estireno do exterior, sob a justificativa dos preços inferiores da superoferta global?

Historicamente, as importações de PS no Brasil andavam no patamar de 60-70.000 t/a. Ou seja, cerca de 10 a 15% da demanda, o que não incomodava os produtores locais. A partir de 2023, este número saltou para cerca de 90.000 e agora está na casa das 120.000 t/a. Já começa a atingir mais de 20 a 25% da demanda local. Porém, este aumento, se deve mais a uma redução na produção da Unigel ao longo dos anos e menos ao avanço de traders e distribuidores de PS no país.

Sobre as importações de estireno, analisando-se o histórico desde 2010, veremos que os volumes estavam em queda, com a planta da Innova em Triunfo entrando cada vez mais no mercado e assim foi até 2016. Aí ocorreu a partida da unidade de 25.000 t/a (capacidade atual de 50.000 t/a) de PS expansível (EPS) da empresa, consumindo parte do estireno que a Innova destinava ao mercado. Então, o volume do material importado voltou a subir. Bateu no pico de 238.000 toneladas em 2020, por conta do efeito pandemia e, em 2024. atingiu 226.000 toneladas, reduzindo bastante no ano passado para 174.000. Vale frisar que, em média, 115.000 toneladas do monômero internado seguiram para a planta de PS em Manaus e a maior parte da quantidade restante destinou-se a aplicações como borracha sintética, principalmente.

Então, de fato, não há ainda um “incômodo” dos dois produtores locais com as importações, além do fato que um deles importa grande volume de estireno para consumo próprio todo ano. Logo, um pedido de dumping, como mencionado na pergunta, seria um gol contra na rentabilidade.

As plantas de estireno em Camaçari e de PS no Guarujá mantidas pela Unigel são tão antigas e defasadas em custos, tecnologia e escala quanto as unidades agora encerradas pela empresa. A combinação da RJ da companhia com importações acessíveis e demanda interna moderada pode levar ao fechamento em breve das duas plantas remanescentes?

Como já comentei, sim, podem. Inclusive, caso ocorra mais algum fechamento de unidade no Brasil por conta de competitividade, seriam estas plantas da Unigel as mais prováveis no campo dos estirênicos.

Explorando um pouco mais o tema, a China era país importador de estireno, acredito que o maior importador do monômero americano. Porém, com os investimentos em unidades locais, esse dinâmica mudou no início dos anos 2020 e resultou, basicamente, em dois impactos no mercado global de estirênicos. O primeiro foi a eliminação de destino do monômero americano exportado para a  Ásia. Com isso as plantas americanas passaram a ter dificuldades operacionais e queda na rentabilidade. O segundo baque foi uma mudança na dinâmica dos preços globais, que passaram a ser muito mais influenciados pela Ásia.

Obrigatoriamente, as unidades americanas olham para as regiões mais próximas com objetivo de vender seus produtos. Isso cria maior competição e impacta os produtores locais.

Sustentabilidade: baixo índice de coleta e triagem meticulosa de resíduos distinguem reciclagem de embalagens de PS.

Sustentabilidade: baixo índice de coleta e triagem meticulosa de resíduos distinguem reciclagem de embalagens de PS.

Embalagens pós-consumo de PS são resíduos de baixo índice de coleta e de reciclagem mais trabalhosa e menos volumosa e rentável. No plano da sustentabilidade, como vê o futuro de PS em embalagens de alimentos disputadas também por PP e PET? E quais as perspectivas para PS diante de um alvo da rejeição ambientalista: os artigos descartáveis?

Sim, concordo que PS terá muita dificuldade no quesito sustentabilidade para aplicações de uso único (descartáveis). O polímero tem pontos fortes nas aplicações, como brilho, rigidez e facilidade de termoformagem, porém a dificuldade na reciclagem tem levado empresas (indústrias alimentícias) a relegar estes atributos para segundo plano na seleção do material das suas embalagens.

Cabe deixar claro aqui que o problema maior não é o material (PS) e, sim, as embalagens ou produtos de PS (copinhos, bandejas, pote de iogurte) que costumam chegar sujos e fragmentados às centrais de triagem de sucata adequada à reciclagem. Isso torna o processo de separação e lavagem dos resíduos de PS mais custoso, trabalhoso e demorado, o que. no final, se reflete no custo da resina reciclada. No âmbito de PS cristal, um de seus nichos-chave é justo o de descartáveis, o mais atacado pelos ambientalistas de plantão. Por sua vez, EPS, apesar de registrar aumento do uso em novas aplicações de menor impacto ambiental, como construção civil, também enfrenta problemas de reciclabilidade, pois seu transporte fica muito oneroso, devido à relação peso/volume do material. EPS deve focar aplicações com baixa concorrência de substitutos.

No comparativo com PET e PP, PS ainda sobrevive ainda devido às características físico-químicas superiores para determinadas aplicações, como a cristalinidade, processabilidade com baixo consumo de energia e por viabilizar a termoformagem em múltiplas camadas. 

No curto e médio prazo ainda é cedo para afirmar que PS sairá dessas aplicações. Seu uso perdurará enquanto houver dependência tecnológica e de custo. Por exemplo, indústrias de alimentos precisariam trocar as linhas envase para o trabalho com materiais substitutos, o que envolve pesados investimentos. Mas, em algum momento, terminada a vida útil dessas máquinas, isso ocorrerá.

Portanto, olhando do médio prazo em diante, com certeza o futuro do PS não estará no copo descartável ou na bandeja de iogurte, mas no PS de alto impacto (PSAI) e em sua participação em blendas técnicas para componentes eletrônicos, interiores de geladeiras e itens do setor médico. São mercados de maior valor agregado, nos quais a durabilidade do produto justifica o uso do material e facilita a logística reversa pós-consumo industrial.

O Brasil integra o grupo menor de países que adotam PS em lugar de copolímero de acrilonitrila butadieno estireno (ABS) em componentes do interior de geladeiras. A produção nacional de PS, agora mais limitada, deve abrir caminho para ABS importado nos refrigeradores montados no país?

Sim, de fato o uso de PS em refrigeradores ocorre aqui, acredito, que por ausência de ABS nacional. No entanto, não vejo um caminho no curto prazo para ABS para essa aplicação no Brasil, pois a produção local de PS não reduzirá. Como a Unigel colocou no comunicado ao mercado sobre o fechamento das mencionadas duas plantas de estireno e PS, ela irá concentrar a produção do polímero no Guarujá. Então, entendo que deve manter, aproximadamente, o volume total que tem produzido.

A questão é: de qual tipo de poliestireno será esta produção concentrada na unidade do Guarujá? Afinal, o material utilizado no interior de geladeiras é o da resina de alto impacto, que contém na sua composição borracha sintética (polibutadieno).

Na pergunta anterior, explanei que este tipo de aplicação deve ser uma tendência no médio prazo em diante. Então, as petroquímicas locais tenderão a buscar concentrar sua produção em grades de PS que atendam esta demanda da linha branca.

Interior de geladeiras: nicho seguro e de alto valor agregado para PSAI no Brasil.

Interior de geladeiras: nicho seguro e de alto valor agregado para PSAI no Brasil.

Por quais motivos prossegue a escassez de investimentos na capacidade internacional de PS e estireno, inclusive nos EUA à sombra do gás natural mais barato do planeta?

Como já disse, grandes investimentos foram realizados cadeia de estirênicos da Ásia, durante o final da década anterior e início desta. Isso gerou sobreoferta mundial. Desde então, ela inibe investimentos em novas capacidades, mesmo em regiões que talvez tivessem “espaço” local para isso. Nos EUA, a situação foi muito afetada pelas expansões asiáticas. Apesar do gás americano barato, no caso da cadeia de estirênicos isso é só uma parte da competitividade. E reitero tratar-se de uma parte menor, não permitindo uma competição como vemos na cadeia dos polietilenos.

Como estireno e PS (seu principal derivado direto) são, em termos de massa, mais impactados em custos pelo benzeno, isso diminui bastante a competitividade americana em estirênicos. Afinal um cracker base gás (etano) gera muito pouca quantidade de aromáticos, sendo necessário para tanto recorrer ao benzeno oriundo de outra matéria-prima, a exemplo da nafta.

Na América do Norte, Westlake e Ineos fecharam recentemente suas plantas de estireno. Por sua vez, TotalEnergies e Sabic cogitam desde 2023 vender seu complexo nos EUA com capacidade de 1.2 milhão de t/a de estireno e PS. Por fim, Trinseo e Chevron Phillips Chemical seguem empenhadas na oferta à praça da petroquímica integrada (monômero e polímero) Americas Styrenics, sediada no Texas e com cinco plantas nos EUA e uma na Colômbia. A capacidade norte-americana de PS e estireno tem rodado com ociosidade preocupante. Quais as consequências geradas por esta conjuntura nos EUA para o cenário mundial de estirênicos?

Devem ser as seguintes:

  • Dependência maior de regiões orientais (China, em especial) na dinâmica do setor.
  • Num primeiro momento, as empresas tendem a buscar novos mercados, mesmo arcando com baixas margens em vez de paralisar ou reduzir suas operações. Nesse cenário, portanto, o risco para o Brasil é de se tornar um alvo preferencial de desova de material internacional, gerando excesso de oferta interna e com isso, dificuldades para os dois produtores locais.
  • Segundo risco desse cenário para o Brasil: tornar sua produção de estireno quase inviável e tornar a produção de derivados do monômero dependente de importados de forma estrutural. Isso torna toda a cadeia vulnerável. É uma análise bem estratégica, ainda com risco baixo, mas factível.

Do lado positivo da análise:

  • Caso ocorram reduções da produção americana, o mercado nas Américas fica mais equilibrado, potencializando melhores cenários de margens para produtores nacionais.
  • Opção de as empresas nacionais focarem em especialidades do setor, como já comentei sobre PSAI em aplicações de melhor valor agregado.
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