Subtraídas as despesas com itens essenciais e pagamentos dos serviços de dívidas, a renda restante para o consumo das famílias beira hoje os níveis mais rasos desde 2011, atesta estudo da consultoria Tendências. Ao fundo dessa descida, os espinhentos juros de 14% ao ano têm diluído o impacto dos estímulos assistencialistas na economia, como facilidades de crédito e benefícios fiscais, ativados pelo governo focado nas eleições de outubro. De olho na bomba-relógio da inadimplência (recorde de 75.08 milhões de pessoas em julho, calcula pesquisa SPC Brasil/CNDL), analistas em peso dão por terminado o ciclo de crescimento sustentado pelo consumo e pululam agora as previsões de aumento do PIB abaixo de 2% este ano, arquivando a expectativa apregoada em janeiro de salto acima de 2%. Bússola do bolso da população e do giro dos bens não duráveis, as embalagens plásticas flexíveis captam esta reviravolta da demanda no percurso do primeiro semestre. Estudo da consultoria MaxiQuim encomendado pela Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Plásticas Flexíveis (ABIEF) relata consumo aparente de 1.164.000 toneladas de janeiro a junho último, recuo de 0,8% versus mesmo período em 2025. O total embute produção nacional de 1.140 milhão de toneladas de flexíveis, com queda de 0,7% perante o mesmo semestre no ano passado, importações de 69.000 toneladas, indicando salto de 33,34% sobre a mesma época um ano antes e exportações restritas a 45.000 toneladas na metade inicial de 2026, traduzindo declínio de 30,7% diante do primeiro semestre de 2025. Com o acréscimo da guerra no Irã, a situação do setor anda mais tensa desde o segundo trimestre, com a retração de redutos-chave como alimentos e com a erupção de importações concorrentes de flexíveis (em especial da Ásia), além da conjuntura volátil que hoje inibe previsões e investimentos, deixa claro na entrevista seguir Eduardo Berkovitz, presidente da ABIEF.
“Nosso setor pode revigorar com a melhora da demanda neste semestre, mas seguirá limitado pela forte presença de produtos importados”
Eduardo Berkovitz, ABIEF
No segundo trimestre, o Brasil consumiu 18.400 toneladas de flexíveis a mais do que produziu. Por que a produção nacional caiu para 565.000 toneladas, recuando 1,7% frente ao primeiro trimestre?
A produção caiu porque o crescimento da demanda foi absorvido pelas importações. No segundo trimestre, o consumo cresceu 0,5%, chegando a 583.400 toneladas, enquanto as importações subiram 38,8%, atingindo 40.000 toneladas, e as exportações recuaram para 22.000. O déficit comercial de 18.400 toneladas corresponde exatamente à diferença entre consumo e produção. Pesou ainda a retração dos dois maiores mercados consumidores: alimentos, com queda de 3,3%, e bebidas, de 3,9%.
Também devemos considerar que, com o impacto do conflito EUA/Irã, as empresas transformadoras de flexíveis tenham consumido estoques enquanto aguardavam a queda de preços das matérias-primas.
As importações de filmes e embalagens plásticas flexíveis pelo Brasil somaram 69.000 toneladas no primeiro semestre, crescimento de 33,4% sobre o mesmo período em 2025. Quais as principais origens dessas importações e quais os tipos específicos de filmes e embalagens flexíveis que as lideraram as compras externas brasileiras?
As principais origens são China, Índia, Paraguai e Colômbia e os principais produtos internados englobam chapas/filmes, sacos/sacolas e BOPP. O avanço nas importações está concentrado, em especial, em filmes de polietileno (PE), polipropileno (PP) e em sacos e sacolas. Tratam-se, em suma, de flexíveis favorecidos pela grande escala, menor custo das resinas e a elevada automação dos transformadores asiáticos.
Consumo de alimentos: desaceleração da economia e inadimplência abalam o maior mercado de embalagens flexíveis
Em 2025, a indústria nacional de filmes e embalagens flexíveis operou com ocupação de 70,4% de sua capacidade nominal de 3.297 milhões de t/a. Qual o índice de ocupação no primeiro semestre de 2026? A capacidade nominal mudou ou deve mudar até dezembro?
Com a produção de 1.140 milhão de toneladas no primeiro semestre, o setor operou em ritmo equivalente a 69,2% de sua capacidade anual. Isso significa que uma parcela da ordem de 30,8% da capacidade instalada permaneceu ociosa, índice ligeiramente superior aos 29,6% registrados em 2025. Não há indicação de mudança relevante na capacidade nominal este ano. Com as importações crescendo e com quase 31% de ociosidade na produção doméstica, esperamos que ela permaneça próxima de 3.297 milhões de t/a até dezembro. Os investimentos devem se concentrar mais em modernização e produtividade do que na ampliação da capacidade.
Diante do avanço das exportações asiáticas de transformados plásticos produzidos em grande escala e com custos baixos, quais medidas concretas em prol da competitividade já foram tomadas pela indústria brasileira de flexíveis? Ou tudo se resume a pedir barreiras tarifárias e incentivos fiscais?
A indústria não ficou parada. Houve investimentos em automação, extrusão multicamada, redução de espessura, eficiência energética, controle de processos, estruturas monomaterial, reciclabilidade e utilização de resina reciclada. O setor compete por meio de desenvolvimento técnico, proximidade com o cliente e rapidez de atendimento. Mas precisamos reconhecer que esses ganhos não avançaram na mesma velocidade da expansão asiática.
A elevação temporária da tarifa pode reduzir a pressão imediata das importações e dar tempo para a indústria nacional reagir. Mas essa barreira precisa ser acompanhada por investimentos em produtividade, automação, eficiência e inovação. Caso contrário, teremos apenas um alívio passageiro, sem resolver as causas da perda de competitividade.
Diante do histórico brasileiro de tarifas elevadas, políticas de conteúdo nacional e poucos acordos comerciais, quais condições a ABIEF pleiteia para o crescimento da demanda doméstica ser atendido pela produção nacional?
A ABIEF defende a isonomia competitiva: resinas a preços alinhados ao mercado internacional, acesso facilitado a insumos sem produção nacional, crédito para modernização, desoneração dos investimentos, redução dos custos de energia e logística, recuperação rápida de créditos tributários e mais acordos comerciais. Também precisamos corrigir a chamada escalada tarifária invertida: não faz sentido proteger fortemente a resina e deixar o produto transformado exposto. O objetivo não é fechar o mercado, mas permitir que a indústria brasileira concorra em condições equivalentes.
Consumo de alimentos: desaceleração da economia e inadimplência abalam o maior mercado de embalagens flexíveis
Como a indústria brasileira de flexíveis pode almejar exportações substanciais se depende de resinas nacionais de PP e PE consideradas entre as mais caras do mundo?
É muito difícil exportar filmes padronizados (básicos e convencionais) quando os concorrentes compram resinas mais baratas e produzem em escalas superiores. Por isso, nossa estratégia deve priorizar filmes técnicos, embalagens de alta barreira, estruturas recicláveis, pequenos lotes e soluções personalizadas para alimentos, café, proteínas, pet food e agronegócio. Também precisamos ampliar acordos comerciais e garantir acesso competitivo às resinas importadas.
Diante da demanda interna menos aquecida e da alta nos preços de PP e PE no primeiro semestre, 2026 deverá ser um ano de volumes menores e margens maiores para flexíveis?
Para este segundo semestre espera-se que a economia siga em ritmo moderado, mas com condições de consumo mais favoráveis que nos seis primeiros meses. O setor de alimentos e bebidas deve continuar sustentando a demanda por flexíveis, ajudado pela histórica sazonalidade positiva do mercado na metade final do ano Desse modo, mesmo que as importações permaneçam elevadas, a produção interna pode apresentar alguma recuperação com a melhora da demanda, mas seguirá limitada pela forte presença de produtos concorrentes do exterior.
O relatório da ABIEF ressalta o crescimento de 12,4% do agronegócio, com consumo de 170.000 toneladas de flexíveis no primeiro semestre. Como explicar essa expansão diante da crise financeira no campo?
Não há contradição. O consumo de embalagens acompanha o volume físico produzido, armazenado e transportado e não apenas a rentabilidade do produtor rural. Mesmo com juros altos, inadimplência e recuperações judiciais, o agronegócio continua demandando sacaria para fertilizantes, sementes e rações, além de filmes para silagem, lonas e geomembranas. A crise também não atinge todas as culturas, regiões e empresas da mesma maneira.
O problema do agronegócio este ano está concentrado nas commodities de larga escala (grãos e proteína animal), não em hortifrútis. Este contexto justifica o crescimento, embora moderado, de janeiro a junho na plasticultura. O primeiro semestre teve bom desempenho, mas a persistência do El Niño em 2026 está comprometendo a oferta de frutas e hortaliças, devendo impactar no resultado final de 2026.


