Vendas de carros elétricos explodem na Argentina

Arrancada prenuncia queda nas exportações de veículos a combustão do Brasil
Vendas de carros elétricos explodem na Argentina

De cada cinco carros vendidos na Argentina, dois são importados do Brasil. Mantida anos a fio em veículos a combustão, esta participação que torna o país vizinho o maior cliente externo da indústria automotiva brasileira passa a correr risco. Em cena desde 2023, a metamorfose em curso no mercado argentino, vital para peças brasileiras de plásticos de engenharia para autos a gasolina, transcorre por meio do desembarque a galope de modelos elétricos e híbridos da China, tendo à frente a montadora BYD.

Até o passado recente, assinala matéria postada em 16/8, montadoras ocidentais enxergavam mercados de países emergentes, como a Argentina, como secundários, complexos e voláteis. Já o olhar chinês flagrou ali o embrião de uma frondosa demanda por ser cultivada. O posicionamento da China, maior produtor automotivo mundial (na faixa de 30 milhões de autos anuais) casa com a receita de crescimento econômico do governo Milei e a aversão do público, eriçada pela guerra no Irã, aos onerosos ziguezagues do barril de petróleo.

Os sinais emitidos já são de esbugalhar os olhos. Pente-fino do Centro de Transporte Limpo para o Sul Global da Universidade da Califórnia atesta que, de resultados irrelevantes em 2023 e 2024, as vendas de veículos elétricos na Argentina acumularam 1.300 unidades em 2025 e 1.000 de híbridos. Pois de janeiro a junho último, os argentinos compraram 4.200 elétricos e 5.600 híbridos. Um movimento que respalda a previsão do Centro de Transporte Limpo de que as vendas no semestre atual chegarão a 9.700 unidades, inclusos elétricos e híbridos. A mesma entidade norte-americana situa em 6% do mercado automobilístico argentino a participação das duas categorias comercializadas pela China no segundo trimestre deste ano. Maior montadora mundial, a chinesa BYD, com fortes investimentos em pré-vendas e marketing na Argentina desde 2025, embolsa por ora 89% das vendas no país de elétricos e híbridos plug in. No Brasil, a propósito, a BYD, com fábrica na Bahia, comparece na parcela de 12,7% detida por modelos elétricos nas vendas de carros no país durante o primeiro trimestre.

O comércio de veículos elétricos na Argentina, admite análise do Centro de Transporte Limpo, pode azedar se o governo impuser tarifas ou se a BYD encolher sua atuação. Ao abrir o mercado local, o presidente argentino, Javier Milei, barateou as importações. Mas essa abolição do protecionismo obsoleto periga ressuscitar em 2027, assinala o núcleo da Universidade da Califórnia, se o vencedor das próximas eleições presidenciais derrotar o liberal Milei e for devoto do populismo que quebrou e baniu a Argentina da economia mundial de 2001 a 2023. Hoje em dia, outros atrativos para o bolso estimulam a preferência por veículos elétricos na Argentina. Em Córdoba, por exemplo, concessionárias de serviços de energia concedem desconto na conta de luz a possuidores de autos elétricos. Em Buenos Aires, motoristas desses carros não pagam pedágio.

Compradores de carros a combustão vindos de fora do Mercosul, distingue a matéria em Inside Climate News, arcam com tarifa de importação de 35%. Mas ela é zero para veículos elétricos qualificados com valor de importação antes dos impostos inferior a US$ 16.000. 

Tal como no Brasil, a capacidade argentina de recarga é restrita; predominam as estações nas moradias ou locais de trabalho e Milei podou verbas federais para uma penca de obras de infraestrutura. A construção da necessária rede de reabastecimento exigirá investimentos para cobrir uma extensão geográfica acima de 3.700 km, da Bolívia à Patagônia.

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