A cadeia brasileira da reciclagem de plásticos levou uma estocada no primeiro trimestre deste ano eleitoral: pesou na constatada queda no suprimento de resíduos o desinteresse pela labuta da coleta por parte de uma multidão de catadores autônomos agraciados com políticas assistencialistas. Instituídas como ações pontuais nos anos 1990 e transfiguradas como programas unificados e aplicados em alta escala a partir dos anos 2000, as políticas inclusivas de distribuição de recursos têm hoje um peso decisivo, dada a baixa renda per capita nacional, para reger o consumo brasileiro de bens essenciais puxado por alimentos, o maior campo para as embalagens plásticas que, por seu turno, são a razão de ser da reciclagem polimérica. Sobram nas gôndolas, a propósito, exemplos de produtos antes restritos ao topo da pirâmide e que se popularizaram graças ao assistencialismo. À parte sua polêmica reputação de pega-votos de eleitor beneficiado, esses subsídios para famílias em situação de vulnerabilidade decidem o valor do ticket médio, a frequência de visitas e expõem, os meandros do giro de produtos de consumo diário no maior canal do varejo alimentar, os supermercados. Nesta entrevista, a relevância dos programas assistencialistas para as compras de bens não duráveis, seus efeitos colaterais no setor plástico e as justificativas para a recente perda de intensidade desses benefícios no poder aquisitivo de baixa renda são destrinchados com maestria por Erasmo Fraccalvieri, fundador e CEO da consultoria EF Desenvolvimento.
“As políticas de subsídios e crédito parecem ter chegado ao grau máximo de estafa. A explosão da inadimplência é apenas um reflexo desta dinâmica perversa”
Erasmo Fraccalvieri, EF Desenvolvimento
Qual o impacto de programas assistencialistas e demais subsídios para população pobre nas vendas do varejo de alimentos nos últimos anos – em especial do início de Lula 3, em 2023, até o final de 2024?
Interessante entender que o movimento do aumento dos benefícios se deu ainda em 2022, no governo anterior. Antes de Lula assumir, o acumulado de 12 meses de Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) trazido a valor presente pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), já somavam quase R$ 200 bilhões. O governo seguinte, obviamente, só deixou o movimento continuar.
Não obstante, não podemos negar que esta transferência de capital aumente a circulação no comércio alimentício, principalmente em supermercados. Porém, na tentativa de simplificar em demasia as dinâmicas de mercado, o senso comum dos empresários brasileiros se esquece de outros fatores importantes que estão afetando a dinâmica supermercadista. Os programas de assistencialismo impactam sim o varejo, mas acredito estarem superdimensionados no imaginário empresarial.
Esses programas assistencialistas e demais subsídios para a camada de baixa renda configuram, no plano geral. a salvação das vendas do varejo de alimentos nos últimos anos?
Cada região brasileira apresenta uma dinâmica distinta com relação aos benefícios e os impactos no setor de supermercados. Vamos comparar os dados da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS – negou entrevista) e dos benefícios em 2024. Segundo a entidade, o setor fechou o referido ano com faturamento bruto de R$ 1.067 trilhão. Segundo dados do Tesouro, os benefícios pagos neste mesmo ano somaram R$ 285 bilhões.
Segundo estudo do Ministério da Cidadania baseado em 2021, o beneficiário do BPC tende a gastar algo em torno de 27,5% do subsídio em alimentos (demais gastos seriam com medicamentos, consultas e tratamentos). Com os beneficiários do Bolsa Família, não temos registros atualizados, porém há um estudo da USP apontando que, em 2013, a média de consumo do benefício com alimentos em supermercados era da ordem de 42,5%. Sendo assim, do saldo de R$ 285 bilhões, R$ 104 bilhões teriam sido destinados a gastos na rede varejista para a aquisição de alimentos.
Que fique claro, estamos diante de uma aproximação, uma estimativa. Assim como seria inocente acreditar que 100% do benefício vá direto para os caixas dos supermercados. Portanto, em teoria, teríamos uma participação de quase 10% no faturamento bruto nacional dos supermercados decorrentes dos benefícios. Se pegarmos a região sudeste, responsável por 50% da receita bruta (segundo pesquisa de redes da ABRAS), mas recebendo 30% do volume de benefícios, este percentual de participação dos benefícios cai para 6,2%. A região sul, responsável por 21% do faturamento bruto e recebendo 7% dos benefícios, teria uma participação de apenas 3,4% do faturamento supermercadista oriundos de benefícios do governo. Pelo meu ponto de vista, estes indicadores não se enquadram como números “salvadores” das vendas para estas regiões.
O empresário do Norte e do Nordeste deve focar mais nesta preocupação, onde a participação dos benefícios pode atingir a ordem de 20% do faturamento bruto dos supermercados.
Como e por que o efeito dos programas assistencialistas e demais subsídios no gênero diminuiu no poder aquisitivo de baixa renda a partir do ano passado? Qual a influência dessa queda neste ano eleitoral para o governo atrás de votos?
No que se refere ao poder de compra de alimentos, não temos um enfraquecimento apenas dos benefícios. A população brasileira como um todo teve seu poder aquisitivo comprimido drasticamente na pandemia e a recuperação obtida nos últimos anos não foi capaz de recompor esta capacidade de consumo. Pela minha visão, um estudo recente da agência Kinitro Capital foi o que melhor desenvolveu esta ideia. Ela concebeu um indicador do poder de compra de alimento em cestas básicas. A análise se intitula “Por que a Economia Cresce, mas a Popularidade Recua? O Paradoxo da Carestia”. Em suma, mesmo o trabalhador formal, apesar da recuperação, tem um poder de compra inferior ao da década passada e é onde a avaliação do governo encontra a maior resistência.
Mesmo com o desemprego baixo e PIB crescente, o trabalhador formal, por exemplo, consegue comprar apenas 75% do que levava antes da pandemia. Não é um problema ideológico, mas um problema estrutural. O trabalhador brasileiro está estagnado na sua produtividade. As políticas de subsídios e crédito parecem ter chegado ao grau máximo de estafa.
A explosão da inadimplência é apenas um reflexo desta dinâmica perversa. A aceleração começou ainda no governo passado, o qual já entregou a faixa presidencial com 70 milhões de inadimplentes. De lá para cá, a situação piorou muito. Segundo o dado de janeiro último do SERASA, o número chegou a 81,3 milhões de pessoas, correspondente a 49,7% da população adulta (nota: aferidos 81,7 milhões de inadimplentes em fevereiro passado).
Segundo o SERASA, as dívidas não pagas chegam a R$ 525 bilhões. O brasileiro alterou o ditado do “devo, não nego”; ao invés do clássico “pago quando puder” a lei agora é do “simplesmente não pago”. Mas temos um detalhe interessante aqui. O aumento das vendas de supermercado são diretamente proporcionais ao crescimento desta inadimplência. Estes R$ 525 bilhões deveriam estar no caixa dos bancos ou das financeiras, porém permaneceram no mercado. O crédito ficou escasso para o brasileiro adquirir bens duráveis e até semiduráveis. Assim, como péssimo poupador que é, ele desovou este dinheiro no varejo de farmácia e supermercados. Se há um salvador do varejo supermercadista, a inadimplência é um forte candidato.
Reflexo da guerra no Irã, a disparada nos preços do petróleo, diesel e fertilizantes tende a diluir muito este ano os ganhos no poder aquisitivo de baixa renda oriundos dos programas assistencialistas e demais subsídios? O consumo de bens não duráveis, como alimentos, tende então a esfriar?
Como vimos, os ganhos de poder de compra ainda deixam a desejar. Não é a guerra que vai impactar o poder de compra e, sim, uma nova escalada da inflação. Não são apenas os beneficiários que sentirão os impactos; seremos todos nós.
O consumo de alimentos já arrefeceu e isso começou ainda no ano passado. Como já mencionei, o modelo benefícios/crédito chegou à saturação. O país não tem mais para onde crescer.
A tática do governo de subir o salário mínimo acima da inflação acoplada à explosão da inadimplência trouxe uma dinâmica nova na economia brasileira. O cidadão, ao ver seu poder de crédito cair, passa a olhar mais para o consumo de alimentos em detrimento de bens duráveis. Assim, o sistema se retroalimenta. A própria demanda excessiva por produtos não-duráveis faz com que a inflação desses itens ultrapasse o ganho do ajuste acima da inflação. O gráfico abaixo mostra a variação percentual dos índices do IPCA além da cesta básica da cidade de São Paulo desde a pandemia.
O segundo ponto pouco discutido é a defasagem nos salários de empregos que exigem mais capacitação. Ao subir o salário mínimo além do crescimento, o mercado passou a desvalorizar profissionais capacitados. Vou dar um exemplo: há duas décadas, um anúncio de faxineiro acenava com o pagamento de metade do salário de um assistente administrativo. Faça uma busca rápida em sites de empregos e você verá que hoje estão pagando a mesma coisa. Ou seja, houve uma equiparação, porém para baixo. O mercado não tem como acompanhar este ganho de renda médio. Assim, a classe C e D vê seu poder de compra sendo ainda mais comprimido. Hoje, a urna é o supermercado. A alta rejeição do candidato de situação fala por si.
Quais as possíveis mudanças que vislumbra no desempenho e perfil da transformação de embalagens plásticas este ano, espremida pela disparada nos preços das resinas causada pela guerra e a demanda interna atenuada por alimentos?
Crises são ótimas oportunidades para mudanças. O empresário do plástico insiste em ignorá-las. A cadeia vive nostálgica com o período pré-pandemia. Estamos espremidos há anos. É um setor alavancado e com baixo retorno – se fossemos uma ação negociada em bolsa teríamos o mesmo desempenho da Braskem. É uma cadeia desunida e espremida pelas pontas. Quanto mais os elos trabalham sem sinergia, mais fracos tendem a ser. Está tudo atrasado: o marketing, a gestão, a prestação de serviço, a logística, o crédito e, principalmente, a tecnologia. Não dá para ver o mundo mudar e trabalhar como se trabalhava há 20 anos. Volatilidade é o novo normal, podemos dar adeus aos longos anos de calmaria das décadas passadas. Infelizmente, com a situação atual, algumas empresas podem não suportar. Todavia, a renovação é saudável; ficam aquelas com capacidade de adaptação ao novo cenário.
Quais os efeitos desse cenário para indústrias de embalagens plásticas de alimentos que anunciavam no ano passado investimentos de olho numa retomada em 2026, no embalo das bondades distribuídas pelo governo?
Desconheço algum governo que não seja sequioso por votos e não acho que a mudança nos traga um. Trabalhando na parte da produção de filmes (nota: segmento transformador dominado por embalagens de alimentos) temos um horizonte revelador acerca da saúde financeira da conversão. Ela está na UTI. A guerra só tende apiorar o cenário. Dos mais de 200 balanços analisados, notamos um setor vulnerável. Há um excesso de alavancagem, a mediana ultrapassa três vezes o EBITDA (Lucros Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização). A idade média do estoque gira em torno de 70 dias o que exige custos extras e perdas decorrentes do custo de capital, em particular num país de taxa de juros elevada. A grande maioria não fecha a conta e depende de empréstimos para o seu giro. Notamos também um custo operacional alto, em geral por desagregação entre processos, principalmente de operações com dados. O cenário é delicado, pois um desbalanço ainda maior no fluxo pode se transformar com facilidade em falta de capacidade de honrar compromissos assumidos. Num cenário onde disponibilidade importa mais que preço, o tombo pode ser fatal.
Já passou da hora de modernizar e profissionalizar. Em empresas de cunho mais familiar, não é raro que a área financeira fique sob responsabilidade de parente muitas vezes sem formação ou experiência sólida na área. Não há análises de balanços. Há desconhecimento de custo de oportunidade e pouco conhecimento de instrumentos financeiros de hedge cambial, derivativos ou swap. Menos ainda em termos de um desenvolvimento de estratégia, de posicionamento. Sendo assim, em conjunturas como a atual, não sobra alternativa a empresas dentro desta moldura a não ser se afundar em dívidas ainda mais caras. Vimos isso no final de 2015, no fim do último grande ciclo de juros altos. Seria agora diferente? Creio que não.
Estamos diante de uma estagnação da demanda com grande possibilidade de retração no consumo. Além do investimento em capacidade, não vejo aportes declarados em tecnologia. Não falo da tecnologia de maquinário. Falo de tecnologia em dados. A inteligência artificial é uma realidade. O problema é que ela só pode ser implementada com a estruturação dos dados. Estruturação de dados representa o fim da gestão por papel e planilha. Processos movidos por papel e planilha são os mais caros dentro de uma empresa pois desperdiçam os recursos mais valiosos: tempo e gente. Se o corpo diretor da companhia não compreende isso, há uma alta probabilidade de que ela esteja na fila do tombo.


