O Brasil não escapa do fogo cruzado em que hoje se encontra a reciclagem mundial de plásticos. Como negócio, ela tem sofrido, nos últimos anos, com a guerra de preços movida pela superoferta de resinas virgens, ofensiva que tem culminado no encerramento de plantas recicladoras mecânicas e químicas nos EUA e Europa. Outra pedra no sapato: até hoje, os volumes reciclados não corresponderam aos números idealizados por arautos do ambientalismo para uma contribuição efetiva dos plásticos à circularidade, situação complicada por lacunas na legislação internacional e pela aversão de Trump ao pandemônio climático, que o diga seu comportamento diante de pactos internacionais e seu apoio incondicional à exploração de petróleo, intensa geradora de gases de efeito estufa. Transposto para o Brasil esse caldo indigesto é engrossado por incógnitas nossas, caso do recém aprovado decreto lei de logística reversa de embalagens plásticas, determinando uso de material reciclado em transformados por uma cadeia industrial de alta ociosidade em razão da deficiente estrutura de suprimento de resíduos e de evolução complicada pelos juros vigentes para investimentos produtivos. Na mesma trilha, o poder público exalta a reciclagem de plástico como primor da sustentabilidade, mas exclui o material das regalias concedidas a controversas exceções (indústrias da Zona Franca, por exemplo) na nova reforma tributária. Toda essa conjuntura de águas turvas é destrinchada na entrevista abaixo de Paulo Henrique Rangel Teixeira, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), entidade porta-voz oficial da reciclagem do material.
Qual o sentido da existência de diversas representações da reciclagem de plásticos sem vínculos entre si? Não seria mais produtivo, em termos institucionais e de abrangência nacional, juntar as entidades numa única voz consensual e de peso bem maior?
O setor de reciclagem de plásticos deu um passo importante rumo à união em 2012, com a criação, pela Abiplast, da Câmara Nacional de Recicladores de Materiais Plásticos (CNRPLAS). Desde então, ela vem ampliando a atuação, acumulando massa crítica e construindo uma pauta consistente de conquistas. É natural que, em determinados momentos, interesses individuais ou específicos apontem para caminhos distintos. No entanto, no contexto do associativismo, a ausência de construção coletiva e de uma visão orientada ao consenso enfraquece o propósito comum. Se, a cada divergência de agenda ou interesse particular, uma nova associação for criada, isso indicará uma incompreensão do verdadeiro conceito de associativismo.
“Sem sistemas estruturados de coleta, triagem e encaminhamento adequados, o potencial de reciclagem permanece subaproveitado”
Paulo Henrique Rangel Teixeira, Abiplast
O governo deve injetar cerca de R$ 88 bilhões para aquecer a economia este ano, via programas assistencialistas e subsídios, favorecendo assim a compra de bens de consumo imediato, maior mercado para os plásticos. Com base nisso, na norma em vigor da logística reversa de embalagens plásticas rígidas e na precária estrutura de coleta coletiva existente, acha ou não que a reciclagem de PCR fecha 2026 acima do nível de ocupação aferido em 2025? Qual a produção de PCR prevista pela Abiplast este ano?
2025 foi marcado pela estagnação do crescimento da produção industrial e do setor de transformados plásticos. Embora tenha havido um avanço nos primeiros meses do ano, esse movimento foi seguido por um período de estabilidade, no qual, mês a mês, os indicadores de produção não apresentaram crescimento relevante.
Para 2026, projeta-se um crescimento do consumo em torno de 2%. Apesar de representar uma melhora em relação a 2025, esse desempenho ainda não é suficiente para gerar expectativas mais robustas de recuperação do ambiente industrial.
Diante desse cenário, entendemos que a produção de plásticos e de materiais reciclados tende a permanecer relativamente estagnada, sem alterações significativas no nível de utilização da capacidade instalada da reciclagem que, por sinal, já opera em patamar adequado para atender às demandas do mercado.
A nova regulamentação da logística reversa de embalagens, que estabelece metas de conteúdo reciclado, pode atuar como vetor de estímulo ao uso de material recuperado e à ampliação da procura. No momento, porém, a oferta é suficiente e eventuais aumentos de demanda ocorrerão de forma gradual, acompanhando a evolução dessas metas.
Qual deve ser o impacto este ano do pleno emprego e programas assistencialistas sobre a disponibilidade de catadores de resíduos plásticos para reciclagem? Quais as alternativas para a indústria recicladora contornar este problema na coleta?
Desde o ano passado, o setor opera tecnicamente em um cenário de pleno emprego e com programas assistenciais e mesmo assim tivemos aumento das atividades de reciclagem. Esse contexto indica que a limitação atual não está na disponibilidade de mão de obra ou na capacidade produtiva, mas, sim, na oferta efetiva de resíduos.
Nesse sentido, a disponibilidade de material reciclável está diretamente associada à eficiência da logística reversa e à qualidade da gestão dos resíduos sólidos urbanos realizada pelos municípios. Sem sistemas estruturados de coleta, triagem e encaminhamento adequado, o potencial de reciclagem permanece subaproveitado.
Portanto, para ampliar a oferta de resíduos e fortalecer a cadeia da reciclagem, torna-se fundamental o estabelecimento de parcerias estratégicas com prefeituras, empresas gestoras de resíduos, cooperativas e entidades responsáveis pela logística reversa, criando um modelo mais integrado, eficiente e sustentável.
Tiro pela culatra: proliferação de representações similares enfraquece posicionamentos da reciclagem de plásticos.
A nova reforma tributária unifica diversos tributos em dois – IBS (estatal/municipal) e CBS (federal). Qual o impacto esperado da reforma no combate à informalidade aferida entre catadores autônomos e no reduto de revendedores de resíduos plásticos para reciclagem (sucateiros)?
A nova estrutura tributária inicia agora um longo período de transição, que se estenderá até 2033, durante o qual haverá a convivência dos dois regimes tributários, bem como a calibração gradual dos tributos CBS e IBS.
Apesar dos esforços do setor, os produtos reciclados ficaram fora das exceções previstas para CBS e IBS. Nese período, serão tributados pela alíquota cheia desses impostos.
A reforma tributária, no entanto, introduz o conceito de crédito financeiro em todas as etapas da operação. Como regra geral, esse mecanismo permitirá ao setor a apropriação e o repasse de créditos ao longo de toda a cadeia produtiva. Tende a ser um dos principais indutores da formalização, pois operar na informalidade implica a perda da possibilidade de aproveitamento integral dos créditos tributários.
Além do mais, outro fator relevante para o aumento da formalidade será a efetiva implementação das de conteúdo reciclado. Essas metas exigirão a comprovação metas das operações com materiais reciclados, o que necessariamente ocorrerá por meio de documentação fiscal. A plataforma Recircula Brasil, iniciativa desenvolvida pelo setor plástico, oferece um modelo estruturado para viabilizar esse processo e dar transparência às operações.
A maior parcela de recicladores é formada por empresas menores de controle familiar e baixa visibilidade fiscal. A nova carga tributária favorece ou inibe a proliferação e sobrevida de recicladoras pequenas?
A nova estrutura tributária desestimula a baixa visibilidade fiscal ao privilegiar operações formais, a exemplo da condição para o aproveitamento integral do crédito financeiro da carga tributária paga. Esse mecanismo constitui um dos pilares centrais da reforma tributária, ao incentivar a formalização e a transparência das operações ao longo de toda a cadeia produtiva.
Logística reversa de embalagens: metas das operações com materiais reciclados serão comprovadas por documentação fiscal.
A entrada em vigor da lei da logística reversa para embalagens plásticas pós-consumo de uso doméstico exigindo teor de reciclados nos produtos transformados, deve melhorar as margens do reciclador ao enfraquecer a extrema dependência do preço do PCR ao preço da superofertada e mais em conta resina virgem?
Vale lembrar que, em 2015, quando foi firmado o Acordo Setorial de Embalagens em Geral com o governo federal, havia, por parte de toda a cadeia, a expectativa de desestruturação do setor e de um aumento de custos que poderia torná-lo inviável. No entanto, o que se observa hoje é um cenário distinto: aproximadamente 25% das embalagens já são recicladas e a cadeia encontra-se estruturada para a operacionalização da logística reversa.
Em relação à exigência de conteúdo reciclado, espera-se um movimento semelhante. Num primeiro momento, haverá ajustes nos preços, nos custos e na organização da cadeia, que tende a se adaptar progressivamente às novas obrigações e metas. Durante essa fase de transição, pode ocorrer uma recomposição temporária de margens em determinados elos da cadeia em relação a outros. Contudo, como historicamente ocorre, a governança da cadeia e a dinâmica concorrencial serão os fatores determinantes para a definição e o equilíbrio dessas margens ao longo do tempo.
Devido à pressão ambientalista, baixo valor comercial e limitações técnicas para reciclagem, recipientes descartáveis caminham para uma oferta em queda livre? E mais: descartáveis explicam por que poliestireno (PS) é a resina menos reciclada no Brasil?
Vale destacar que os descartáveis de PS e polipropileno (PP) estão sujeitos a banimentos e restrições, enquanto os descartáveis biodegradáveis permanecem liberados. Isso sugere que a questão central recai sobre a matéria-prima utilizada e não sobre o produto em si ou sobre uma restrição direta ao seu uso.
A inteligência artificial agregada à nova geração de máquinas de transformação deve abrir a contagem regressiva para a redução significativa das aparas industriais?
A adoção de métodos mais inteligentes de manufatura otimiza processos produtivos e fortalece a competitividade das empresas ao reduzir desperdícios e custos operacionais. Essa tendência está diretamente alinhada ao conceito de circularidade, pois ele visa maximizar o uso de recursos, minimizar a geração de resíduos e criar um ciclo mais sustentável de produção e consumo. Ao investir em manufatura inteligente, o setor não apenas melhora sua eficiência, mas contribui para a sustentabilidade ambiental e para a criação de valor ao longo de toda a cadeia produtiva.
Catador de sucata plástica: reforma tributária tende a induzir formalização da atividade.
No Brasil, a reciclagem de sucata plástica que mais atrai vultosos investimentos é a de PET reciclado grau alimentício, a cargo de poucos players de maior escala e tecnologia de classe mundial. Este modelo de grande negócio rentável e sólido deveria ser seguido pela pulverizada indústria recicladora de PP e PE, setor de baixa barreira de entrada e abarrotado de empresas menores, defasadas e menos capitalizadas?
A história da reciclagem do PET é longa e marcada por importantes avanços. A cadeia passou por uma reestruturação que possibilitou a abertura e o desenvolvimento de diferentes mercados para sua aplicação, consolidando esse modelo e fortalecendo o mercado. Já os diferentes usos de PP e PE em diversos produtos geram uma dinâmica distinta, tanto em termos de cadeia quanto de utilização de PCR.
No entanto, o desenvolvimento de novos mercados e aplicações para PCR continua sendo fundamental para o sucesso da reciclagem desses materiais. Nesse contexto, vale destacar o trabalho da Rede pela Circularidade do Plástico com resíduos de embalagens flexíveis pós-consumo de PE e BOPP, por meio do projeto CirculaFlex. O projeto tem como objetivo criar rotas para o flexível reciclado e ampliar seus mercados, fortalecendo a cadeia da logística reversa desses resíduos e gerando impactos positivos para cooperativas e recicladores.
Há décadas, a conjuntura mundial mostra um desempenho da reciclagem de plástico abaixo do nível visto como necessário para combater o aquecimento climático. Em contraste, dispara a exploração de petróleo e gás, uma das principais fontes liberadoras de gases de efeito estufa. De que adianta, então, na prática, incentivar a energia limpa e sustentabilidade dos plásticos?
Gostaria de destacar que a reciclagem é fundamental no combate ao aquecimento global, ao reduzir o consumo de matérias-primas virgens. Isso não apenas economiza energia e diminui as emissões de gases de efeito estufa, como evita a decomposição de resíduos em aterros, reduzindo a liberação de poluentes no meio ambiente.
É importante considerar que estamos em meio ao desenvolvimento de um modelo de negócio pautado pela transição para a economia circular. Nesse contexto, barreiras não tarifárias e nichos de mercado de maior valor agregado estão se tornando cada vez mais relevantes na construção dessa realidade. •


