A produção brasileira de PVC entrou em estagnação com o fim da mineração de sal gema e com o desinteresse de investidores por atualizar a capacidade doméstica cada vez mais escassa?
O problema ocorrido em Alagoas, de fato, abalou as estruturas da dinâmica do PVC nacional. Se antes disso a produção local já não era competitiva frente a outras partes do planeta, agora mesmo é que não há muito o que discutir. No Brasil, a indústria petroquímica como um todo está sem competitividade, tanto que há anos as importações ganham espaço. E as empresas locais (sejam monopólio ou duopólio) não conseguem manter suas participações de mercado.
Este quadro, por si só, é um bom indicador para demostrar porque não exista interesse de investidores em ampliar a produção local de qualquer termoplástico. Sob a hiper oferta global de polímeros commodities em geral, incluso PVC, e com a falta de matérias-primas domésticas competitivas, acredito que não veremos investimentos no vinil por aqui nos próximos anos.
“As importações de PVC já superarão este ano a oferta nacional”
FLAVIO SILVA / OHXIDE
Em 2024, a produção brasileira de PVC recuou 3,6% sobre 2023 e o consumo aparente subiu 38%, puxado pela alta das importações. Pelo histórico desde 2018, em quanto tempo acha que as importações devem superar a oferta da resina nacional e, daí por diante, como ficará o nexo dos recorrentes pedidos brasileiros de aplicação de direitos antidumping para PVC importado?
Pelos dados que acompanhamos aqui na OHXIDE, achamos que este ano as importações já superarão a oferta nacional. Temos apenas que explicitar que importações oriundas da Argentina são quase uma produção local, uma vez que a Unipar tem unidade no país vizinho.
Por exemplo, de janeiro até outubro último já entraram mais de 530.000 toneladas de PVC, contra 548.500 no mesmo período em 2024. Ou seja, com mais dois meses para fechar 2025, superaremos fácil o número de 2024 e acho que será o recorde da série histórica, cuja marca máxima anterior ocorreu em 2021, com cerca de 566.000 toneladas então importadas.
A questão é que estamos com ociosidade operacional alta no Brasil, em torno de 30%. Ou seja, só estamos produzindo algo próximo de 70% da capacidade nacional. Isso piora ainda mais a situação, pois o desempenho operacional fica comprometido em termos de custos com tamanha ociosidade.
Não há nexo nos pedidos brasileiros de antidumping e, sim, uma esperança de respiro de competitividade, que na prática não se concretiza há algum tempo.
Braskem em Alagoas: desastre geológico em Maceió derrubou produção de PVC.
A aplicação de dumping tem por base conceder à indústria nacional tempo para se preparar para competir com importações. Há mais de 30 anos, o Brasil renova quinquenalmente a aplicação de sobretaxas tarifárias para PVC dos EUA e México. Nesse ínterim, não se sabe de qualquer investimento na competitividade da produção brasileira. Este quadro demonstra que, para a indústria do vinil, dumping constitui uma ferramenta de protecionismo eterno e não um respiro pontual para ganhar competitividade?
Concordo plenamente com a afirmação. E reitero que, a cada ano que passa, mais distantes da competitividade internacional ficamos. As unidades nacionais são antigas, projetadas com tecnologias ultrapassadas (mesmo com as manutenções e atualizações efetuadas ao longo dos anos), suas escalas são pequenas frente às plantas de classe mundial (o estado da arte atual) e o único ponto que poderia mudar esta conta no país seria a matéria-prima. No entanto, também caminhamos na contramão dos países mais competitivos há muito tempo, com escassez de matéria-prima e custos mais altos.
Mudar esse cenário de forma estrutural requererá muito planejamento e investimentos. Uma possível solução seria aproveitar o gás do pré-sal. Mas, até o momento, essa frente não avançou de forma consistente para dar uma perspectiva ao setor petroquímico de ter matéria-prima em abundância e, desse modo, competitiva. Investimentos e novas unidades só virão após uma confirmação de existência comprovada de disponibilidade grande de matéria-prima.
PVC da China: superoferta global não trava busca de autossuficiência na produção do vinil.
O histórico recente, tanto em poliolefinas como em PVC, demonstra que as sobretaxas tarifárias aplicadas pelo Brasil não estão refreando o ímpeto das importações, impulsionadas pelo excedente global e eteno acessível. Diante disso, os aumentos das tarifas constituiriam apenas um meio para elevar preços internos (e margens) da resina nacional, nas pegadas do encarecimento imposto às importações?
Correto, tudo o que já conversamos até aqui também se aplica para esta resposta. As barreiras tarifárias nacionais, na prática, apenas encarecem o valor das resinas para a indústria de transformação que, no final do dia, tentará repassar o reajuste aos brandowners (tarefa nem sempre fácil) e qualquer repasse também será transferido ao consumidor final. Na análise fria, é um processo que vem retirando a competitividade dos produtos transformados.
Ou seja, recorrer à sobretaxa é tampar o sol com a peneira em prol da sobrevida de uma indústria, tendo como reflexo a geração de prejuízo profundo ao setor de transformação nacional de plástico. Se observarmos bem, todo país desenvolvido tem um setor pujante de transformação (manufatura) de matérias-primas em bens industrializados, com alta concentração de mão de obra.
A China é o maior produtor mundial de PVC e, alheia às margens em queda devido à super oferta mundial, continua expandindo sua capacidade em busca da autossuficiência na produção do vinil. Diante desse excedente e da crise imobiliária interna, como avalia a possibilidade de a China aprofundar, daqui por diante, suas exportações para a América do Sul não só do polímero mas de transformados tradeables do vinil?
Sem dúvida esse cenário tende a acontecer. Com players nacionais buscando alternativas aos produtores daqui os excedentes da China aparecem como uma boa oportunidade para consumidores de resinas de PVC. E, como já falei, essa competição nos produtos transformados também está se acirrando. Com aumentos das barreiras em resinas, o que ocorre é uma perda de competitividade dos transformadores locais. Então, juntando a isso a nossa perda de competitividade com excedentes chineses, que nem sempre têm uma lógica econômica por trás, cria-se um cenário drástico para a produção nacional.
Porto de Chancay no Peru: trunfo logístico para incrementar penetração no Brasil de produtos chineses como PVC.
Qual deverá ser o papel do porto peruano de Chancay, controlado pelo governo chinês, nessa estratégia?
O porto de Chancay, inaugurado ao final do ano passado e ainda em fase inicial de operação, é mais uma ferramenta de aumento da competitividade chinesa para atingir o mercado da América do Sul. Este ativo encurta em, aproximadamente, 15 a 20 dias o transit time de navios da China. Minha visão é que sim, ele vai influenciar o mercado brasileiro com aumento nas internações do volume de material trazido da China. Mas, talvez leve algum tempo para isso, pois a logística a partir do porto para atingir as regiões brasileiras de maior consumo de PVC ainda é uma incógnita. A princípio, a carga iria pela rodovia Interoceânica até chegar no Acre e, então, usaria a malha rodoviária nacional para descer até o Sudeste e Sul.
Conforme noticiado, Braskem substituiu a produção local de dicloroetano (DCE) por importações desse insumo dos EUA. Pela sua estimativa, em quanto isso deve diminuir o custo de produção de PVC da empresa? E mais: é segura e viável a longo prazo uma operação petroquímica dependente de matéria-prima remetida de 8.900 km de distância?
De fato, essa substituição ocorreu, basta observar os dados de importação do DCE desde meados de 2017 para a frente. Sobre a questão do percentual de redução no custo do PVC, é uma estimativa complexa, pois envolve variáveis que, não necessariamente, oscilam nas mesmas direções. É fato que o DCE produzido nos EUA é mais competitivo que o produzido no Brasil, mas a logística envolvida, a margem do produtor, despesas portuárias e necessidade de estoque, entre outras despesas, fazem com que o custo final fique mais próximo da opção de produção local ou, até mesmo, a desproporção seja quase indiferente. Óbvio que haverá períodos de ganho e outros de perda frente à opção da produção local.
No entanto, mesmo vindo dos EUA a rota de produção chinesa via acetileno (originário do carvão) ainda é bem mais competitiva que a americana, cerca de 150 dólares a tonelada. Então, a influência do produto asiático continuará aqui no Brasil, o que torna a Braskem menos competitiva frente às importações do vinil.
Sobre a manutenção da operação por longo prazo, o que estamos vendo é que este processo já ocorre há oito anos e quase ininterruptamente, mês a mês. Então, do ponto de vista operacional, está funcionando. Ainda sim, o sistema adotado é melhor economicamente do que trazer direto o PVC importado e revender, ou então, perder este mercado para concorrentes. Os dados públicos da Braskem são fechados neste aspecto, mas acredito que importar DCE dá resultados positivos (mesmo que mínimos), numa análise global de valor quando se compara importar o insumo versus não produzir PVC.
Dicloroetano: Braskem substituiu produção em Alagoas por importações dos EUA do intermediário para PVC
Quais as alternativas para a Braskem utilizar o eteno sobrante do fim da sua produção local de DCE?
O balanço de eteno no polo de Camaçari e na petroquímica de Alagoas sempre foi apertado. Se todas as unidades que consomem esta matéria-prima na região operassem com altas capacidades, não haveria eteno suficiente, sendo necessária a importação. No entanto, esta condição nunca se deu, Nos anos de maior produção naquele polo, a taxa operacional média dos polietilenos e PVC superou, ligeiramente, os 90%. E, nos últimos anos, está próxima dos 70%, por sinal taxa muito baixa para plantas petroquímicas.
Com isso, não há uma demanda para a utilização do eteno que não é mais utilizado para a produção do DCE. Enquanto a Braskem não consegue encher as unidades de polietileno, este eteno ficará “sobrando” e a alternativa seria vender a outras empresas que poderiam empregá-lo em outro produto, como o MEG (monoetileno glicol) ou estireno num (im)possível aumento de produção. Porém, esta capacidade de produção adicional destes dois materiais não consumiria todo este eteno sobrante do DCE.
O fim da produção local de DCE pode ser interpretado como prenúncio de gradativa saída da Braskem do negócio de vinílicos?
Os ativos de PVC ainda são de bom potencial de receita para a empresa e não há informações públicas sobre o interesse de sua gestão em sair apenas de vinílicos, mas sim de sair do negócio (operação petroquímica) como um todo, vide as informações sinalizadas pelo sócio controlador (Novonor). Além disso, não seria uma saída simples sair somente do PVC. Afinal, o mercado nacional é consolidado em duas empresas produtoras e os recursos de PVC da Braskem estão “embrenhados” em outros ativos dela. Além disso, pesa no quadro o passivo ambiental de Alagoas que, dificilmente, alguma outra empresa aceitará inserir num potencial negócio. Tudo isso sem considerar na análise o lado político, o qual, numa eventual saída, deixaria enfraquecida a posição da Braskem em pleitos de benefícios fiscais, antidumping etc. Este é o ônus de ser um monopolista privado (em poliolefinas) do setor petroquímico.


