Até o fechamento desta edição, os elos da cadeia plástica não haviam chegado aos números definitivos. Mas saltam aos olhos as evidências de que o setor foi tragado no primeiro semestre por uma tempestade perfeita. No plano macro interno, raios e trovões foram despejados por sintomas de metástase da desgovernança das contas públicas e da gestão estatal obsoleta e perdulária. Falam por si os juros extorsivos, inflação à solta, câmbio errático, crédito arredio e nova onda de protecionismo numa economia já trancadíssima a sete chaves. Por essas e outras, a demanda dos plásticos sentiu na primeira metade do ano o quanto dói a anemia das vendas de bens duráveis, efeito da seca nas transações a prazo. Nos bens essenciais, embora ninguém deixe de comer, a pancada no plástico tem sido desferida por atos do empobrecido consumidor final, como a migração de marcas caras para baratas, cortes na veia da lista de compras e a substituição de alimentos inflacionados, como café e carne (produtos que o Brasil dita o abastecimento mundial), por chá e ovos.
Quanto às causas gerais externas, os furacões da tempestade perfeita se alastraram nos seis meses iniciais. O caos segue rolando na forma de porra-louquices como a arruaça tarifária de Trump e decorrentes retaliações mundo afora encabeçadas pela China, guerras na Ucrânia e Oriente Médio, derretimento da manufatura europeia, esfriamento da economia global e, cereja no bolo das incertezas, o ziguezague altista do barril do petróleo.
Completam a tempestade perfeita a queda de granizo na forma dos empecilhos paridos pela própria indústria plástica mundial. Na linha de frente, arruína as margens da petroquímica a superoferta recorde de resinas, fruto do último super-ciclo de investimentos do setor (1992-2021) na China, América do Norte e Oriente Médio. Hoje, essa sobra tromba com a demanda global sem tração. Por tabela, devido ao custo de matéria-prima (gás natural), ganhos de escala e tecnologias atualizadas, o mega excedente internacional escancara a falta de competitividade da petroquímica brasileira e preenche a diferença entre a cada vez mais insuficiente produção doméstica e o consumo interno, como se nota em particular em poliolefinas e PVC. Para piorar, a abundância mundial de resina acessível está por trás dos já consideráveis desembarques no Brasil de transformados exportáveis.
Nada disso é novidade para quem milita em plástico, mas sua menção procede aqui para justificar cenas no setor características de um ambiente misto quente de insegurança e turbulência. Por exemplo, um importador tenso no final de junho com a hipótese de sua carga avantajada de polietileno dos EUA a meio caminho do Brasil ser alvo de aplicação de antidumping, sobretaxa em estudo pelo governo até o fechamento desta edição. Outro caso em forma de reviravolta abrupta: na certeza de mais uma supersafra de grãos, megafones da transformação anteviam, no início do ano, vendas em brasa na plasticultura – agrofilmes, silagem, geomembranas etc. Pois em junho espoca a notícia de que, embora confirmada a colheita recorde, o agronegócio acusa agora inadimplência relevante e margens em baixa, devido aos juros abusivos, disparada nos custos de insumos dolarizados, crédito arisco, queda dos preços internacionais das commodities e martírios climáticos.
Na reportagem especial desta edição, fornecedores de plásticos de engenharia narram a queda em espiral das suas vendas e se aferram à previsão de volta por cima em 2026, na garupa de uma esperança extensiva à cadeia das resinas commodities: surfar na adrenalina injetada pontualmente no consumo por artes do governo atrás da reeleição.
Ocorre que não se resolve esse problemão com retomada artificial e efêmera, mas com reformas estruturais ultra clamadas por quem faz as contas. E quanto mais proteladas, mais nítido fica o abismo. •


