Os números falam por si e ainda falta muito para falarem bem do saneamento básico no Brasil, deixou patente no seminário Édison Carlos, presidente do Instituto Aegea, pêndulo das empresas privadas atuantes no abastecimento e purificação de água e coleta e tratamento de esgoto. Num rasante pelos indicadores de 2024 colhidos pelo Instituto Trata Brasil, o dirigente escancarou o vexame inaceitável para o país: 32 milhões de pessoas sem água tratada; 90 milhões sem coleta de esgoto e 4.4 milhões sem dispor de banheiro. Tem mais: apenas 52% do esgoto coletado é tratado e 37% da água purificada é perdida. A calamidade pública compreende ainda cerca de nove milhões de litros de esgoto despejados por minuto em recursos hídricos e ao redor de 63 toneladas de resíduos sólidos urbanos são despejadas por minuto em lixões ou, efeito do descarte incorreto, em áreas não atendidas por serviços de coleta. A propósito, acentuou Carlos, com apenas 15% de coleta e tratamento de dejetos, o Norte é a região brasileira mais defasada em termos de cobertura de esgoto.
A consultoria Roland Berger propala constatar, entre investidores internacionais, um nível expressivo de desconhecimento sobre os projetos e leilões na agenda brasileira de universalização do saneamento básico, lacuna atribuída a boi na linha da comunicação. Do lado do empresariado nacional, a Aegea tem sobressaído pela agressividade com que alarga sua margem de manobra na área. Em 2010, quando foi constituída, ela administrava ativos em água e esgoto para servir uma população de 1,6 milhão de pessoas, indicadores projetados para o exercício corrente em 38 milhões de indivíduos em mais de 860 municípios em 15 estados. Édison Carlos situa em 36,8% a participação atual da Aegea no investimento privado em saneamento no Brasil. Em latim, aliás, Aegea deriva de Egeo – aquele que ruma para o futuro.
A eficiência do Marco Regulatório para inocular a previsibilidade jurídica condicionada por empresas não públicas para investir em saneamento, apontou Carlos no seminário, aparece no seguinte comparativo: entre 2015 e 2020, o número de municípios atendidos pelo setor privado passou de 291 a 389, enquanto em 2021 (sob vigência da nova legislação) saltou para 430 e deve fechar este ano em 2.193 localidades, avançando para 2.766 em 2026, segundo projeções da Associação e Sindicato Nacional de Concessionárias Privadas de Serviços de Água e Esgoto (Abcon/Sindcon). O porta-voz da Aegea monetiza o horizonte com uma previsão da Roland Berger: para cumprir o cada vez mais desafiador prazo de universalização do saneamento nos próximos oito anos, será necessário um aporte da ordem de R$ 550-700 bilhões.
De cinco anos para cá, sob o guarda-chuva da nova regulação do saneamento, o BNDES constata crescimento de 200% das operadoras privadas nos municípios, totalizando mais de R$ 96 bilhões em investimentos contratados e beneficiando um contingente da ordem de 50 milhões de brasileiros, enumerou Édison Carlos em sua apresentação. No arremate desses sinais de expansão persistente do atendimento, o presidente do Instituto Aegea comentou que, conforme rastreio de sua empresa, há pelo menos 43 projetos (10 regionais e 33 municipais) em modelagem para sair do pipeline nos próximos anos, sob a torcida para liberar o aporte total de R$ 105 bilhões para tornar minimamente digna a vida de 36,3 milhões de pessoas.
Seminário: debate sobre o futuro do saneamento no Brasil
Participantes
Alexandre de Castro – Mediador
Diretor de negócios da Unipar e presidente da diretoria executiva do Instituto Brasileiro do PVC
Édison Carlos – Debatedor
Presidente do Instituto Aegea
Ricardo Hajaj – Debatedor
Fundador da transformadora e recicladora Cimflex
Mauro Seabra – Debatedor
Gestor executivo do grupo setorial PVC da Associação Brasileira dos Fabricantes de Materiais para Saneamento (Asfamas)


