Diretor da Braskem confia em retomada atrelada à aprovação das reformas encaminhadas pelo governo

“O mercado sinaliza que já passamos pelos piores momentos”, constata nesta entrevista exclusiva Rafael Christo, diretor de marketing e controladoria de polímeros do grupo petroquímico.

Rafael Christo
Rafael Christo

PR Em relação às resinas da Braskem- polipropileno (PP), PVC e polietileno (PE)-, qual a expectativa para as vendas internas no semestre atual versus o primeiro semestre de 2016? Com base nessa estimativa, como antevê o período inteiro de vendas internas em 2016 perante o exercício de 2015?

Christo – O mercado de PE normalmente acompanha o PIB, crescendo ou caindo de forma mais acentuada, o que explica a queda de mercado deste ano. Até o momento, observamos queda em torno de 10% em relação ao mesmo período de 2015, número não correlacionado de todo com a demanda, mas sim com os movimentos de estocagem ao longo da cadeia ocorridos no ano passado. O número de variação de mercado que acreditamos para 2016 é de queda entre 5% e 6%, com a demanda impactada de forma forte pelos setores automotivo e da construção civil (ambos com grande oscilação, mas de baixo impacto para PE) e pelos mercados de varejo e alimentos, estes estagnados em relação a 2015.

Em PP, a expectativa é de que as vendas neste semestre sejam maiores do que os primeiros seis meses do ano. Isso deixaria o mercado entre 2% e 4% menor do que o ano passado, refletindo ainda um cenário econômico desfavorável. No caso de PVC, resina diretamente ligada ao setor de construção civil, prevemos que o mercado permaneça nos mesmos patamares do primeiro semestre de 2016.

PR Em geral, a transformação cruzou o primeiro semestre bem mais descapitalizada do que em 2015 e sofrendo com maior escassez de crédito e de demanda. A seu ver, quais os segmentos da transformação mais enfraquecidos?

Christo – O cenário atual tem impactado todos os segmentos de transformação, principalmente os de bens duráveis, como automóveis, eletrodomésticos e construção civil. Os mercados de varejo e alimentação se mostram equilibrados, estando empatados ou oscilando pouco em relação a 2015. No âmbito específico de PVC, a construção civil é o setor mais enfraquecido nesse cenário. Cabe observar, no entanto, que existem grandes diferenças dentro dos segmentos quanto ao nível individual de capitalização das empresas, fruto das suas estratégias financeiras e de negócio.

PR Devido à quebra das contas públicas, secaram as verbas para o grosso dos projetos de infraestrutura, vitimando em cheio produtos plásticos para esta área. Evidente que tão cedo a dívida pública não será equacionada e, por tabela, o caixa para a infraestrutura continuará à míngua. Quais as consequências dessa calmaria para o transformador mais dependente do mercado de infraestrutura?

Christo – O impacto foi realmente relevante na esfera da infraestrutura. De outro Ponto de vista, trata-se de um segmento ágil. O que temos observado são clientes buscando alternativas para manter as operações, tais como a entrada em novos redutos através da substituição de materiais, aplicações inovadoras e pela via do ajuste dos custos. Outra saída que tem sido viável é o redirecionamento da  produção de transformados para a exportação, aproveitando a atratividade do câmbio e os incentivos do PICPLAST.  Além disso, a flexibilidade e resiliência conquistada ao longo dos anos caracterizam a transformação de produtos para a infraestrutura como preparada para suprir o mercado tão logo a economia retome seu crescimento.

PR No relatório da Braskem, o mercado interno de PVC caiu 11%no primeiro semestre. O percentual de queda semestral é recorde no gênero nos últimos 10 anos?

Christo – Não é recorde. O segundo semestre de 2015 representou queda de quase 22% em relação ao segundo semestre de 2014.

PR-  Diante desse recuo do mercado interno e do câmbio que tende a seguir inibidor para importações por bom tempo, a Braskem pretende ou não insistir na renovação de antidumping mantido há décadas para PVC dos EUA e México?

Christo – O antidumping não proíbe as importações nem tem correlação com a variação cambial ou movimentos do mercado interno. Trata-se de uma medida de defesa comercial que visa levar a competição entre exportadores e produtores nacionais a um nível isonômico.  Essa medida é necessária para corrigir preços de dumping, ou seja, preços desleais que causam danos à indústria doméstica, especialmente quando as origens envolvidas possuem ostensivo potencial exportador. O processo de renovação mencionado está em curso, sob análise do Departamento de Defesa Comercial (Decom) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

PRComo avalia a consistência dos alardeados sinais de volta da confiança dos empreendedores e de retomada em breve da economia?

Christo – O mercado dá sinais de que já passamos pelos piores momentos e de que, nos próximos períodos, deverá haver recuperação. No entanto, a retomada de crescimento está intimamente ligada à execução de uma agenda de retomada dos fatores conhecidos de competitividade da indústria e da economia.

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